Introvertido nº 2 da All-Time Money List tocou em pontos universais em sua primeira publicação.
Introvertido nº 2 da All-Time Money List tocou em pontos universais em sua primeira publicação.
O poker conta com uma ampla gama de personalidades distintas: Daniel Negreanu usa as redes sociais para falar sobre todo e qualquer assunto. Doug Polk é um ávido youtuber. Phil Hellmuth faz entradas chamativas na WSOP. Na contra-mão, Phil Ivey tem uma postura mais discreta, sem expor muito suas ideias e percepções a qualquer um, assim como Steve’Dwyer. Já Martin Kabrhel…bem, melhor nem entrar no assunto.
Pois Stephen Chidwick, um dos maiores nomes da história do poker, com US$ 68,1 milhões em ganhos ao vivo, a segunda maior marca da All-Time Money List, faz parte do grupo mais discreto, e utilizou o X, antigo Twitter para explicar tamanha introversão.
“‘Não gasto tempo com social media’, eu dizia. E embora essa decisão tenha sido a correta para mim, as razões eram mentirosas, ou ao menos incompletas. O que eu não admitia era meu medo: de críticas, de vulnerabilidades, da minha inabilidade de controlar minha natureza obsessiva‘ disse o craque, que explicou que chegou a ter ido dormir com fome após uma longa sessão de poker, apenas para evitar contato com pessoas.
O desabafo do craque põe em discussão temas como inadequação, aceitação e saúde mental, tão importante para jogadores de poker e, principalmete questões universais.
Confira abaixao a íntegra do post.
“Olá, Twitter.
Muitos de vocês vão me ver como o jogador que não fala muito, e por muito tempo, eu acho que eu não tinha muita coisa de valor a dizer.
Eu fui low profile pela maior parte da vida, criei uma carreira com uma determinação silenciosa e foco nas coisas que eu podia focar – reparação, decisão, consistência. ‘Não gasto tempo com social media’, eu dizia. E embora essa decisão tenha sido a correta para mim, as razões eram mentirosas, ou ao menos incompletas. O que eu não admitia era meu medo: de críticas, de vulnerabilidades, da minha inabilidade de controlar minha natureza obsessiva.
Eu provavelmente entraria no espectro autista, eu certamente seria considerado bipolar, embora eu nunca fui atrás o suficiente de um diagnóstico. Eu sei como é ficar isolado da sociedade por proteção e me perguntar como eu cheguei lá. Eu sei o que é ficar tão cansado de um dia de poker ao vivo que fui dormir com fome porque não tinha a energia para interagir com outros humanos para comer. Eu sei como isso soa absurdo—também sabia na época—mas nenhuma racionalidade me impedia disso ser verdade.
Com o tempo, eu me adaptei bem e aprendi como transformar essa ansiedade em motivação para atingir meu potencial como jogador de poker e provar meu valor ao mundo pelas minhas conquistas.
E a validação começou a chegar.
Em 2019, fui eleito pelos meus colegas em uma pesquisa da CardPlayer como o melhor jogador do mundo—meus sonhos se tornaram realidade.
Meu ego celebrou demais, mas não demorou muito para que eu percebesse que ainda estava incompleto.
Agora que eu era o melhor, não havia margem para erros. Apesar de tudo que havia conquistado, eu não era menos frágil. Cada erro parecia uma ameaça para a narrativa. Será que estou regredindo? Será que estou ficando velho? Complacente? Preguiçoso? Por quanto tempo mais posso continuar enganando as pessoas e fazer elas pensarem que sou muito bom quando sei o quão grandes meus erros podem ser?
E nada disso sequer tocou na raiz do que eu realmente buscava por trás de tudo isso: ser aceito. ntão, quando alguém fazia uma crítica, como “chato”, “robótico” ou “sem personalidade”, eu levava a sério. Porque em algum lugar dentro de mim eu tinha medo de que estivessem certos.
Motivado pelo meu desejo de ser o melhor jogador possível, comecei a fazer um trabalho interno maior, descascando as camadas das minhas convicções e examinando o que estava sendo descoberto. Por que eu sentia que precisava ser perfeito para receber validação? O que eu realmente buscava com meu sucesso? Investigações desconfortáveis que, lentamente, mas seguramente, começaram a me libertar das minhas noções preconcebidas de quem eu era e quem eu precisava ser.
E vi os benefícios. Na mesa, sim, mas ainda mais nas minhas interações regulares com minha família, meus amigos, conhecidos e até mesmo com completos estranhos. O progresso me fortaleceu e me impulsionou a seguir em frente. Quanto mais eu me aprofundava na vulnerabilidade, na honestidade e na confiança nos outros, mais confiante, autêntico e seguro de mim mesmo eu me sentia.
Estou aprendendo a ouvir não apenas a minha lógica, mas também a voz quieta, misteriosa e inexplicável dentro de mim. A voz que fala quando estou em silêncio. A voz que agora me incentiva a escrever isto e a expor para o mundo ver.
E aqui estou eu, a criança dentro da fantasia de robô. Apenas mais um ser humano em busca de amor, de conexão e de pertencimento. Cansado de fugir da minha sombra, pronto para parar e dar a volta por cima, eu espero.
Esta mensagem é direcionada para qualquer pessoa que se sente presa na escuridão. Vivi tempos que soavam insuportáveis, onde a ideia de paz, conexão ou de uma mente tranquila parecia muito distante. Se você está nessa situação agora, quero que saiba que pode melhorar. Você não está quebrado, e você não está sem ajuda. Continue.
Também quero agradecer a todas as pessoas que viram algo em mim que eu demorei muito para ver em mim mesmo e me ajudaram neste caminho. Algumas saberão quem são. Outras talvez nunca percebam o quanto um pequeno gesto significou para alguém que estava passando por dificuldades. Sou profundamente grato a todas vocês.”
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