Entrevista – Rodolfo Lacerda

Por: 05/11/2009

Rodolfo Lacerda: Meu nome é Rodolfo Lacerda. Tenho 21 anos, nasci em Ipatinga mas atualmente moro em Uberlândia. Além de jogar Poker, eu também tenho uma empresa de rakeback (MenosRake). Faço faculdade de ciências contábeis na UFU.

Danilo Telles: Há quanto tempo você joga poker? Seu início foi difícil? Como você construiu o seu bankroll?

Rodolfo Lacerda: Jogo poker há 4 anos. Meu início foi muito difícil e conturbado. Quando joguei poker pela primeira vez, eu resolvi fazer um depósito de $50 utilizando o cartão do meu pai. Eu lembro que, quando depositei, nem as regras eu sabia direito. Obviamente perdi tudo em pouco tempo (coisa de 10 minutos). Depositei novamente $50 e novamente perdi.

Eu tinha decidido que ia ficar bom nesse jogo, mas não tinha dinheiro pra jogar, afinal já tinha gastado $100 que nem eram meus (sem contar a bronca que eu levei). Por isso eu fiquei jogando play money por um bom tempo (coisa de um mês). Eu sentava em sng’s de play money e traçava metas, do tipo “ficar in the money em 75% dos sngs”. Era bobo e meio sem sentido, porque em sng’s play money bastava você ficar sitout que você ficaria in the money.

Pelo orkut eu acabei conhecendo o jogador Michel Helal. Ele me colocou debaixo das asas dele. Ele me chamava pra assistir ele a jogar, sempre me fazendo participar nas decisões, tentando assim desenvolver meu jogo. Ficamos por muito tempo assim, e posso dizer sem dúvidas que o aprendizado que o Michel me passou foi a base de toda a minha evolução.

Passados um tempo, consegui $125 de um amigo que jogava warcraft III comigo. Peguei essa grana e comecei a jogar de tudo, mas principalmente cash game NL25. Imagina a loucura que era sentar em uma mesa com 1/5 do seu bankroll? Eu lembro que sempre que eu blefava, meu coração batia a mil e eu pensava “juro que se ele largar eu nunca mais blefo na vida”. Obviamente eu continuaria blefando, e vivendo uma montanha russa (bankroll oscilava entre $75 e $200, sempre).

Teve um dia que eu li um post do Vicenzo ensinando como derrotar SNGs de $22 no Party Poker. Peguei as técnicas dele e comecei a aplicar nos SNGs de $11. Naquela época qualquer um podia derrotar sngs, era incrivelmente fácil. Alcancei meus primeiros mil dólares jogando sng sem parar.
Depois disso comecei a investir em cash game, mas de uma maneira mais séria. Estudei muito sobre o jogo basicamente através do fórum 2+2. Naquela época fiquei amigo de grandes jogadores (pra um microstaker) como o Danbitel, que era um NL200 enquanto eu era um NL10er.

Lembro que eu conseguia fazer 40 a 50 dólares por dia jogando NL10, mas sempre que ia pra NL25 eu perdia grana. Pra solucionar isso, eu juntei muito dinheiro jogando NL10 e pulei diretamente pra NL50. De NL50 fui rapidamente pra NL100 e NL200. Eu fiquei MUITO tempo em NL200, e até hoje é o meu pão com manteiga. Consigo abrir várias mesas e fazer um bom dinheiro nesses limites. Na minha curta experiência em limites maiores, eu sai lucrando, mas sempre fiquei extremamente desconfortável jogando limites maiores.

Quando eu tinha 19 anos meu irmão e meu primo faleceram em um acidente de carro. Isso me abalou muito, eu não conseguia mais jogar. Fiquei um mês parado, logo após ter meu melhor mês até então: tinha feito 24k jogando NL200. Quando voltei, joguei 100k hands sem ganhar um centavo. Essa foi uma época muito difícil pra mim, porque eu sabia que era bom mas não conseguia vencer a perda dos meus parentes. Dois meses depois do acidente de carro, minha vó também faleceu. Tudo parecia fudido nessa época.

Foi ai que eu decidi procurar algo que me desse renda que não fosse jogando, justamente pra conseguir enfrentar momentos difíceis como esse, que com certeza voltariam a ocorrer.

Iniciei ou participei de alguns projetos que não tiveram sucesso, mas me deram uma bagagem essencial pra então começar o MenosRake, meu portal de rakeback. Trabalhei muito em cima do site, aprendi um pouco de HTML, design, programação, CMS e outras coisas que eu nunca tinha visto na vida. Meu esforço foi recompensado, uma vez que o MenosRake é o maior site de rakeback brasileiro na atualidade.

Com minha dedicação ao MenosRake, passei a dedicar menos tempo ao Poker enquanto jogador, mas nunca o abandonei.

Hoje ainda jogo porque gosto do jogo e ainda dá uma rentabilidade legal, sendo meu principal jogo o querido NL200 que sempre esteve comigo.

Danilo Telles: Você se considera um jogador tight ou loose? Quão agressivo?

Rodolfo Lacerda: Eu acho que tenho um bom poder de adaptação à mesa. Contudo, nos dias de hoje, a maior parte das vezes eu jogo incrivelmente tight fora de posição e bem loose em posição. Essa é uma boa maneira de abusar dos aggrotards de small e mid stakes que só jogam olhando números do HUD.

Danilo Telles: Quais são as suas maiores qualidades no game?

Rodolfo Lacerda: Possuo um bom raciocínio lógico e matemático. Apesar de não ter perguntado, digo que minha maior fraqueza é o psicológico, em termos de interpretar como o oponente pensa. Não sou ruim nisso, mas definitivamente não é meu forte.

Danilo Telles: Qual foi o seu melhor resultado jogando poker?

Rodolfo Lacerda: Segundo lugar no Sunday Million, levando $176k.

Danilo Telles: Você já teve um mês “down” no poker? Como foi essa experiência?

Rodolfo Lacerda: Depois que me tornei profissional, no início de 2007, não tive nenhum mês down, mas já tive 2 meses breakeven (na época que perdi meu irmão). Fora isso, sempre tive meses up.

Danilo Telles: Como é a sua rotina atualmente?

Rodolfo Lacerda: Acordo meio dia, trabalho no MenosRake e outros projetos ou jogando até as 18h, encontro com minha noiva, vou pra faculdade e volto pra casa às 23h. Passo umas duas horas trabalhando ou jogando poker. Normalmente passo mais uma ou duas horas jogando dota com meus amigos do poker e vou dormir por volta das 4 da manhã.

Danilo Telles: Qual(is) jogador(es) estrangeiros você admira e por quê? E brasileiros?

Rodolfo Lacerda: Gringo eu admiro o Danbitel, que nem joga mais e provavelmente ninguém aqui conhece, porque ele me ensinou muita coisa. Brasileiros eu admiro o Michel, que me deu o pontapé inicial com o poker e o Urubu, que é um dos melhores jogadores que eu já conheci. Tive a oportunidade de ver esse cara sair de micro stakes pra se tornar um jogador que pode fazer frente a quase qualquer um, tudo isso só jogando e se forçando a evoluir. Uma outra pessoa que admiro muito é o Breda, tive a felicidade de conhecer ele pessoalmente e ter tornado amigo dele. Lembro que um dia eu tava falando com ele sobre a possibilidade de poker acabar, e ele falou “se acabar acabou, nunca tive medo de trabalhar”, gostei muito dessa frase.

Enfim, existem muitas outras pessoas que eu admiro e respeito muito, mas se for citar todas e explicar, vou ficar até amanhã escrevendo. Sempre deixei claro a uma pessoa quando eu admiro ela, então acho que não preciso nem citar!

Danilo Telles: Você já leu livros sobre poker? Quais lhe trouxeram mais benefícios?
Já li alguns. O que mais marcou, de longe, foi o Elements of Poker. Aconselho a todos lerem esse livro.

Danilo Telles: Você usa algum software de poker? Se sim, qual?

Rodolfo Lacerda: Eu tenho o Holdem Manager para guardar minhas mãos e o PokerStove para analisar equidades.

Danilo Telles: Se você tivesse que dar um único conselho para um iniciante, qual seria?

Rodolfo Lacerda: Se você realmente quer ganhar, você tem que se dedicar e suar. Contudo, não aconselho ninguém a abandonar tudo e ficar só no poker. Ter o Poker como um hobbie lucrativo é melhor do que tê-lo como profissão.

Danilo Telles: Se você tivesse que começar hoje do zero a sua carreira, com um bankroll de $150 dólares, como o faria? O que jogaria e em o que investiria? E se o bankroll fosse de $1000 dólares?

Rodolfo Lacerda: Se eu tivesse $150, eu primeiramente consideraria trabalhar em algo fora do poker para juntar um bankroll maior para jogar. Mas assumindo que essa não é uma possibilidade, eu começaria jogando cash game microstakes, utilizando a estratégia de short stack. É uma estratégia relativamente simples que funciona bem para aumentar o bankroll através dos limites baixos. Uma vez com $500+, eu começaria a jogar Full Stack em microstakes, NL2 ou NL5, e iria subindo a partir daí. Sempre que eu começasse a cair, eu voltaria pra SSS. É um plano lento, mas assumindo que temos só $150, temos que ser bem conservadores.

Com $1000 eu começaria em NL5 Full Stack até aprender o básico do básico (porque no começo você vai perder, então é melhor perder em limites baixos). Depois que eu já souber selecionar as mãos a serem jogadas pré-flop e entender o básico de força pos-flop, eu subiria pra NL10, e subiria de acordo com a gordura do bankroll. Novamente é um plano conservador, mas a idéia é reduzir ao máximo o risco de ruína.

Danilo Telles: Qual é o jeito mais rápido de aprender a jogar poker?

Rodolfo Lacerda: Conversando e discutindo com jogadores melhores que você.

Danilo Telles: Você já fez alguma loucura com o dinheiro ganho jogando poker? Faria novamente? Como você gasta e administra as suas finanças atualmente?

Rodolfo Lacerda: Até eu juntar 40k dólares, eu não tinha gasto 1 real sequer. A primeira coisa que eu fiz foi comprar um carro de 30k dólares. Foi uma loucura que eu não faria novamente, uma vez que eu estava definindo um estilo de vida caro, o que não é interessante pra ninguém, na minha opinião.

Atualmente eu administro minhas finanças pessoais através de planilhas e das faturas de cartões de créditos. Meu objetivo é sempre diminuir meus custos, apesar do que a tendência é sempre aumentar.

Danilo Telles: O que você gosta de fazer fora do poker? Quais são seus hobbies?

Rodolfo Lacerda: Eu sou workaholic, então é difícil sobrar tempo fora do trabalho. Dito isso, minhas coisas favoritas de se fazer fora isso é ir ao cinema e jogar dota com amigos.

Danilo Telles: O que você pretende fazer daqui pra frente na sua carreira de jogador de poker? Onde você se vê daqui a 3 anos?

Rodolfo Lacerda: A cada dia que passa eu sou menos jogador e mais empresário, mas acho que nunca vou abandonar completamente o jogo. Pretendo continuar jogando meus jogos de sempre e derrotando-os! Daqui a 3 anos pretendo ter uma rede de empresas de sucesso tanto no poker como fora dele. As sementes já estão plantadas.

Danilo Telles: Como você conheceu o MaisEV? E que parte(s) do MaisEV você mais gosta/freqüenta e porquê?

Rodolfo Lacerda: Fui convidado pelo então fundador Riccio pra participar. Acho que sou um dos primeiros 50 membros. A parte que eu mais freqüento acredito que seja microstakes, pois sinto que lá é aonde posso ser mais útil. Também freqüento muito a seção de rakeback, pois é a área na qual eu trabalho.

Danilo Telles: Essa pergunta foi feita por um usuário do nosso fórum: Como você vê o poker online? Você realmente acha que daqui a alguns anos a maioria dos jogadores vai viver de rakeback porque vai ser ”impossível” lucrar na mesa? Será que temos apenas mais 5 anos no poker online? Ou você acha que já ta ruim e se piorar, vai piorar só um pouco?

Rodolfo Lacerda: Quando comecei a jogar poker online, era incrivelmente fácil ganhar dinheiro. Hoje, quase 4 anos depois, não é tão fácil, mas ainda é muito lucrativo. Um dado curioso é que hoje existem muito mais jogadores do que havia há quatro anos. Com isso podemos concluir que o nível médio dos jogadores aumentou, assim como ficou menor a diferença entre fishes e pros.

Poker ainda vai piorar, pelo simples fato de que ainda é muito lucrativo. Poker vai piorar até o ponto em que um jogador bom vai fazer pouco mais do que um trabalhador mediano dos USA faria, ao passo que um jogador muito bom vai fazer pouco mais do que um trabalhador TOP dos USA faria. Cito o USA como base porque se a remuneração média for menor do que um trabalhador mediano do USA ou EUROPA, o interesse em se tornar regular vai ser bem menor por esses que representam boa parte dos jogadores.

Dito isso, eu acho que o simples fato de estarmos 5 anos antes dos problemas aparecerem, é uma grande vantagem. Dediquem ao máximo para evoluir SEMPRE. Esteja sempre um passo a frente dos novos jogadores, e você terá um excelente lucro.

Eu acho que daqui a 10 anos, poker vai ser como qualquer outro curso, como advocacia: você pode se tornar um advogado de porta de presídio ou pode ser sócio do maior escritório do Brasil, a ferramenta básica pros dois é o diploma. No poker é a mesma coisa, sendo sua ferramenta básica o seu cérebro. O problema é que tem muita gente acostumada a fazer dinheiro sem usá-lo. Esses irão fracassar com o tempo.

Danilo Telles: Mande uma mensagem aos usuários do MaisEV.

Rodolfo Lacerda: Aproveitem a oportunidade de poderem discutir mãos com algumas das melhores mentes do poker brasileiro, além do retorno financeiro, você ainda terá feito grandes amizades no final do processo.

Historiador por formação, conheceu o MaisEV em sua primeira semana de vida, ainda em 2007. Em pouco tempo, tornou-se editor-chefe do site para fazer o que faz de melhor: escrever.

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