Entrevista – Tommy Angelo

Por: 22/01/2010

Danilo Telles: Antes de ser um jogador profissional, você era músico. Quando e porque você decidiu ser um jogador de poker profissional?

Tommy Angelo: Na verdade, eu não decidi ser um profissional. Eu estava tão loucamente viciado em poker que eu tinha que aprender a vencer consistentemente para alimentar meu hábito. Eu descobri que havia isso de “jogador de poker profissional” quando eu tinha 19. Na hora eu soube que gostaria de ser isso, um dia. Quando eu tinha 30 anos,  depois de tocar música em palco por 5 noites por semana durante oito anos, eu desenvolvi um problema auditivo por causa de muita exposição a som alto. Eu teria que usar protetores de ouvido quando tocasse, ou sofreria mais dano. Nessa época, eu jogava poker uma ou duas vezes por noite a cada semana em um circuito de jogos caseiros que acontecia toda noite. Eu pensei que poderia viver desses jogos, então saí do negócio da música quando tinha 30 anos pra jogar poker. Três meses depois eu quebrei e tive que pegar dinheiro emprestado pra jogar. Mais três meses depois e eu estava indo bem, e nunca mais quebrei novamente.

Danilo Telles: Como você percebeu que poderia ser um bom profissional?

Tommy Angelo: Depois que aprendi a importância do fold, e então aprendi como fazer, combinado com aprender como não dar informação desnecessária, eu soube que tinha as ferramentas. Depois disso, eu soube que se aprendesse a controlar meus demônios do tilt bem o suficiente para não me matarem, eu nunca quebraria.

Danilo Telles: Você jogou online de 1998 até 2003. Porque parou de jogar online?

Tommy Angelo: Eu fiquei longe dos video games minha vida inteira, porque sabia que eles seriam muito viciantes pra mim. Quando o poker online apareceu, eu não estava mais viciado em qualquer tipo de jogo de apostas, e não estava mais viciado em poker. Entretanto, o aspecto de video game do poker online me prendeu. Isso tornou um hábito muito prejudicial pra mim. Eu jogava por várias horas por dois meses. Então parava e jogava só ao vivo. Então eu começava a jogar online de novo e manter um bom equilíbrio. Aí eu perdia o controle novamente, e parava com desgosto. Eu fiquei neste ciclo por umas cinco vezes durante cinco anos, até que finalmente decidi parar de jogar poker online para sempre.

Danilo Telles: E há algo que você aprendeu com o poker online que considere útil em poker live?

Tommy Angelo: Não.

Danilo Telles: Você é um jogador de cash games ou torneio?

Tommy Angelo: Eu jogo somente cash games. Eu costumava jogar torneios ocasionalmente nos cassinos locais (Lucky Chances e Artichoke Joe’s), de 1998 até 2004. Eu normalmente entrava num torneio com mentalidade recreativa. Era legal mudar o ritmo, e eu gostava deles de vez em quando. Eu sabia que qualquer dia, com a escolha entre jogar torneios ou cash games, minha winrate esperada sempre foi maior em cash game. As três maiores razões são que quando eu jogo cash games, eu posso escolher meus oponentes, posso escolher meu assento, e posso decidir quando parar. Seleção de jogos, seleção de assento e parar quando não tiver mais vontade de jogar são três das minhas fortes vantagens no jogo. Em torneios, nenhuma destas opções estão disponíveis pra mim. Além disso, eu gosto mais de cash games porque se eu fizer uma boa jogada, serei recompensado na hora, e se meus oponentes cometerem um erro, serei recompensado na hora. Em um torneio, eu posso fazer uma série de ótimas jogadas, mas se eu não chegar na premiação, não ganho nada pelos meus esforços. Eu gosto de cash games porque as conseqüências financeiras das minhas decisões são imediatas.

Danilo Telles: Você joga nos grandes torneios ao vivo? Se não, por que?

Tommy Angelo: Eu vou no WSOP quase todo ano desde 1987, mas nunca participei de um evento, pelas razões que falei na pergunta anterior. Eu gosto da sensação de convenção do WSOP, e encontro muitos amigos lá.

Danilo Telles: Você tem uma rotina como jogador?

Tommy Angelo: Sim. Antes de jogar, eu sempre estou bem descansado, e como apenas alimentos muito saudáveis. Eu faço meditação e yoga todas as manhãs por pelo menos uma hora e meia. Essa é minha rotina caso eu vá jogar poker no dia ou não. Na maioria da minha carreira, eu tive hábitos extremamente pobres. Eu mudei esses hábitos entre 2001 e 2003 quando parei de fumar, beber, e comecei a cuidar de mim mesmo todos os dias. Antes disso, eu de alguma forma consegui me dar bem no poker apesar do meu estilo de vida prejudicial. Depois que fiquei saudável, meu jogo de poker melhorou drasticamente, assim como minha qualidade de vida.

Danilo Telles: Agora que conhecemos sua história, vamos falar sobre seu programa de coaching. Você é conhecido pelo seu coaching único. Por que decidiu ajudar as pessoas a tiltar menos?

Tommy Angelo: Eu vim de uma família de professores e eu adoro ensinar. Quando Chris Moneymaker ganhou o WSOP, e Steve Lipscomb teve a idéia de colocar câmeras de TV nas mesas de poker, e os jogos online se tornaram instantaneamente acessíveis para todos, o poker explodiu, e eu percebi que haveria uma enorme demanda para ensinar, criada pelo gigantesco número de iniciantes. Essa demanda seria, de início, em estratégias de jogo. Após alguns anos, essa bolha de iniciantes se tornaria uma bolha de jogadores experientes, e alguns deles perceberiam que para continuar a melhorar seus resultados, eles deveriam trabalhar não somente na estratégia de jogo, mas também na estabilidade mental. Quando eu montei meu programa, desenvolvi para incluir tudo. Com alguns clientes, trabalho metade com estratégia de jogo, metade com tópicos como bankroll, foco, sair do jogo, habilidades online, habilidades ao vivo e dúzias de outros assuntos.

Danilo Telles: Quais jogadores famosos passarem pelo seu programa de coach Tiltless Program (Programa Sem Tilt)?

Tommy Angelo: Phil Galfond, Jay Rosenkrantz (Krantz), David Benefield e outros que não tenho a liberdade de divulgar.

Danilo Telles: Provavelmente houve um tempo em que você tiltava bastante. Como você descobriu a meditação e o yoga, e como descobriu que seria útil para um jogador de poker?

Tommy Angelo: Eu comecei a praticar yoga por desespero. Meu corpo e mente estavam destruídos. Eu comecei yoga regularmente todos os dias e os benefícios foram tão rápidos e drásticos que foi fácil para mim priorizar a yoga acima de tudo. A yoga me permitiu conhecer pessoas e ler materiais que me levaram a aprender como me posicionar para a meditação. Isso tudo começou em 2003. Eu nunca perdi um dia desde o primeiro.

Um dos benefícios da minha prática é que ela treina minha mente de uma maneira que me permite ficar focado por grandes períodos de tempo sempre que eu quiser. Isso é ótimo pro poker. Além disso, me treina para aceitar a realidade sem resistência. Isso é uma habilidade poderosa para reduzir e eliminar todos os tipos de tilt, na mesa de poker ou fora dela.

Danilo Telles: É possível ficar completamente livre do tilt?

Tommy Angelo: Pela definição do tilt – um desvio do A-game – não. Isso significa que sempre haverá para onde evoluirmos, então não faz sentido ficar frustrado nesta jornada, já que a perfeição é impossível.

Danilo Telles: Seu livro Elements of Poker foi um sucesso. Você tem planos para outro livro?

Tommy Angelo: Sim. Eu talvez escreva um livro chamado “The Eightfold Path to Poker Enlightenment.” (Os Oito Passos Para a Iluminação no Poker). O livro pode ser relacionado à serie de vídeos que eu fiz com Wayne Lively no DeucesCracked.com que, como descreveu Wayne: “não é sobre como jogar poker, é sobre como se tornar um jogador de poker.” O tema principal é como jogar seu A-game com mais frequencia. Os temas secundários são muitos e variados.

Danilo Telles: Como você diria que seu livro difere de outros guias de poker disponíveis?

Tommy Angelo: Me disseram que meu livro é único porque: 1) É principalmente sobre como jogar seu A-game com maior frequencia. 2) É sobre como usar os momentos dolorosos no poker como oportunidades para melhorar nosso poker e nós mesmos profundamente. 3) Faz as pessoas rirem.

Danilo Telles: Em seu site, você tem várias frases de efeito, que chama de “Tommismos”. Você tem alguma favorita?

Tommy Angelo: “Todo mundo joga poker exatamente da mesma maneira: da maneira que quiserem.”

“Para vencer no poker, você tem que ser muito bom em perder.”

“Eu nunca consigo ficar even no poker. Eu já gastei o dinheiro.”

Danilo Telles: Você segue o budismo?

Tommy Angelo: Eu acho que os ensinamentos e práticas do budismo como o método mais racional e prático de converter meu sofrimento em não-sofrimento que eu conheço. Se alguém que conhece o budismo bem ver o que eu faço,  irá dizer “ele é um budista.” Eu não penso assim. Eu penso em mim como alguém que aplica soluções pragmáticas para os problemas que ficam no caminho da minha felicidade, tais como raiva, aborrecimento, vicio e descontentamento.

Danilo Telles: Você frequentemente fala sobre respiração correta. Qual é a importância disso pra você, e como é importante para um jogador de poker?

Tommy Angelo: Respirar corretamente é a prática central de toda meditação e yoga. A importância e os benefícios disso não podem ser subestimados.

A peça central dos meus ensinamentos, que vem de ensinamentos antigos, é aumentar a felicidade por um caminho de não-resistência e percepção, com a percepção da respiração sendo a ferramenta principal. Eu acho que os jogadores de poker seriam melhores com mais concentração na respiração. Mas não porque eles jogam poker. É porque eles jogam a vida. Acho que todos seriam mais felizes se seguissem suas respirações. Em qualquer lugar, a qualquer momento.

Danilo Telles: Você também é fã do fold, se eu puder colocar nestes termos. Por que?

Tommy Angelo: Por que quando eu aprendi sobre folding, me tornei um jogador vencedor! Hoje em dia, os jogadores aprendem sobre folding desde o começo, em livros e vídeos. Nos primeiros 10 anos que eu joguei poker por dinheiro, dos 14 aos 24 anos ou por aí, havia muito pouco fold, por mim ou por qualquer um. Então eu comecei a ler livros e aprender sobre folding, e eu me tornei instantaneamente o melhor jogador em todos os jogos que participei.

Danilo Telles: Falando nisso, eu soube que você foldou par de Áses pré-flop uma vez, apenas para saber se conseguiria. Como se sentiu?

Tommy Angelo: Eu estava vibrante! Escrevi um artigo sobre isso chamado “A pior jogada de todos os tempos”. Você pode ler aqui. http://tommyangelo.com/articles/the_worst_play_ever.htm

E ontem, eu publiquei uma seqüência para aquela história, chamada “A segunda pior jogada de todos os tempos”. Aqui está o link. http://tommyangelo.com/articles/the_second_worst_play_ever.htm

Danilo Telles: Há alguma outra coisa incomum que você fez ou viu durante um jogo de poker?

Tommy Angelo: Essa foi uma das coisas mais drásticas que eu já presenciei. Foi em um cassino de uma mesa. Todo mundo se conhecia. Este cara velho esta perdendo mão após mão, beats terríveis, e ele ficou vermelho de raiva. Ele correu para o banheiro, gritando “Eu vou estourar meus miolos!” Depois que ele entrou no banheiro, nós ouvimos um tiro. Ninguém levantou. Um minuto depois, ele saiu – ainda mais nervoso do que antes, se isso é possível – porque ninguém foi ver se ele ainda estava vivo.

Danilo Telles: O que você sugeriria para alguém que tem um incrível talento para o poker, mas um igual talento para o tilt?

Tommy Angelo: Vamos começar com o pressuposto de que esta pessoa quer ser melhor no poker do ela já é, e que ela quer ser mais feliz do que é. Eu acho que é justo dizer que todo jogador de poker quer isso. Para um jogador que já tem a habilidade de fazer muito dinheiro quando está jogando seu melhor, mas tem enormes problemas com tilt, ele deve se perguntar, “como eu posso melhorar meu ganho? O que faria a maior diferença? Seria melhorar meu A-game?”

Ele sabe que a resposta é não. Ele sabe que o tilt é seu verdadeiro problema. Mas só porque ele sabe isso, não quer dizer que vai resolver, porque o tilt é uma forma de insanidade, um tipo de vício. O primeiro passo é dizer “Eu tenho um problema.” O próximo passo é priorizar resolver esse problema acima de tudo, e eu digo, tudo mesmo. Até que essa prioridade diminua bastante, não há muito que possa ser feito para ajudar essa pessoa. Depois que a mudança de prioridade é feita, então um caminho de melhora lenta e estacionária é possível.

Danilo Telles: Falando sobre talento, você acha que é possível ser um jogador de sucesso sem talento, apenas por esforço?

Tommy Angelo: Bem, você usou duas palavras que precisam ser esclarecidas antes de uma discussão significativa. A primeira é “talento” e a segunda é “sucesso”. Esses termos são nebulosos. O que significaria para um jogador não ter “talento”? Eu não sei. E como o sucesso é definido? Eu também não sei, porque tem significados diferentes para pessoas diferentes.

Se você está perguntando se uma pessoa sem criatividade e coragem poderia aprender as habilidades básicas do poker com livros e vídeos e então viver disso através de uma boa seleção de jogos, foco, consistência e sem tiltar, eu acredito que a resposta é sim. Em outras palavras, eu acredito que há jogos hoje com jogadores tão ruins que o poker ABC irá vencer.

Danilo Telles: Para encerrar, mande uma mensagem para os leitores do MaisEV.

Tommy Angelo: Quando você estiver estressado, pare e respire lentamente. Depois repita várias vezes. Não há jeito melhor de se sentir melhor nesse momento. Boa sorte!

Historiador por formação, conheceu o MaisEV em sua primeira semana de vida, ainda em 2007. Em pouco tempo, tornou-se editor-chefe do site para fazer o que faz de melhor: escrever.

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