Diego Nakama: A Transição de Torneios Para Cash Games e a Vida Pós MTT

Por: 16/07/2014

Diego Nakama fala sobre sua carreira como jogador profissional depois que trocou os torneios pelos cash games

 

Alguns anos atrás, Diego Nakama era um jogador profissional de torneios que tomou a decisão inversa ao que muitos hoje fazem: trocou os torneios por cash games.

Na época, ele escreveu sobre o assunto em um artigo para o MaisEV, mas hoje ele conta aqui o que mudou na sua vida como jogador profissional de poker e sua rotina em geral desde que abandonou os torneios.

 

Em 2010 você decidiu migrar dos torneios pra cash games, principalmente por causa da rotina. Como tem sido seu grind desde então?

Procuro cumprir algumas metas relacionadas ao grind. Normalmente isso ocorre através dos VPPs, que me permitem criar um planejamento de grind até o final do mês. E a grande vantagem dos cash games é isso, é muito mais fácil se organizar e planejar seus horários para alcançar metas de produtividade.

As metas que procuro alcançar em termos de VPPs em média exigem algo em torno de 5 a 6 horas de grind por dia. Para alcançar essas metas procuro dividir meus horários para não fazer sessions muito longas. Normalmente jogo algo em torno de 1 a 2 horas pelas manhãs. Gosto de jogar pela manhã, embora a ação não seja tão boa quanto depois das 16h, isso me permite cumprir com mais frequência minhas horas. Além do que minha winrate também piora conforme as sessions ficam mais prolongadas. Esse break do almoço é vital pra manter a qualidade do meu jogo no restante do dia.

E o que mudou na sua rotina de jogo?

Eu não costumo jogar muito a noite. Ano passado, por exemplo, se eu joguei 40 horas depois das 21h foi muito. Isso porque eu gosto de tentar ter uma rotina “normal”. Sou casado e gosto de poder relaxar, sair pra jantar, ver um filme com a esposa e sair da rotina de grinder que muitas vezes é bem desgastante. O melhor horário para se grindar cash provavelmente é justamente esse, mas prefiro abrir mão de alguns bbs/100 na minha winrate em troca de equilíbrio na minha rotina e melhora da qualidade de vida.

E essa é uma das maiores vantagens que o cash me proporciona e das qual eu não abro mais mão. Poder adequar meus horários da maneira que quiser, algo bastante limitante quando se tem uma rotina de jogador de torneios.

Algo que sempre digo para meus amigos que jogam torneios é justamente que admiro muito a disciplina e dedicação que eles possuem para conseguir manter essa rotina. Eu com certeza hoje não seria capaz de manter a mesma rotina que um dia tive quando jogava MTTs, e parabenizo todos esses sick grinders que conseguem manter sessões de no mínimo 8 horas quase todos os dias.

Além disso, atualmente jogo somente Zoom no PokerStars. Esse formato permite que eu tenha 100% de produtividade a cada minuto que eu estiver jogando, sem a necessidade de esperar abrir um determinado número de mesas, podendo tirar breaks no momento que quiser e retornar minutos depois na mesma posição na mesa que jogaria se continuasse a jogar.

Quando migrou pros cash games, você disse que seria algo temporário, até terminar a faculdade? Mas acabou se tornando fixo, nunca pensou em voltar pros MTTs?

Já pensei sim e inclusive já cheguei a tentar voltar umas duas vezes até hoje, mas isso há uns 2, 3 anos. Isso porque sempre gostei de jogar torneios. Ganhar potes em cash é bacana, mas não tanto quando se compara a jogar uma final table. Mas no fim das contas eu vi que não conseguiriam manter a rotina que se exige para cumprir uma rotina de jogos decente. Tentei voltar mais pelo prazer de jogar torneios, algo que sempre gostei. Mas hoje com os outros prós de jogar cash não pretendo voltar a jogar torneios profissionalmente.

Mas também sente prazer em jogar cash ou o que vale é o dinheiro?

Por incrível que pareça a cada dia mais eu gosto do desafio do cash. Depois de alguns anos me dedicando a PLO, até hoje busco corrigir muitas falhas no meu game que sei que precisam ser corrigidas. PLO é um jogo muito desafiador e complexo e continuo aprendendo sempre algo novo, algum ajuste, alguma estratégia diferente. Então essa parte eu realmente gosto muito.

Mas não vou mentir, a rotina de jogador de poker, seja cash games ou MTTs as vezes é bastante desgastante e monótona. E isso é muito comum para muitos grinders que já jogam há alguns anos. Não sinto o mesmo prazer que sentia quando comecei e aposto que isso acontece com muitos de nós. Mesmo porque nem sempre estamos ganhando. E ter que grindar na má fase por obrigação não da pra dizer que é algo prazeroso, mas é seu trabalho e você tem que se dedicar. Mas como um todo eu diria que o prazer não vem do cash em si, mas do fato do equilíbrio que o cash proporciona na minha vida, ao me permitir que eu possa aliar trabalho com qualidade de vida.

Falando nisso, o PLO já cresceu bastante e até hoje ganha muitos adeptos nos cash games, mas nos torneios isso não acontece muito. Como alguém que jogou profissionalmente os dois formatos, porque acha que isso acontece?

Falta de incentivo principalmente por parte do PokerStars, que hoje domina o mercado. No TwoPlusTwo por exemplo, há uma mobilização grande há tempos para a inclusão de algum torneio major de PLO na grade de domingo, o que não acontece e ninguém até hoje entende a razão disso. Querendo ou não os torneios ajudam muito a popularizar o formato de algum jogo entre jogadores recreativos, e a falta de um torneio grande no dia de maior movimento da semana (domingo) é o principal motivo ao meu ver de PLO não ser uma forma mais popular de

E a lucratividade, sem citar valores, o que mudou nesse quesito desde que migrou pro cash game?

O grande problema de se jogar torneios é que o rakeback que você ganha é muito pouco quando comparado a quando se joga mid stakes de cash e mid stakes de torneios. O rakeback é algo fundamental na vida de um grinder eu diria, pois é aquele retorno garantido que você tem no final do mês para cobrir perdas durante o jogo.

Em termos de lucratividade, o cash vem sendo mais lucrativo do que quando jogava torneios sim, mesmo porque nunca acertei nada muito grande quando jogava torneios, minha consistência vinha de ganhos mais frequentes em fields menores.

Mas procuro não mensurar isso em termos monetários. Como citei anteriormente, existem outros valores intrínsecos além das cifras que valorizo mais hoje em dia jogando cash games.

Como você compara os fields das duas modalidades?

É difícil pra eu avaliar hoje em dia o field dos torneios, pois não os jogo há muito tempo. Mas muitos amigos dizem que está cada vez mais complicado, o que é algo natural no poker, já que todos tendem a aprender cada vez mais sobre o jogo. Mas quanto ao field de cash games, pelo menos nos limites que jogo, gosto bastante. Dificilmente deixo de jogar em algum horário pelo fato do field estar ruim. Mas a competitividade e o nível dos jogadores tem aumentado sem dúvidas, mas isso faz parte do progresso e é um incentivo a mais para continuarmos nos atualizando sempre.

Pra encerrar, hoje você indica a um iniciante que comece em cash games ou MTT?

Essa decisão é algo bastante pessoal. Não adianta você começar a jogar cash games apenas porque alguém disse que é a melhor maneira de se começar se aprender poker se você não sente prazer em jogar pelas fichas em jogo.

Quando comecei a jogar poker, eu gostava do fato de poder ganhar um torneio, da adrenalina, da competição pela vitória. Era o que me fascinava. Então eu acredito que cada um deva fazer o que mais lhe atrai. Porém deve pensar mais a frente também e saber das exigências de cada modalidade caso um dia essa pessoa queira se profissionalizar.

Jogando cash games você vai aprender a jogar mais rivers por exemplo, mas de nada adianta você praticar cash games se seu foco um dia vai ser torneios onde você não vai saber como jogar com 30 big blinds. Então tudo depende do que você gosta mais de fazer, mas sem esquecer que cada formato seus prós e contras.

 

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Historiador por formação, conheceu o MaisEV em sua primeira semana de vida, ainda em 2007. Em pouco tempo, tornou-se editor-chefe do site para fazer o que faz de melhor: escrever.

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