4bet Team faz comentários machistas em podcast e gera revolta na comunidade

Por: 10/02/2020

Comentários preconceituosos de Marcos Sketch, Julio Lins, Thiago Crema e os convidados Beto Burgess e “Radio” sobre as mulheres geram revolta e a comunidade responde

4bet team podcastUm lamentável episódio tomou conta das discussões na comunidade de poker neste final de semana, causado pelo último episódio do podcast do 4bet Team.

O sétimo episódio do podcast, que reuniu Marcos Sketch, Julio Lins e Thiago Crema, do 4bet Team com os convidados Beto Burgess, do podcast O Dono da Verdade, e José Heraldo “Radio” Vaughan teve comentários machistas e misóginos a partir da pergunta do convidado, que questionou por que há poucas mulheres jogando poker, ao que Marcos Sketch respondeu dizendo que “é pela mesma razão que tem tão pouca mulher em qualquer outra área que tem pouca mulher, essa é a resposta verdadeira.”

A resposta verdadeira de Sketch não poderia estar mais longe da verdade. O jogador e sócio do 4bet Team tomou como fonte o psicólogo conservador norte-americano Jordan Peterson, que acredita que a origem da desigualdade entre os gêneros está na biologia.

A partir dos comentários de Sketch e Beto Burgess, os participantes do podcast sentiram-se livres para uma série de falas sem fundamento como dizer até que a única coisa em que as mulheres são boas é como modelos. Na maior parte do tempo, a conversa se deu entre Beto e Sketch, este último sempre tentando dar uma base científica para suas opiniões.

Mas, ao contrário do que dizia Marcos Sketch, os comentários feitos por ele e seus companheiros não encontram nenhuma evidência nas ciências, seja na biologia ou nas ciências humanas.

De acordo com Jordan Peterson, única fonte citada por Sketch, a diferença de salários entre homens e mulheres se dá porque o homem está biologicamente mais preparado para grandes jornadas de trabalho e é mais agressivo. Vale dizer que Peterson também falou que é lamentável que homens não possam “controlar mulheres loucas” pois, se o diálogo entre os dois não tem sucesso, o homem é “proibido de usar a violência.

Outro dos sócios do 4bet, Julio Lins, disse ainda que “não existe em nenhum canto do mundo mulher que exerça a mesma função que um homem e que ganhe menos que ele,” mas as estatísticas provam o contrário. Segundo relatório da Oxfam Brasil publicado no ano passado, as mulheres recebem 30% a menos que os homens e que o problema atinge todas as classes sociais.

Já Beto Burgess diz também que “não há nenhuma atividade humana em que mulheres sejam melhores que homens”, e Sketch tenta discordar ao dizer que há áreas em que as mulheres são superiores, como aquelas em que exigem atenção, organização e afetividade. Mais uma vez, a infeliz fala de Sketch não tem bases científicas que possam sustentá-la, já que isto se dá também por motivos culturais e não biológicos, como quer fazer acreditar o jogador (e seu ídolo Peterson).

Em um estudo realizado ainda em 1935, nos primórdios do movimento feminista, a antropóloga Margaret Mead comprovou que características dadas como biológicas pela sociedade ocidental são na verdade fruto da construção social. Ao pesquisar três povos de mesma origem da Papua Nova-Guiné, ela observou que tais características variavam entre as sociedades observadas.

Para os pacíficos arapesh, homens e mulheres realizam são igualmente “maternais, amáveis, solícitos e pacíficos”. Não há trabalhos diferentes entre eles e o cuidado com as crianças é dividido igualmente. Mas se estes eram pacíficos, a agressividade não é o fator determinante. Entre os violentos mundugumor, espera-se que tanto homens quanto mulheres sejam “violentos, batalhadores, sexualmente agressivos, ciumentos e prontos a vingar qualquer insulto. As mulheres suportam o peso do trabalho sem problemas, assim como os homens.”

Já com o povo tchambuli, que vivia da pesca, o sustento das famílias era provido pelas mulheres, que realizavam todas as atividades referentes à pesca, incluindo fabricar as ferramentas necessárias, enquanto os homens dedicavam-se a tarefas que, no mundo ocidental, são consideradas femininas: pinturas, danças e esculturas. Eles até mesmo necessitavam da permissão das esposas para gastar dinheiro com adornos e enfeites.

“Se dois indivíduos pertencentes cada um a uma civilização diferente não são semelhantes (e o raciocínio também se aplica bem aos membros de uma mesma sociedade), isso significa, acima de tudo, que eles foram condicionados de uma maneira diferente, em particular durante seus primeiros anos de vida; e é a sociedade que decide a natureza desse condicionamento. A formação da personalidade de cada sexo não foge a essa regra: é produto de uma sociedade que cuida para que cada geração masculina e feminina se adapte ao tipo que ela impôs” diz a antropóloga em seu livro “Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas.

A reação da comunidade feminina do poker foi de imediata revolta. Jogadoras como Thalya Vivian, Andressa Lincoln, Gabriela Belisário e diversas outras responderam aos participantes do podcast em seus perfis do Instagram, incluindo relatos de assédio, como o caso de Carol Ventura:

“Vivo somente do poker há 10 anos. Devo ter sido a 1ª mulher, senão uma das, a viver só disso no Brasil, numa época em que havia muito mais preconceito. Talvez por ingenuidade ou auto-preservação, nunca vi isso como um empecilho pra mim, mas logo no início da minha carreira, há cerca de 10 anos, sofri um dos maiores atos de covardia e machismo que uma mulher poderia sofrer. Por parte de uma das peças-chaves na criação desse time, fui difamada, ameaçada, ridicularizada por ele entre os seus, intimidada a sumir do país e do meio do poker e a não processá-lo. Tudo por ter falado a verdade para alguém e ter sido de certa forma reativa frente a algo que considero deplorável e sujo.

Eu, como sempre obstinada que fui, enfrentei a situação de cabeça erguida e obviamente não sumi do meio, mas optei na época por me calar, não me defender ou me expor e seguir meu caminho de forma independente como desde criança sempre almejei. Sendo a mais nova de 3 irmãs, cresci com um pai machista e sempre me rebelei a isso, apesar de não me intitular feminista, mas sempre ter sido favorável a direitos iguais entre todos.

Por 8 anos evitei até mesmo ingressar em time talvez de forma inconsciente pelo trauma que esse ato tão covarde e machista me causou. Hoje, mais serena e madura, me arrependo de não ter ido à justiça e até mesmo à polícia pra me defender com as provas dos prints de ameaça que até hoje tenho. Mas com o passar dos anos, aprendi a perdoar quem tanto me fez mal e aprendi, acima de tudo, que a gente só pode dar o que a gente tem. Evolução espiritual não vem da noite pro dia, e caráter, dignidade, integridade, senso de justiça e igualdade, consciência de seus atos e palavras definitivamente não são características que dinheiro algum no mundo compra.

Por auto-proteção e por saber que em 10 anos certas coisas não mudam totalmente, ainda hoje opto por ter uma vida menos exposta e sou feliz tendo paz de espírito e continuando a trabalhar com algo que amo. Mas só desejo que lutemos sempre por um mundo em que esses valores sejam reconhecidos.”

A Liga Paulista Feminina de Poker também se pronunciou com uma nota de repúdio:


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NOTA DE REPÚDIO . A Liga Paulista Feminina de Poker vem, por meio desta nota, manifestar seu total repúdio ao machismo, ocorrido no The Podcast Ep. 07, do 4bet Poker Team. Além da objetificação da mulher, representa ofensa grave à luta que as mulheres vêm fazendo para o crescimento do cenário do poker feminino no Brasil e em suas políticas de inclusão social. Dizer que a genética da mulher a faz menos capaz do que o homem para determinadas atividades, inclusive para o poker, é de uma ignorância profunda e desconhecimento da causa nos dias atuais. . Ao longo dos últimos anos foram alcançadas conquistas relevantes para o crescimento da inclusão das mulheres ao poker, e vemos como um compromisso apoiar a causa, pois o poker é para todos, sem distinção de gênero, classe ou raça. Não é possível deixar que pessoas que não possuem respeito com a causa nos desrespeite. Repudiamos o Ep. 07 do The Podcast do 4bet Poker Team e denunciamos a atitude machista e lamentável de colocar esse conteúdo em suas redes sociais. . Diante desse cenário, a Liga Paulista Feminina de Poker, considera imprescindível o manifesto e repúdio que, direta ou indiretamente, promovem esse tipo de comportamento. Estamos atentas para coibir casos como este, bem como promover políticas de combate ao machismo, ao racismo e à LGBTfobia, a fim de garantir um ambiente seguro, saudável e livre de preconceitos para toda a comunidade do poker brasileiro. . Ainda que não se possa cobrar da mídia uma atuação comprometida com nossas demandas, a sociedade vem cada vez mais fazendo o apelo para ações de inclusão da mulher no poker. Devemos exigir condutas pautadas pela ética e pelo respeito às mulheres, e que não reproduza discriminações, preconceitos e misoginia como de fato ocorrido. . Atenciosamente, Liga Paulista Feminina de Poker . . #machistasnãopassarão #façaumgrindconsciente #pokersemmachismo #lugardemulhereondeelaquiser #agoraquesãoelas #cbth #pokercomrespeito #mulheressempreunidas #machismoéatrasodevida #homemqueéhomemrespeitaamulher #agoraénossavez #donosdamentira #respeitemasmulheres #apoiamosasmeninasdo4bet

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Após a repercussão, o 4bet Team apagou o episódio do podcast de suas redes e emitiu uma retratação:


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Vacilamos. Não cabe aqui justificativas ou explicações, apenas o pedido de desculpas a todas que se sentiram ofendidas por qualquer fala dita pelos convidados no EP #07 do nosso Podcast. Não concordamos com o que foi dito em alguns trechos do episódio e nem são essas as opiniões da nossa empresa. Mas assumimos a responsabilidade pela publicação e entendemos a sensibilidade com que esse tipo de assunto merece ser tratado. Por essa razão, também removemos o episódio do ar de todas as plataformas, e, conforme sugestão de algumas das jogadoras com quem conversamos, vamos pensar em uma forma de abrir um novo espaço e ceder nossa plataforma para que o assunto possa ser debatido, com a participação e a voz de outras meninas do segmento. Acreditamos, acima de tudo, que através do debate é que podemos chegar a um lugar melhor.

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Danilo Telles

Danilo Telles

Historiador por formação, conheceu o MaisEV em sua primeira semana de vida, ainda em 2007. Em pouco tempo, tornou-se editor-chefe do site para fazer o que faz de melhor: escrever.
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