Estágios de um Torneio – Parte II

Por: 02/12/2008

Neste artigo, tratarei sobre o estágio intermediário de um torneio, e onde a dinâmica muda drasticamente e jogadas que antes não eram lucrativas no longo prazo começam a se tornar armas importantes.

Antes

Em alguns sites, as estruturas dos torneios oferecem a presença dos antes, que nada mais são do que apostas antecipadas obrigatórias por parte de todos os jogadores na mesa, esteja você nos blinds ou não. Os seus valores diferenciam-se muito de site para site, sendo que alguns deles não dispõe de antes e outros onde os mesmos alcançam algo em torno de 12% do valor do Big Blind.

O que realmente muda com a presença dos antes é que ela favorece muito o fator agressividade, algo fundamental para qualquer jogador de poker, seja ele um jogador de torneios, cash games ou sit and go.

Saber atacar na hora certa e com prudência é algo vital para você prolongar sua vida em torneios. Você simplesmente não pode mais dar-se ao luxo de esperar sempre por mãos boas como no início de um torneio, pois com o aumento no valor dos blinds seu stack vai ficando cada vez menor proporcionalmente falando. Isso significa que você terá de se “mexer” mais, e começar a jogar de forma mais agressiva para compensar a falta de cartas. Com os antes em jogo, o pote inicial gerado com o recolhimento das apostas obrigatórias, antes mesmo da primeira carta ser distribuída, pode representar uma parcela considerável do seu stack.

Os diferentes tamanhos de stack e formas de utilizá-los

Uma vez que os antes entram em jogo, você muito freqüentemente vai se encontrar com stacks na casa dos 10, 20, 30, 40 ou mais big blinds. Eu particularmente acredito que existem formas completamente diferentes de utilizar cada um deles, e é sobre isso que vamos falar agora. Muitas pessoas gostam e costuma utilizar o conceito de “M” proposto por Dan Harrington que por sinal é excelente. Acostumei-me muito a trabalhar apenas com número de big blinds, portanto é importante prestar atenção na hora de tomar suas decisões baseando-se nisso.

Stacks com 40 big blinds ou mais

Esse é o tipo de stack que lhe permite muitas manobras diferentes. Você pode tanto decidir esperar por mãos muito boas quando a mesa anda jogando muito loose aggressive por exemplo, quanto tentar atacar short stacks e stacks que estejam na média do torneio. A idéia com esse stack é ir fazendo uma “manutenção” do mesmo, com infreqüentes roubos de blinds. A freqüência dos continuation bets pode ser aumentada, mas não abuse da agressividade caso sua imagem não seja muito boa. Stacks grandes como mais de 40 big blinds em estágios intermediários de torneios são vistos muitas vezes como “intimadores”, ou seja, que os jogadores vão tentar utilizar esses stacks para agredir mais a mesa. Seja cauteloso nesse sentido. Por fim, tente respeitar também aquela regra básica “potes grandes, mãos grandes, potes pequenos mãos fracas”.

Stacks em torno de 30 big blinds.

Com o stack na casa dos 30 big blinds (partindo mais ou menos de 27 big blinds), você ainda pode se permitir sofrer algumas “baixas”, como tentativas frustradas de roubo de blinds, alguns continuation bets, etc. Mas você precisa ser bastante cauteloso para não gerar um pote que não seja condizente com a força da sua mão, ou que não justifique o pote que está sendo gerado de acordo com o oponente que você está enfrentando.

O meu ponto aqui é que você deve ser muito cauteloso quando estiver jogando uma mão pelo seu torneio todo. Conseguir manter seu stack nessa casa, sem tentativas de jogadas muito ousadas é a estratégia que eu adoto, pois qualquer grande pote gerado que você vier a perder vai representar parte significativa do seu stack. Eu nunca aplico o re-raise pré-flop com a intenção de largar (quando a minha verdadeira intenção é “re-roubar” alguém que possa estar atacando os blinds) minha mão quando meu stack encontra-se nessa situação. O re-roubo com o stack na casa dos 30 big blinds é uma arma que eu utilizo raramente pois ela pode vir a ser um grande desperdício de fichas quando a jogada é mal-sucedida, seja você largando a mão depois do re-raise ou sendo pago por uma mão melhor quando você já aplicar o all in. Neste último caso, na maioria das vezes, o risco de perder todas as suas fichas não compensa o investimento tão alto (cerca de 30 big blinds) no longo prazo.

Stacks em torno de 20 big blinds.

Com um stack na casa dos 20 (algo em torno de 20-26) big blinds, você deve ser ainda mais cauteloso quando do investimento de suas fichas pois a sua mobilidade nesse estágio é ainda menor. Cada movimento pouco brusco que você faz vai ter um grande impacto considerável sem dúvidas no seu stack.

Suponhamos que você possui 23 big blinds e decide abrir um raise para 3x o valor do mesmo em early position com AK. Dois jogadores atrás de você pagam e o pote possui agora três jogadores.
O valor do pote nesse momento é de mais da metade do seu stack restante. Somadas as apostas dos jogadores na mão, mais os blinds (vamos desconsiderar os “antes”), já temos 10,5 big blinds em jogo e você possui 20 big blinds nos seu stack. Qual seu próximo movimento, jogando fora de posição contra outros dois jogadores quando você erra completamente o flop? O pote atual representa pouco mais de 50% de suas fichas e adquiri-las seria excelente para você. Portanto a melhor jogada nesse caso é aplicar um continuation bet de 60% do pote aproximadamente e conseguir levar o pote ali mesmo, correto? Errado! Contra outros 2 jogadores, a probabilidade de você conseguir aplicar essa jogada de forma lucrativa no longo prazo é muito baixa e é um péssimo risco que você estaria tomando para com o seu torneio.

Contra outros 2 jogadores numa situação como essa, a melhor linha é simplesmente desistir da mão. Para tornar essa visão mais fácil vamos recapitular. Com um continuation bet de 60% do pote, você ficaria com 14 big blinds para trás tendo de enfrentar muito provavelmente alguém com uma mão melhor do que a sua. Se você receber um call provavelmente terá que desistir da mão no turn caso a mesma não melhore, o mesmo acontecendo caso um dos seus adversários aumentem. Suponhamos que uma dessas situações ocorra. O seu stack que antes era de 23 big blinds, na mão seguinte será de 14 big blinds. Ou seja, você investiu cerca de 40% do seu stack numa situação que exigia que você jogasse com extrema cautela, onde seus danos poderiam ter sido bem menores.

Com meu stack nessa região, portanto, eu opto por jogar de forma extremamente cautelosa. Diminuo consideravelmente o percentual de meus continuation bets, escolho melhor ainda as mãos com que abrirei raises. Aplico o fold em pares baixos em posições ruins, independente de como chegou a ação até mim (fold, raise, ou limp). Resumindo, jogo de forma extremamente cautelosa (embora ainda agressivamente, como veremos a seguir).

Stacks entre 10 e 20 big blinds.

Muitas pessoas acham que com um stack de 20 big blinds você não está o que chamamos de short stack. Eu particularmente costumo tratar um stack de 18 big blinds por exemplo como eu trato um de 10 big blinds. Muito raramente eu abro um raise com esse stack com a intenção de dar um fold caso alguém aumente ainda mais. Vou ser muito seletivo com as mãos que decidirei jogar pois sei que minha mobilidade (que já não era boa na casa dos 20 big blinds como citado anteriormente) agora é mínima. Qualquer pequeno deslize e nosso torneio acaba ali mesmo.

Mas ao mesmo tempo em que eu não abro mão da seletividade nesse momento, eu também não abro mão da agressão. É nessa casa em número de big blinds que você vai começar a utilizar seu stack de forma mais avançada por assim dizer em comparação ao que você vinha fazendo anteriomente. Quando você possuía mais de 30 big blinds, uma das principais armas para manter seu stack eram o roubo de blinds. Pois bem, como essa arma deve ficar fora do seu arsenal numa grande parcela das vezes quando seu stack se encontrar nessa situação, você lançará mão de outra arma, que seria o “re-roubo”, ou no termo em inglês, o resteal. Essa é a jogada que você aplica contra jogadores que estejam justamente atacando os blinds, que normalmente são aqueles que possuem os stacks bom para isso, na casa dos 30 big blinds, como citado anteriormente, onde você tanto aplica o allin (na maioria das vezes) ou volta um reraise com mãos não tão fortes quanto a força que você está representando. Ou seja, você abre mão de um artifício para explorar outro.

E qual é o melhor cenário para que um resteal seja bem sucedido? Eu particularmente procuro me utilizar deste artifício quando as seguintes condições se estão presentes:

  • O adversário que abre um raise possui uma imagem agressiva
  • O adversário que abre um raise é um bom jogador, que entende a diferença entre uma mão em que ele abre um raise e sabe que precisa (na maioria das vezes) de uma mão melhor para pagar um reraise (jogadores ruins, muitas vezes, não possuem esse intervalo, o que os torna um alvo não tão atrativo para essa jogada);
  • Você precisa (na maioria das vezes) possuir uma imagem boa e limpa na mesa
  • O adversário que abre o raise deve possuir um stack com o qual ele esteja apto a abrir raise e aplicar o fold quando necessário (como citado anteriomente, eu dificilmente abro um raise com a intenção de dar fold se alguém re-aumentar quando possuo menos de 20 big blinds. Fique atento se seu adversário pode também estar jogando da mesma forma)
    Seria ideal você ter visto o adversário que abre o raise já ter aplicado o fold quando deparado com a mesma situação (onde ele abre um raise e encarou um reraise)
  • Sua posição na mesa é muito importante (quanto mais jogadores para falar depois de você mais cautelosa e precisa deve ser sua jogada)

E como aplicar essa jogada?

Basicamente, a essência do resteal é você “roubar” quem você acha que esteja “roubando” os blinds. Ou seja, você vai representar uma mão que na verdade você não tem, seja aplicando o reraise ou o all in diretamente (o que é mais comum com um stack na casa dos 20 big blinds).

Para isso, dois fatores são extremamente importantes para que sua jogada seja lucrativa no longo prazo. Uma delas é o seu timing. Você precisa estar confiante que determinado momento é o certo para aplicar esse tipo de jogada. E uma forma de afinar seu timing de forma precisa é prestar muita atenção na mesa, quem são seus adversários e quais suas tendências, para que você a aplique de forma lucrativa no longo prazo.

Com quais mãos eu aplico essa jogada?

Algumas pessoas caem no erro de acreditar que um resteal, para lucrativo no longro prazo (o que é diferente de ser bem sucedido apenas), o que interessa é apenas ou seu timing, ou seja, não importa suas cartas uma vez que você está fazendo o movimento na hora certa.

O problema é que, como todos sabemos, o poker é um jogo de informações incompletas. Nem sempre nosso timing estará correto, e para contrabalancear essa margem de erro, escolher as mãos para aplicar essa jogada é ponto fundamental. As mãos com as quais mais aplico essa jogada são Axs, Kxs, pares, A8o+, broadways. Com certeza dependendo da situação incluo mais mãos nesse range, mas essa é apenas uma breve idéia do range que utilizo para esse tipo de jogada.

Bubble

Durante o bubble, basicamente são duas as minhas preocupações. Tentar extrair fichas de quem esteja se sentindo pressionado pelo mesmo (respeitando minhas estratégias de acordo com o meu stack) e atentar-me para os impactos do ICM (Independent Chip Model) nas minhas ações. Confesso que este último não tem um impacto tão intenso na minha estratégia por um motivo simples, estou sempre jogando dentro dos meus limites de bankroll, então as vezes dou bem pouca importância para não ficar pelo bubble.

Como pudemos ver, neste artigo procurei focar bastante em como jogar o tamanho do seu stack e como é importante adotarmos diferentes estratégias para situações diversas. A partir do momento em que os “antes” entram em jogo, ou cerca de uma hora mais ou menos a partir disso, vamos nos deparar muito com situações de stack como as que citei, por isso resolvi focar nessa parte. No próximo e ultimo artigo desta série, estarei falando basicamente sobre como procuro jogar as mesas semifinal e final.

Grande abraço e boa sorte a todos!

Diego “Nakamator” Nakama

Se você tiver dúvidas sobre os termos utilizados neste artigo, veja nosso dicionário de termos de poker.


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