Nuances da Posição e Linhas de Pensamento

Por: 10/07/2008

No xadrez eu aprendi a necessidade de estudar as fases do jogo e a relação entre elas; no poker eu busquei entender como funcionava cada street e perceber as conseqüências que as decisões em uma tinham sobre a outra.

No xadrez eu vi a necessidade de se jogar com estratégias diferentes, contra jogadores diferentes, e o mesmo se aplicou ao poker, que é um jogo onde a estratégia ideal sempre remete à adaptação.

Eu poderia citar vários exemplos de conceitos do xadrez que me auxiliaram no poker, mas alguns seriam óbvios ou não tão úteis a quem não tem experiência no tabuleiro. Por isso resolvi concentrar este artigo em algo que eu considero ser crucial na evolução de qualquer jogador, que é a idéia de nuances da posição. Nuances são leves diferenças ou detalhes finos. E quando digo posição, me refiro a uma situação específica de uma partida, não posições de mesa (button, small blind, etc.).

Quando no xadrez se estudam combinações (formas de ataque), o comum é ver várias posições chaves, a partir das quais serão mostradas as possíveis combinações vitoriosas. Mas o jogador não deve gastar seu tempo memorizando milhares de posições e torcer para que a mesma situação se repita em uma de suas partidas. Na verdade seria bem raro que a posição se repetisse de modo igual — devido às bilhões de possibilidades que uma partida de xadrez pode apresentar.

O que o jogador precisa fazer nos seus estudos é entender a linha de raciocínio tomada durante a combinação. Porque embora a posição dificilmente se repita, haverá partidas que apresentarão nuances da posição estudada, ou seja, vários detalhes semelhantes com sutis diferenças, e, se o jogador tiver compreendido a linha estudada, ele poderá perceber estas nuances e fazer as correções necessárias para elaborar uma combinação vencedora a partir do mesmo princípio.

Após está explicação tão técnica sobre este assunto, vocês podem se perguntar: “Tudo bem, mas como isso se relaciona com a evolução no poker?”

Veja: assim como no xadrez, no poker nós estudamos “posições” (de novo, situações, não confundir com posição na mesa) de partidas (mãos) já realizadas, e que dificilmente irão se repetir de maneira exatamente igual. Então, não devemos nos preocupar com uma mão específica e sim com a linha de pensamento usada para se chegar à jogada +EV naquela mão e as nuances que esta linha apresenta.

Exposto desta forma pode parecer algo claro e intuitivo, mas ainda assim, quando alguém publica uma dúvida em algum fórum ou comunidade, ou mostra uma mão jogada a um amigo, é normal que haja uma preocupação maior em saber a “jogada correta” do que entender a linha de pensamento que a originou.

Deixe-me mostrar um exemplo elementar para expor esta situação:

No-limit hold’em, 6 jogadores com 100 BB de stack cada.

– Hero, um jogador inexperiente, é o primeiro a agir (UTG), recebe JJ e aumenta 4 BB;
– O próximo jogador (UTG+1), desconhecido, paga sua aposta.
– Chega em fold até o Big Blind, um jogador conhecido por ser nit (extremamente tight) que tem uma noção razoável do jogo. Costuma jogar cerca de 10% das mãos e dar raise em 7%. Ele dá 3-bet para 20 BB.

Neste ponto o inexperiente Hero fica confuso, porque sabe que um par de valetes é uma das melhores mãos do jogo (top 2%). Depois de suar por alguns minutos, ele toma a sua decisão – que não precisamos saber qual é.

No dia seguinte ele ainda está pensando na mão, e resolve perguntar para seu amigo de infância Phil Ivey o que ele deveria ter feito. Phil diz que era um fold claro, por que o range do BB para dar a 3-bet provavelmente só possuía mãos melhores ou no máximo equivalentes aos Jacks.

Hero agradece, dá um “pedala Robinho” no Ivey e vai para casa satisfeito, com a seguinte conclusão:

“Quando eu tiver JJ, tomar um call de alguém e um raise de um jogador nit; eu devo dar insta-fold”.

Então ele aprendeu a lição?

Não!

Esta situação não vai acontecer desta exata forma com muita freqüência, assim ao fazer uma conclusão tão específica o Hero está limitando o seu aprendizado. O que importa nesta mão é qual o raciocínio usado por Ivey para chegar à jogada +EV e as nuances que o raciocínio apresenta.

O que faz o range do BB ser tão forte? Qual era aproximadamente este range após a 3-bet? Como a posição (na mesa) influenciou a decisão? Como a leitura que se tinha do BB influenciou?

Respondendo a estas perguntas, Hero vai absorver a linha de pensamento que estava por trás da jogada correta. E saberá jogar situações parecidas usando esta mesma linha, só alterando alguns detalhes devidos às nuances próprias de cada mão.

Perguntas como: “Com que mãos ele poderia ter pago ou aumentado o raise do BB? Com que leitura do BB o fold deixaria de ser correto?”. Se tornarão fáceis de se responder após Hero compreender o raciocínio subliminar da jogada sugerida.

Se o Hero teve dificuldades nesta mão, ele deve explorar este fato, visando sua evolução. Cada mão que deixa um jogador com dúvida é uma oportunidade de curar vários problemas que ele teria em situações parecidas. Algumas pessoas costumam manter um mesmo leak (falha) no jogo por um longo tempo sem nem sequer notá-lo. Postam/expõem muitas mãos sempre com a mesma dificuldade, mas só se importam com a resposta para aquela mão. Quando o real problema deles está na verdade em não compreender aquele “tipo” de mão.

O exemplo dado talvez faça parecer que este é um artigo dedicado somente a jogadores iniciantes, porém vejo muitos jogadores experientes apresentarem a mesma falha. Um exemplo disso é o célebre e bem conhecido Teorema Baluga que diz para reavaliarmos top pairs e overpairs quando recebemos um raise no turn. Poucos jogadores realmente entendem a linha que foi usada para se chegar a esta conclusão e destes, muito menos jogadores usam o mesmo raciocínio em outras streets (ou seja, avaliar a probabilidade de um c/r no river ser um blefe) ou em situações análogas, porque o enxergam de maneira específica. Outro problema comum aos mais experientes, é que às vezes em “guerras de regulares” encontram um adversário superior e não se concentram em entender as linhas que o adversário usa para superá-lo.

Os jogos de poker estão cada dia mais difíceis, com muitos jogadores tentando evoluir. Não desperdicem suas dúvidas. Muito menos suas boas respostas. Descubram as linhas de pensamento por trás delas. E as use em prol de sua evolução. Em tempos tão competitivos, pequenas nuances fazem a diferença.

* O Teorema Baluga diz para reavaliar top pairs e overpairs quando receber um raise no turn, pois estes raises raramente serão draws, principalmente se o raise for grande. Por outro lado, dar raise no turn com draws é uma boa arma contra bons jogadores.

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Se você tiver dúvidas sobre os termos utilizados neste artigo, veja nosso dicionário de termos de poker.


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