Fabrice Soulier Fala Sobre Poker, Cinema e Outros Assuntos

Por: 23/05/2012

Antes do poker, você tinha uma carreira promissora no cinema e na televisão. Como foi sua transição para um jogador profissional de poker?

Chegou um momento que eu estava fazendo os dois: era diretor de TV durante o dia e jogador de noite. Eu estava exausto, e no final percebi que não podia continuar assim para sempre: precisava fazer uma escolha. Então decidi seguir meu coração e minha paixão e tirei um ano para jogar poker. E logo depois decidi me mudar para os EUA, no início dos anos 2000, com meu amigo David Benyamine. No fim, nunca me arrependi da minha escolha, mesmo que às vezes eu queira muito fazer um vídeo ou um filme.

Você ganhou seu primeiro bracelete do WSOP no ano passado em um evento de H.O.R.S.E. Você diria que seu jogo principal é em Omaha ou Fixed Limit ao invés de No-Limit Hold’em?

Em cash games eu definitivamente amo jogar mixed games porque raramente fico entediado: stud, stud hi/lo, badugi, deuce to seven, badeucy, limit hold’em, Omaha 8 or better, etc. É a mesma coisa em torneios, eu amo jogar H.O.R.S.E. Além disso, cada vez mais tem bons jogadores em No-Limit Hold’em; a vantagem que temos está cada vez mais reduzida. Mas esse não é o caso em outros jogos de limit. Então eu aproveito enquanto isso dura!

Você prefere jogar cash games ou torneios?

O que eu gosto de jogar em cash games é Mixed Games, ou às vezes, Pot-Limit Omaha.  Você quase nunca vai me ver jogando NLHE em cash games: me deixa muito entediado depois de pouco tempo. Então eu só jogo cash games quando estou em Vegas, porque encontro mesas que me interessam. Mas de qualquer maneira, agora que sou um jogador patrocinado pelo Everest Poker, não preciso  jogar tantos cash games, como costumava fazer. Alguns anos atrás, eu jogaria a noite toda para conseguir o buy-in do torneio do dia seguinte.

Você é um dos principais jogadores do Global Poker Index, e retornou ao top 10 no início de abril. Você se importa com esses rankings? Qual sua opinião sobre eles?

Ranking é muito importante para muitos jogadores de poker, mesmo que eles não admitam. Algumas vezes, o que importa não é o dinheiro, e sim as performances e quão bem você precisa jogar o ano todo para estar nos rankings. Para mim é importante porque eu sou um competidor, e também para os patrocinadores. Eu prefiro ficar sem sair do top 10 por três anos consecutivos do que terminar em segundo lugar no Main Event (do WSOP) e não conseguir resultado nenhum depois disso… sou fundador do www.madeinpoker.com e em breve teremos o ranking do GPI, porque a fórmula deles é uma das melhores.

Falando nisso, o que te motiva no poker? É apenas o dinheiro ou você tem prazer em jogar?

Sempre fui competitivo; vencer é muito importante para mim. E não digo somente no poker: é sobre sentir orgulho na sua vida em geral. E não precisa ser relacionado ao dinheiro: sou muito agradecido e feliz por estar conseguindo bons e consecutivos resultados no circuito pelos últimos 10 anos. Significa muito para mim; mais do que o dinheiro por trás disso. Mas é claro que também estou muito feliz de poder viver bem com a minha paixão.

Sendo um ex-diretor de TV, você já pensou em produzir algo relacionado ao poker?

O tempo todo! Minha namorada trabalhava como roteirista de cinema então atualmente estamos trabalhando em projetos diferentes e muito interessantes. Mas o problema é que alguns produtores tem uma visão errada sobre poker. Eu lembro que escrevi um script uma vez que refletia o mundo do poker exatamente como é. E um produtor leu e disse: “Bem, isso é legal mas onde estão as trapaças, a máfia, os tiros nos joelhos, os milhões em dinheiro, as drogas, as prostitutas, blablablabla…” Muitos deles ainda tem a visão clichê do mundo do poker como era há 30 anos.

Ainda sobre cinema, qual é sua opinião sobre os filmes de poker atuais, falando como alguém que tem conhecimento sobre o assunto?

Cenas de poker são realmente muito mal dirigidas e escritas. Veja James Bond (Cassino Royale): os atores são excelentes, mas a cena de poker é ruim e o cenário é mais que incoerente. “Cartas na Mesa” (Rounders) e “A Mesa do Diabo” (The Cincinatti Kid) são para mim os melhores filmes de poker. Tem também uma cena de poker em “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” (Lock, Stock and Two Smoking Barrels) que eu acho muito bem dirigida: quando o cara perde todo o dinheiro e se levanta, você sente a dor dele como se tivesse acontecido uma grande perda na vida real.

Você atualmente é patrocinado pelo Everest Poker. Como foi seu contato com eles? Você recebeu propostas de outras salas?

Eu estou no circuito profissional há muitos anos e fui o primeiro jogador patrocinado na França. Eu acho que tenho o recorde mundial em uma coisa: o maior número de patrocinadores! Antes do Everest, eu tive quatro outras salas de poker online como patrocinadores. Mas com o Everest, eu realmente sinto que encontrei uma família no negócio de poker. Me dou bem com todos e tento dar sugestões sempre que posso (por exemplo, as novas mesas que estão chegando, junto com um novo sistema de distribuição de prêmios e nova estrutura de blinds). Estou muito feliz em representá-los, porque compartilhamos os mesmos valores: nem tudo tem a ver com dinheiro.

Qual é sua opinião sobre os jogadores brasileiros?

Bem, sempre que vou ao Brasil, a última coisa que quero fazer é jogar poker!  Faço isso como trabalho durante o ano todo, então quando vou ao Ceará, só quero relaxar, me divertir, ir na praia, fazer kite surf e beber caipirinhas! Não sei quantos jogadores profissionais tem no Brasil, mas alguns são realmente bons! Eu lembro da mesa final de André Akkari, por exemplo: ele é um jogador muito bom e quando ele ganhou o bracelete, seus amigos vieram para a torcida e o apoiaram, foi a torcida mais barulhenta que já vi! E eu que achava que os franceses eram os melhores torcedores, mas não! (risos)

É claro que há muitos ótimos jogadores franceses, mas assim como os brasileiros, os franceses tem reputação de serem jogadores ruins. Isso te ofende de alguma maneira?

De maneira nenhuma! Eu gostaria que todos os jogadores de poker, franceses ou não, fossem ruins! (risos) A única coisa que não gosto é quando jogadores não jogam justo ou gritam de alegria quando dão uma bad beat. E na França, assim como em qualquer outro país do mediterrâneo, muitos jogadores tendem a ser bastante… expressivos. Às vezes é divertido, mas às vezes é muito irritante. E em relação ao nível dos jogadores e à habilidade, há cada vez mais bons jogadores franceses no circuito; no último ano no WSOP nós ganhamos quatro braceletes! Fiquei muito orgulhoso de ouvir o hino da França quatro vezes em Vegas!

Historiador por formação, conheceu o MaisEV em sua primeira semana de vida, ainda em 2007. Em pouco tempo, tornou-se editor-chefe do site para fazer o que faz de melhor: escrever.

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