José Irineu Conta Seus Motivos Para Deixar o Poker

Por: 22/03/2013

Há algum tempo você postou no blog que estava voltando a ser pro, e parecia bastante empolgado. Pouco tempo depois, se aposentou do jogo. O que levou a essa mudança?

A falta de tesão pelo jogo. Acho que talvez já era pra eu ter parado quando eu tentei fazer essa mudança, mas eu não queria parar daquele jeito. Eu dei um gás, tive um ótimo final de ano com o poker, fui pra Punta, joguei todos os majors no final do ano, fiz um ótimo período no cash live, acho que o que eu queria era ter um final que me desse uma boa lembrança, queria eu escolher a hora de parar e não que o poker escolhesse essa hora. Quando começou o ano eu não tinha a menor vontade de jogar, passei o começo de janeiro numa angústia terrível de ter que jogar e não querer, a decisão veio daí.

Acho que essa angústia me fez me expressar mal, se eu sentir vontade eu posso voltar tranquilamente a jogar poker, acho que tô mais pra um ano “sabático” do que me decidir me aposentar de vez, mas por enquanto eu não tive a menor vontade de jogar poker, eu ainda não me livrei da sensação de ter que jogar, mas a vontade mesmo, está 0.

Essa falta de vontade tem motivos específicos?

Eu não sei se tenho resposta pra essa pergunta, eu já pensei bastante. Acho que um motivo pode ser porque eu sou muito intenso e eu vivi 5 anos completamente imerso no poker, todas as minhas amizades, todas as minhas referências, objetivos era tudo voltado pro poker, por isso eu corrijo e falo que pode ser um período sabático, as vezes posso estar passando por um burnout apenas.

O poker me fez crescer demais, em todos os aspectos, (todos mesmo, até de peso) talvez tenha chegado a hora de conhecer outras áreas, outras pessoas, outras ideias.

Mas eu ainda não tenho uma resposta definitiva pra sua pergunta.

Acha que o poker já te ofereceu tudo que poderia?

Não sei, talvez sim, eu realmente não sei, acho que momentaneamente sim. Esses 2 meses sem jogar tive mais tempo pra passar com a Rezinha, conhecer outras pessoas, frequentar outros lugares, talvez minha falta de vontade de jogar venha dessa nova fase.

A maior dificuldade no jogo nos últimos anos, alguns diriam até a queda na lucratividade, teve alguma influência na sua decisão?

Acho que não, meu principal sempre foi live e o jogo mudou bem pouco nesse período. Eu tive períodos difíceis no online em 2011, mas o live pra mim sempre foi tranquilo. Tive uns 2 períodos down jogando live.

Como a sua esposa encarou sua decisão?

Da melhor maneira possível, eu tenho muita sorte de ser casado com ela, o post dizendo que eu ia parar foi feito meio no impulso, quando ela chegou do trabalho pedi pra ela entrar no MaisEV e foi assim que ela ficou sabendo.

Ela disse que ficou preocupada e é completamente compreensível, mas ao mesmo tempo ela confia em mim e tem visto que eu tenho estado mais tranquilo e feliz do que o período do começo de janeiro.

Ela é realmente uma pessoa especial e ter ela do meu lado torna tudo mais tranquilo em todos os aspectos.

Já tem planos para a vida “pós-poker”?

Eu acumulei tanta vontade de fazer tanta coisa que quando eu tive a liberdade pra fazer isso eu fiquei meio perdido. Estou há 2 meses pensando no que fazer da vida, meio sem rumo ainda, pensando agora eu acho que tive alguma coisa parecida com burnout mesmo, porque eu ainda estou curtindo essa liberdade pós poker, poder sair de domingo, poder sair sábado a noite, essas coisas que eu não fazia há tempos.

Sobre plano em si, eu ainda não escolhi nada. Eu sou filho de músico, irmão de músico, sobrinho de músico e sempre corri da música como o diabo corre da cruz, mas talvez esse acabe sendo um dos destinos.

O pessoal que acompanha o off-topic sabe o quanto eu gosto de um debate e nesse ponto o MaisEV foi uma escola pra mim, poder debater com caras como o $argento.com, Picinin, Zombie, Ekalil, Al”mito”vinho, Cezar Teixeira, Bueno e outros que eu posso estar esquecendo, poder fazer isso de graça me ensinou muita coisa e me acendeu a vontade de cursar filosofia, algo que eu devo fazer ano que vem.

E trabalhar com cerveja é também uma vontade, ter um negócio, abrir um empório, ou algum bar especializado, mas esse é o que talvez seja mais difícil de acontecer.

Então também não trabalharia com poker?

Talvez, não tenho nada nos planos, mas se tiver alguma coisa que eu achar que de fato eu estou contribuindo pra alguma coisa e veja um sentido, eu faria sim.

Mesmo sem essa vontade de jogar, alguma mudança no mercado te faria voltar a jogar hoje, como a Zynga por exemplo?

Acho que não, eu sentei pra jogar no domingo do Sunday Million de aniversário, abri uma retinha de satélites e alguns MTT´s pra fazer uma reta de domingo, com meia hora de jogo eu já estava completamente sem vontade de jogar, o fato é que atualmente com essa falta de vontade eu não sou vencedor no jogo e isso acaba reforçando minha falta de vontade, jamais eu vou querer sentar em uma mesa que eu não ache que eu tenha condições de vencer.

Acho que uma possível volta se daria quando eu estiver com vontade de jogar, com aquele brilho no olho, por enquanto não vejo isso.

Até você decidir isso, como essa sensação estava afetando seu jogo?

De uma maneira muito negativa, eu quase não joguei em janeiro e as poucas vezes que eu joguei foi tomando as piores decisões possíveis, esperando que o jogo acabasse logo pra poder fazer outra coisa. Era uma sensação muito angustiante, é como ir pra um emprego que você não gosta, fazer algo que você não está afim. Com a cabeça o tempo todo em outra coisa.

O engraçado é que eu ainda não consegui me desligar completamente do poker, tem vezes que eu estou na balada no sábado, de repente bate aquela sensação de culpa por estar bebendo e não estar em condições no domingo. Ou como esse último final de semana que eu estava na praia e rolando o CPH, aquela culpa de não estar jogando. Agora até que essa sensação não é tão grande, mas no começo foi bizarro, o tempo todo eu me sentindo culpado. No BSOP eu nem fui no hotel, acho que é o primeiro BSOP de sp em anos que eu não estou presente no evento.

E agora, o que tem feito com seu tempo?

Tenho escrito bastante, consegui dar um andamento no livro, que eu espero terminar até o final do ano, tenho matado a parceirada no campeonato de Xbox do Fifa 13, rs. Passando mais tempo com a Rezinha, tendo mais tempo pra passar com os amigos, eu prezo muito pela minha vida social e ela se resumia ao poker, agora rola tempo de ver as pessoas off poker. Da pra viver no fuso horário mais normal, ter tempo de final de semana.

São pequenas coisas, eu nem conseguiria me enfiar de cabeça em outra coisa logo na sequência, mas está tranquilo, as vezes é bom ter um tempo sobrando sem necessariamente ter que me ocupar.

Como você vê o futuro do poker?

Tem muita coisa pra acontecer né? Reentrada dos americanos no field online, consolidação e regulamentação do mercado brasileiro, fica difícil prever o que pode acontecer. Eu acho que no online eu não vejo o jogo ficando muito mais difícil, tem jogadores bem consistentes ganhando bastante, Kako, Sphinter, Roqueiro e mais alguns que eu esqueci, mas que postam gráficos constantemente up. Esses jogadores são muito bons em todos os aspectos que o poker profissional exige hoje e vejo esses caras batendo o jogo por muito tempo.

Eu acho que no Brasil ainda tem espaço pra crescer, talvez mais no live do que no online. E vejo o futuro do poker passando pela abertura da publicidade pro poker, quando empresas quebrarem essa barreira, ai eu acho que o poker vai ganhar mais um fôlego, pra depois se estabilizar.

Em Punta Cana tive a oportunidade de conversar com o Bill e ele explicou que o papel do Brasil no processo mundial de consolidação do poker é fundamental, somos referência em como desenvolver e organizar o poker, acredito que temos pelo menos mais uns 5 anos com o BSOP Million batendo recordes.

E a questão dos impostos, qual sua opinião?

Da maneira que está é completamente injusta com o jogador profissional é bem descabido. A gente tem um problema de ter uma carga tributária completamente desproporcional no Brasil e ao mesmo tempo não vejo os jogadores se movimentarem, algumas vozes isoladas questionam, mas meio que por questionar só, sem fazer algo de fato, no máximo deixam de jogar.

Na minha opinião seria mais importante os jogadores se mobilizarem, mas não acho que isso vá acontecer.

Por que não?

Porque brasileiro é por natureza acomodado e temos a tendência a aceitar as coisas com passividade. A Nutzz entrega um torneio com uma qualidade internacional, não temos o que questionar, mas na prática os jogadores estão pagando um rake que beira os 50% e temos fields maiores a cada edição. Nas próprias discussões no fórum temos jogadores que encaram o BSOP como um passeio e declaradamente não se importam muito com a questão do imposto.

Para encerrarmos, o que diria pra jogadores mais novos traçando o mesmo caminho que você já percorreu?

A finalidade do poker não é dinheiro, eu tenho visto uma molecada mais nova que acerta alguns torneios e acha que resolveu o jogo, dinheiro é consequência de uma série de fatores.

Eu joguei profissionalmente durante 5 anos, elevei meu padrão de vida, casei, viajei, mas o que eu levo por enquanto disso não é uma soma em dinheiro, é principalmente a amizade e o respeito de uma galera que eu considero sensacional, isso com certeza não tem preço.

Historiador por formação, conheceu o MaisEV em sua primeira semana de vida, ainda em 2007. Em pouco tempo, tornou-se editor-chefe do site para fazer o que faz de melhor: escrever.

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