Entrevista – Rodrigo Caprioli

Por: 15/07/2010

Rodrigo Caprioli: Meu nome é Rodrigo dos Santos Caprioli, conhecido como Zidane pela semelhança com o jogador francês. Tenho 29 anos, nasci e moro em São Paulo.

Danilo Telles: Há quanto tempo você joga poker? Seu início foi difícil? Como você construiu o seu bankroll?

Rodrigo Caprioli: Jogo poker acho que desde os 12 anos de idade… Mas com freqüência grande e altos valores a partir do final de 2004. Eu construí meu BR jogando live em SP, e nem acho que foi difícil, pois minha vantagem no jogo à época era muito grande.

Danilo Telles: Você disse que construiu seu BR jogando live. Qual é sua opinião sobre o cenário do poker live no Brasil?

Rodrigo Caprioli: Eu já tive muitos problemas com o jogo live no Brasil por isto parei de jogar. Já tive dificuldades para receber e perdi parte dos ganhos em um clube, já fui barrado em outro, já vi muito jogo roubado. E infelizmente não acho que a situação mudou muito. A organização das casas ainda é bastante amadora, o rake é absurdo e constantemente ouço casos de roubo e collusion em torneios Brasil afora. Então não acho o jogo live no Brasil uma boa e não pretendo mais jogar no país com freqüência.

Danilo Telles: E o poker brasileiro em geral?

Rodrigo Caprioli: Evoluiu muito desde que comecei a jogar. Mas creio que ainda há muito a melhorar tanto no nível técnico dos jogadores quanto na organização e administração  do jogo no Brasil.

Danilo Telles: Como sua família encara sua profissão de jogador? Teve alguma dificuldade ou encarou algum tipo de preconceito?

Rodrigo Caprioli: Nunca tive nenhum problema, pois meus resultados sempre foram muito bons. Ai fica mais fácil mostrar que poker pode ser uma boa.

Danilo Telles: Você se considera um jogador tight ou loose? Quão agressivo?

Rodrigo Caprioli: No geral sou tight-agressive, mas bem menos agressivo que alguns jogadores atuais.

Danilo Telles: Quais são as suas maiores qualidades no game?

Rodrigo Caprioli: Sou bastante disciplinado e focado. E meu auto-controle é muito bom. quase nunca perco o foco no jogo. Fora o lado emocional, tenho uma leitura muito boa e confio nela, além disso tenho domínio total da parte matemática do poker.

Danilo Telles: Qual foi o seu melhor resultado jogando poker?

Rodrigo Caprioli: Acho que o 2º lugar no SCOOP do PokerStars de PLO 5K, não só pelo valor mas também pelo field. Ganhei um SCOOP este ano, e tenho outra mesa final no SCOOP e uma também no WCOOP, além de ser o brasileiro com o maior número de ITMs nas duas séries. No live, ganhei uma etapa do BSOP com 500 jogadores e tenho um 3º lugar em outra etapa de 140 inscritos, cheguei à mesas semi-finais em EPT, WSOP e LAPT. Estava na equipe do Brasil que conquistou o 2º lugar no evento inaugural do World Team Poker.

Danilo Telles: E em cash game, quais modalidades você joga?

Rodrigo Caprioli: Live eu jogava o PL Texas que se jogava aqui em São Paulo. On-line eu tenho jogado PL Omaha short-handed.

Danilo Telles: Falando sobre Omaha, você acredita que o Omaha pode substituir o NLH como modalidade mais jogada ou mais lucrativa nos próximos anos?

Rodrigo Caprioli: Bem que eu gostaria… Mas não acho que ocorrerá, pois o NLH está bem consolidado e creio que os grandes torneios sempre continuarão sendo de NLH.

Danilo Telles: Você participou do evento inaugural do World Team Poker. O que acha deste novo formato de torneio por equipes?

Rodrigo Caprioli: É um formato bastante legal, a competitividade fica bem grande e os jogadores do time tornam-se bastante unidos. Além de jogar pelo seu país o que é muito emocionante e gratificante.

Danilo Telles: Você já teve um mês “down” no poker? Como foi essa experiência?

Rodrigo Caprioli: Já tive vários. Mas acho isso só psicológico, pois na verdade o jogo é uma sessão contínua, então ganhar ou perder em determinado período é irrelevante, e só quem joga em grande quantidade sabe o quanto a sorte pode variar.

Danilo Telles: Como é a sua rotina atualmente?

Rodrigo Caprioli: Tenho jogado jogado praticamente só cash on-line. Jogo um pouco pela manhã das 11:00 às 14:00, paro, vou me exercitar, almoço e retomo lá pelas 17:00 e vou até às 22:00. De 6 a 8 horas por dia, uns 6 dias por semana. Tenho jogado muito atualmente, muita conta para pagar…

Danilo Telles: Qual(is) jogador(es) estrangeiros você admira e por quê? E brasileiros?

Rodrigo Caprioli: Phil Ivey certamente é o melhor do mundo. Mas são muitos nomes no exterior e no Brasil, então vou ficar só com ele para não esquecer de ninguém.

Danilo Telles: E qual foi o jogador mais difícil que você já enfrentou?

Rodrigo Caprioli: Eu já joguei com a Annete algumas vezes ao vivo e em todas elas me impressionei bastante com o jogo dela. Ela tem uma ótima leitura e nunca a vi cometer um erro sequer.

Danilo Telles: Você já leu livros sobre poker? Quais lhe trouxeram mais benefícios?

Rodrigo Caprioli: Leio muito, não só sobre poker. Acho que os livros do Sklansky são muito úteis.

Danilo Telles: Você usa algum software de poker? Se sim, qual?

Rodrigo Caprioli: No momento uso o Hold´em Manager e também acesso os sites de estatísticas tipo o pokertableratings e o sharkscope. Acho que se deve usar todo tipo de informação legal a que você possa ter acesso para influir em suas decisões, e assim aumentar o seu índice de acertos.

Danilo Telles: Se você tivesse que dar um único conselho para um iniciante, qual seria?

Rodrigo Caprioli: Paciência. Certamente esta é uma das maiores virtudes do jogo, e especialmente no começo a ansiedade por resultados rápidos pode atrapalhar e até acabar precocemente com uma futura carreira.

Danilo Telles: Se você tivesse que começar hoje do zero a sua carreira, com um bankroll de $150 dólares, como o faria? O que jogaria e em o que investiria? E se o bankroll fosse de $1000 dólares?

Rodrigo Caprioli: Acho que com estes valores jogaria SNGs, pois a variância é bem menor e é relativamente fácil ganhar nos buy-ins mais baixos.

Danilo Telles: Qual é o jeito mais rápido de aprender a jogar poker?

Rodrigo Caprioli: Certamente jogar em grande quantidade, acredito que este jogo se aprende mesmo é com a prática, pois com o tempo toda situação passa a se repetir na sua mente, cada mão que você jogar já terá jogado outra igual antes.

Danilo Telles: Você já fez alguma loucura com o dinheiro ganho jogando poker? Faria novamente? Como você gasta e administra as suas finanças atualmente?

Rodrigo Caprioli: Loucura não. Sou pouco consumista, mas gasto bastante aproveitando a vida, viajando, comendo nos melhores restaurantes e me divertindo. Acho que isto é o mais importante e talvez o mais difícil de lidar para quem pretende ser profissional de poker, você tem que saber que sua renda é variável…

Vários grandes jogadores já tiveram problemas com isto e até quebraram. Então não adianta ganhar 100 mil dólares em um torneio hoje e gastar tudo amanhã, pois você tem que lembrar que não vai ganhar isto todo dia. Mas isto é especialmente difícil de administrar para quem joga MTTs, para quem joga cash games é mais fácil, pois a variância é menor e sua renda mensal tende a ser mais uniforme.

Como eu sempre joguei cash ou SNGs, nunca tive muito problema, pois sei quanto devo ganhar e por conseqüência, e mais importante, o quanto posso gastar.

Danilo Telles: O que você pretende fazer daqui pra frente na sua carreira de jogador de poker? Onde você se vê daqui a 3 anos?

Rodrigo Caprioli: Difícil saber, mas pretendo certamente continuar jogando porque gosto de jogar, talvez diminuir o ritmo e jogar mais recreativamente e viajar mais, não só a trabalho mas a lazer também. Espero daqui a 3 anos ter um resultado de expressão mundial em meu currículo, como um título de WSOP, WPT ou EPT…

Danilo Telles: Ainda falando sobre o futuro, Com a popularização do poker, os jogos tem ficado mais difíceis, e muitos temem que a lucratividade no poker pode estar acabando ou diminuindo bastante. O que pensa sobre o assunto?

Rodrigo Caprioli: Não acho, aliás pelo contrário. O jogo continua crescendo muito, especialmente no Brasil, com a entrada de novos jogadores sempre surge dinheiro novo. Sinceramente, cada vez que jogo no Brasil ou AM acho o nível médio pior. Mas, realmente tenho dúvida e um certo receio de como estará o cenário digamos daqui a 10 anos.

Danilo Telles: Recentemente, houve mais uma mudança no cenário online europeu, onde os jogadores franceses, a exemplo da Itália, só poderão jogar em uma rede interna com jogadores do seu próprio país. O que você pensa sobre este tipo de regulamentação do poker online? Acha que o jogo pode ficar mais difícil com esta restrição e diminuição do field?

Rodrigo Caprioli: No nível técnico não deve mudar muito, pois a razão entre jogadores bons e ruins continua a mesma. O problema nestes casos é que a freqüência do jogo deve diminuir bastante, pois existem menos jogadores.

Danilo Telles: Rodrigo, nós do MaisEV agradecemos por nos conceder essa ótima entrevista, boa sorte nas mesas!

Historiador por formação, conheceu o MaisEV em sua primeira semana de vida, ainda em 2007. Em pouco tempo, tornou-se editor-chefe do site para fazer o que faz de melhor: escrever.

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