Cotas para negros no poker

Por: 25/09/2013

Fala galera beleza?

O Akkari fez um post polêmico e bem oportuno na minha opinião, algo que eu já pensei várias vezes e nunca levantei a questão por um motivo que vou elaborar ao longo do post.

A gente vive em um país racista pra cacete! Prova disso é que a gente não aceita nem discutir o assunto, haja visto um tópico bizarro que foi aberto no MaisEV com posts vergonhosos de pessoas que em outros assuntos conseguem ser equilibrados e racionais, mas quando o assunto é cor de pele entram em um modo irracional de postar e não conseguem perceber coisas que são bem óbvias. Um negro reclamando de racismo NUNCA é ouvido, é sempre coisa da nossa cabeça, a pessoa não teve a intenção, estamos sendo muito radicais e todas essas frases prontas que eu ouço desde a infância.

Eu estenderia o post do Akkari para cadê os negros na nossa sociedade, porque a gente não está presente em lugar nenhum, seja na universidade ou em profissões mais clássicas, não existe negro na sociedade. Imagine a figura de um médico, agora imagina o perfil de um advogado, um professor universitário, um CEO de uma multinacional, um piloto de avião, imaginou todas essas pessoas, quantas delas na sua cabeça eram negras? 0 né? Quem responder diferente disso não vive no Brasil ou é mentiroso.

Eu posso afirmar isso porque negro está restrito a profissões menos valorizadas e que consequentemente pagam muito menos e isso vira um ciclo que eu não vejo fim. Você nasce em uma família pobre, que não tem acesso a um estudo, cresce ilhado. Em São Paulo a gente usa o termo periferia ou “da ponte pra lá” porque infelizmente o negro não atravessa a ponte, cresce sem acesso a um trabalho que pague melhor, tem filhos que não vão ter acesso a educação e assim se perpetua um ciclo perverso.

Já sei, já sei, você vai falar do Joaquim Barbosa, que ele é negro e conseguiu, ok, claro que dentre um universo de metade do país, alguns vão conseguir vencer todos os obstáculos e chegar a uma posição de destaque, mas eles são exceções e a exceção não pode ser vista como regra. A enorme maioria continua na periferia, sem poder desenvolver seu potencial, simplesmente porque não tem acesso a um ensino decente que o coloque na universidade depois e consequentemente ele tenha acesso pleno a sociedade.

Eu também sou exceção, fui profissional de poker por 5 anos, antes disso frequentei a universidade por 3 anos e antes disso joguei basquete desde as categorias de base e posso dizer que vivi boa parte da minha vida sem ver um negro ao meu lado. O acesso ao basquete se dá por clubes, você aprende a jogar basquete dentro de um clube, que cobra uma mensalidade dos sócios, por vezes bem caras, como a do clube Pinheiros ou do Paulistano e pra chegar ao clube só com alguma indicação. Mesmo assim a maioria dos clubes tem um limite pra jogadores não associados, então o comum durante a minha infância era ter mais um ou dois jogadores negros no time, em uma equipe de 15 jogadores. Depois universidade e aí é covardia. Isso porque eu cursei um curso não tão prestigiado, educação física em uma universidade que tradicionalmente dá muitas bolsas de estudo, tanto pela condição econômica, quanto por mérito esportivo e mesmo assim, os negros no curso não chegavam a 10%, sendo a enorme maioria atleta. Nos cursos mais tradicionais como engenharia, economia e psicologia eu não me assustaria se fosse constatado que negros não somam 1% dos alunos. Em uma população miscigenada como a brasileira é muito grave termos essa discrepância.

Aí veio o poker e bum de novo, acho que devo ter sido o único profissional negro de poker no Brasil, lembro de ter jogado contra uns 3 negros, sendo um deles americano e sim já sofri preconceito na mesa de poker, foi apenas uma vez, mas aconteceu.

Cotas

Pode ser que até aqui você tenha um monte de argumento para colocar, não tenha concordado com nada, ou tenha me achado radical, que é coisa da minha cabeça, que não é bem assim e aí voltamos pro primeiro parágrafo. Eu já cansei de frases prontas. Como disse, mesmo os mais sensatos e ponderados soltam esses impropérios quando estão discutindo racismo e isso acontece principalmente porque temos uma enorme dificuldade em nos colocar no lugar dos outros. É necessário bastante empatia pra que você consiga entender o que o outro passa e como pequenos detalhes criam o monstro que é esse apartheid existente no nosso país hoje, principalmente em São Paulo, que é a cidade que eu moro.

Empatia é uma qualidade difícil de desenvolver, porque requer que você deixe de lado quem você é pra entender outra pessoa passa e isso é muito difícil. Eu sou negro, progressista, defendo direitos iguais pra todo mundo e por vezes já soltei discurso pronto contra vegetarianos e contra o movimento feminista, na mesma linha do que eu ouço de pessoas brancas quando o assunto é racismo, ou seja, eu reclamava de racismo, mas na hora de ouvir uma feminista eu me fechava, talvez isso seja da natureza humana, ou pode ser só ignorância mesmo, mas o fato é que isso acontece e com uma frequência muito grande.

Pra você entender o racismo, feminismo ou a causa gay, antes de qualquer coisa precisa entender como o preconceito atinge essas pessoas desde a infância e como isso cria dificuldades que faz com que elas tenham problemas pra se desenvolver ao longo da vida. Hoje depois de me colocar no lugar das pessoas, ouvir as suas reclamações, tentar pensar “E se fosse comigo?” eu consegui formar uma opinião mais ampla sobre o assunto como um todo.

A real é que se você for homem, heterossexual e branco, você praticamente não tem nada o que dizer, guarde os seus achismos quando a questão for discriminação de minorias e tente entender o que passa uma mulher, um negro e um gay ao longo da vida antes de sair dando chilique pra dizer que não concorda com cotas, que feminista é mal comida e que hoje em dia errado é ser heterossexual. O mais engraçado é que quem não concorda com reivindicações de minorias é invariavelmente branco, homem e hétero, isso deveria dizer algo a vocês né? Eu digo vocês porque estamos no lugar em que o público majoritário é esse.

Exposta de maneira resumida minha opinião, acho a ideia do Akkari muito boa. É um cara que entende que a situação racial no Brasil é tratada com descaso, provavelmente por ter um irmão negro e ver de perto as dificuldades que a nossa raça tem. A única coisa que eu discordo dele é que infelizmente o descaso nesse assunto vem da parte da população mesmo e não dos governantes, que nesse caso até fazem algo, como as cotas raciais, que não é uma maneira ótima de resolver a situação, mas é um ótimo paliativo de curto prazo. No caso do poker o impacto é nulo na sociedade, mas não deixa de ser uma iniciativa bacana e principalmente se beneficiar um negro que sem isso não teria acesso ao poker e quem sabe se isso de repente revela um grande jogador, fazendo mesas finais por aí. Isso pode ser um incentivo pra um pretinho lá na periferia que acha que a única maneira de ser bem sucedido na vida é jogando bola.

O mais perverso de tudo isso é que a criança negra não se reconhece em nada na sociedade, ela não conhece médico negro, ela não conhece dono de empresa negro, não conhece professor negro, esse tipo de coisa mina a auto estima da criança que vai crescer achando que o lugar dela é realmente do lado de lá da ponte e que ela não tem nada o que fazer por aqui, mesmo que ela tenha um potencial alto. A ideia de ter um negro em um time de poker muda não só a vida de quem for jogar como muda a percepção de quem está em volta. Essa pessoa passa a ser exemplo de que tem uma saída, de que não precisa repetir esse ciclo perverso. O fato de só ter branco no poker passa pelo fato do cara assistir torneios e pensar que aquilo não é pra ele, até de pensar que ele não vai ser bem recebido naquele meio.

Esse o motivo pelo qual eu sempre reforcei que eu sou negro. Algumas pessoas podem achar que não sou por causa desse bronzeado saudável de escritório que eu adquiri ao longo dos anos, mas o fato é que meu pai é negro, minha mãe é negra. O tom da minha pele não quer dizer muita coisa nessa equação. Mas sempre tive cabelo black power, sempre usei gírias de periferia, sempre me comportei como sempre fui, justamente pra mostrar pra outros negros uma visão diferente da vida, que dá pra ser algo a mais e que não precisamos nos limitar.

Muito mais há que ser dito e debatido nesse assunto, eu só arranhei a superfície pra justificar meu apoio à atitude do Akkari e a repercussão que isso teve só demonstra que o Brasil ainda é um país racista pra caralho!

Abraços!

 

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