Entrevista – Joe Cada e Victor Ramdin

Por: 07/09/2010

Confira abaixo a entrevista na íntegra:

DANILO TELLES: Algumas pessoas dizem que o Texas Hold’em está morto, já que há muitos jogadores regulares e o número de fishes está diminuindo bastante. O que vocês pensam disso? Acham que Omaha será o jogo do futuro?

JOE CADA: Todos os jogos, até nos esportes, se tornam mais difíceis conforme os jogadores vão aprendendo, podemos ver isso no main event que a cada ano atrai mais jogadores. Acho que da mesma forma que o jogo evolui e se torna mais difícil, você tem que melhorar como jogador, porque você quer ser um dos jogadores que está nos níveis mais altos, gerando lucro não importa quão difícil esteja o jogo.

Para isso você tem que ter uma boa seleção de jogo e a mentalidade correta.

VICTOR RAMDIN: Para aqueles que dizem que PLO é o jogo do futuro, eu digo que isso é absurdo. Quero dizer, o jogo que estará em alta nos próximos anos, acredito que durante este século será o NLH. Por exemplo, as pessoas gostam muito mais de assistir torneios de NLH do que de PLO na televisão, pois há uma grande diferença.

Agora, sobre os jogos estarem mais difíceis, acho que os melhores jogadores serão aqueles que jogam tanto live quanto online.  Acho que a pessoa que só joga live a vida inteira terá problemas no futuro, porque eu vejo 3-bets e 4-bets destes jogadores de 20 e poucos anos, e isso me deixa louco. E se eu não entender como jogar isso online, não creio que serei capaz de jogar este tipo de jogo.

Eu penso no seguinte. Eu venho jogando live por toda a minha vida, e de repente sou jogado numa jaula com estes leões, que dão muitas 3-bets e 4-bets, e eu não sei onde estou, entende?

Por isso que digo, no futuro estes garotos dominarão este jogo, a média de idade será de 20 a 25 anos.  É claro que há os grandes jogadores de poker que adquiriram grande experiências durante todos os anos que passaram, mas no futuro os garotos de 20-25 anos dominarão, porque eles jogam tanto live quanto  online.

Se eu não estivesse no PokerStars, jogando todos estes torneios, não teria chances de competir porque em todas as mesas que você joga nestes torneios de poker, haverá três ou quatro destes garotos, e se você não souber como eles jogam, você terá um problema.

DANILO TELLES: Então o problema não é o jogo em si, mas sim os jogadores que não conseguem se ajustar.

VICTOR RAMDIN: Sim, exatamente.

Joe Cada e Victor Ramdin

DANILO TELLES: E o que vocês fazem para estudar, e manter seu jogo atualizado?

VICTOR RAMDIN: No meu jogo live, eu não sei o que o Joe faz, mas às vezes minha esposa e meus filhos pensam que estou maluco, porque eu faço muitas gravações em vídeo. As pessoas não acreditam quando digo que gravo todos os jogos e programas de poker da televisão. Quero dizer, não há nenhum programa que eu não tenha visto. Eu gosto de assistir poker.

Acredite ou não, há tanta informação que eu adquiri em todos estes anos destes programas, que melhoram meu jogo live. Porque meu jogo live – Joe pode discordar, ele pode dizer diferente – mas o meu jogo live não é baseado em números. Todos nós sabemos que há 52 cartas no baralho, e quantos outs nós temos quando há um flush draw. Mas no fim do dia, aquele jogador está blefando ou não? Ele tem algo ou não tem nada? Então todo o meu jogo live é baseado em leitura, porque se ele não tem nada eu vou dar reraise nele até o fim.

A maioria destes garotos da internet se prendem aos números. Não estou dizendo que é errado jogar baseando-se nos números, mas sim que quando se trata de poker live, sua habilidade de leitura é o mais importante.

Quanto a melhorar o jogo online, eu jogo várias mesas, às vezes eu jogo seis torneios ao mesmo tempo, e tenho sido mais consistente, porque a prática leva a perfeição. Jogue muito poker online e você vencerá.

JOE CADA: Eu concordo com  o Victor que jogar muitas horas, muitas mãos, é importante. Nos últimos quatro anos eu joguei mais de 1.8 milhões de mãos online. A maior maneira com que aprendi foi revendo sessões em que ganhei e que perdi, procurando situações em que poderia ter jogado diferente, observando tamanho de stacks, posição, esses conceitos fundamentais.

Eu jogo muito heads-up e isso é uma grande maneira de aprender, porque você enfrenta várias situações diferentes, aprende a se adaptar e joga toneladas mãos e flops a mais, e quando você tem esse tipo de experiência em jogo pós-flop e você enfrenta jogadores de torneios que não vêem muitos flops e não estão acostumados a determinadas situações diferentes, isso ajuda muito.

Já para torneios ao vivo, que eu tenho jogado bastante ultimamente, eu penso nas mãos em que mais perdi, como esse torneio de hoje em que meu maior erro, que eu nem notei na hora, foi quando eu tinha 25 bb e abri de MP, um cara depois de mim deu 3-bet, eu fui all-in com QQ e ele pagou com KK. Às vezes é correto fazer isso com esta mão, às vezes não é, então eu analiso para saber se foi um erro ou não. Nesse caso foi um erro porque o range dele para dar um reraise era muito pequeno, como AK, AA, KK, talvez JJ.

Às vezes eu penso nestas mãos e descubro que fiz a jogada correta e que não faria nada pra mudar, outras vezes eu aprendo bastante analisando as mãos. Contanto que você esteja aprendendo como jogador e melhorando seu jogo, continue. Esta é a maneira que usei para melhorar meu jogo ultimamente.

VICTOR RAMDIN: Há outra maneira de resolver seus problemas quando você joga mal. É só bater com sua cabeça na parede. (risos de todos na mesa)

DANILO TELLES: Você tem trabalhado com a Poker Players Alliance pelos direitos dos jogadores estadunidenses de jogar poker online. Agora que o projeto de lei para a regulamentação passou pela primeira votação, você acredita que a regulamentação se tornará uma realidade?

JOE CADA: Acho que o poker eventualmente será legalizado. É um processo grande agora e há muitos nomes importantes e jogadores se esforçando para que isso aconteça, e estamos fazendo progresso. Mas é complicado porque também há muitas pessoas que não conhecem poker, e quando elas ouvem falar elas simplesmente assumem que é um jogo de azar. A coisa mais importante agora é informar estas pessoas sobre o que é o poker e esperar que, nos próximos anos, espero até mesmo que em 2011, o poker seja legalizado.

VICTOR RAMDIN: Eu também tenho trabalhado muito para isso, e muitas pessoas não parecem saber o que é o poker. Nós precisamos mudar a imagem da palavra “poker” porque muitas pessoas apenas pensam “jogo de azar.” Ainda acho que faltam alguns anos para a legalização, mas continuaremos a trabalhar.

DANILO TELLES: Nós temos uma comunidade de milhares de leitores, e a muitos são jogadores em início de carreira. Vocês tem alguma sugestão ou dica para estes iniciantes?

VICTOR RAMDIN: Para os iniciantes, eu recomendo jogar muitos satélites, porque é isso que eu fiz durante todo o meu aprendizado. Eu não podia pagar um buy-in de $10,000 ou $5,000, então o que eu fazia? Eu passava muito tempo jogando satélites, para cada grande evento, eu jogava no mínimo três satélites. Se eu não conseguia a vaga no terceiro satélite, tinha que pensar em outra maneira, ou não jogava o evento.

A segunda coisa mais importante é gerenciamento de bankroll. Jogue dentro do seu limite. Se você quer subir, assuma o risco de no máximo 15% do seu bankroll, ou 20% se quiser levar ao máximo.  Mas não arrisque 30% do seu bankroll tentando subir limites. É ok subir, se arriscar, mas gerenciar seu dinheiro é a chave. Mantenha-se dentro do seu limite, e jogue muitos satélites.

Pense num cara que vive em Alabama e nunca saiu de lá. Agora ele pode ir online e jogar satélites de $11 para se qualificar para um evento no Brasil. Isso é algo excelente.

JOE CADA: Eu acho que meu melhor conselho, que sempre repito para meus amigos, é gerenciamento de bankroll. A melhor maneira de aprender é jogar muitas mãos, e eu lembro que quando comecei, parecia que todo mundo fazia muito dinheiro rapidamente, e isso pode ser perigoso, quando você tenta fazer muito dinheiro quando não há necessidade.

Eu comecei jogando NL $0.10/$0.25, e em um ano eu estava jogando $2/4 e $3/$6, mas com um gerenciamento de bankroll adequado. Todos sentem uma necessidade de ganhar dinheiro muito rápido, e repetidas vezes eu vejo meus amigos olhando para mim e tentando fazer o mesmo, tentam ganhar dinheiro e vão jogar $2/$4, $3/$6 mas eles não jogam bastante, e quanto mais você aprender jogando nos limites menores, ao invés de jogar um dia e quebrar, ou jogar cinco semanas e quebrar será melhor.

Além disso, você tem que ter a mente aberta e perceber onde está errando. Eu sei que quando comecei, eu perdia e ganhava, perdia e ganhava, e comecei a prestar atenção em onde estava errando. Quando comecei a corrigir estes erros, estava pronto para jogar em limites maiores. Afinal, é o mesmo jogo, só que com buy-ins diferentes.  Então eu sempre joguei onde tinha 20 buy-ins, e subi de limites jogando de acordo com esta regra, e com isso nunca quebrei.

Eu acho também que é importante não estar sempre fazendo suposições.Quando você faz isso, está dependendo da sorte. Tipo supor que sua carta virá, ou supor que aquele oponente é um regular porque você o viu fazendo algumas coisas.

Equipe MaisEV com Joe Cada e Victor Ramdin

DANILO TELLES: Além de gerenciamento de bankroll, o que vocês diriam que é o melhor amigo e o pior inimigo de um jogador?

VICTOR RAMDIN: Muito fácil. As mesas de craps (dados)  e de blackjack. NÃO VÃO LÁ!

JOE CADA: Com certeza eu concordo, mas eu adoro blackjack (risos). Eu acho que é importante saber a hora de jogar e de parar. Se você estiver perdendo e perceber que não está jogando bem, é hora de parar. Vá relaxar, fazer outra coisa. Eu acho que a melhor hora de jogar é quando você está ganhando, porque você está com a mentalidade correta, tomando as decisões corretas. Mas se você está com pressa, tem que sair em 30 minutos, não vá jogar online, tentar jogar por 20 minutos para gerar algum lucro. Deixe para jogar quando tiver algumas horas disponíveis. Você não quer ser o cara que perde dinheiro, fica nervoso e sobe de limites para tentar recuperar. Você quer ser aquele que ganha o dinheiro do desse tipo de cara.

VICTOR RAMDIN: Voltando a falar de gerenciamento de bankroll, eu recentemente comecei a jogar cash games, finalmente. Eu não jogo com Joe porque ele é um profissional experiente e vai me destruir, mas eu estou aprendendo e espero que chegue lá. Tem algo que tem funcionado para mim durante todos estes anos, uma das chaves para o meu sucesso. Se eu estou vencendo, eu nunca paro. Regra número um, eu nunca paro quando estou vencendo. Mas na hora que eu perder 25% a 30% do que eu ganhei, eu paro. E isso tem funcionado em cash games. Esse é meu stop loss (controle de perdas). Utilize um stop loss, porque às vezes não importa o que quer que você faça, quando você está num dia ruim, está num dia ruim.

DANILO TELLES: Então o segredo é bankroll e martingale, (risos). O que vocês acharam do LAPT Brasil, da estrutura, do field, enfim. Qual é a opinião de vocês sobre o evento?

VICTOR RAMDIN: Eu vou te dizer o quanto gostei do field. Eu vou jogar este torneio pelos próximos 10 anos, este é o tanto que eu gostei do field.

E o principal, estas pessoas aqui são tão gentis, sempre com um sorriso no rosto. É claro que você sempre terá 10 sorrisos e um “não-sorriso” mas em geral a atenção que recebemos das pessoas quando vamos aos eventos do LAPT são fenomenais. As pessoas são muito acolhedoras e isso é a coisa mais importante que você pode ter.

Quando vou em alguns torneios, que não vou dizer onde são, parece que estou na jaula de um leão. E aqui eu não me sinto assim, eu sinto que estou em um lugar maravilhoso. E o que posso dizer do staff do LAPT, é inacreditável. Estes caras sabem o que estão fazendo. Eles tem um excelente humor e sabem muito bem como fazer seu trabalho.

JOE CADA: Eu gostaria de ter respondido essa primeiro, porque eu diria exatamente a mesma coisa. Eu e Victor estávamos conversando sobre isso antes, as pessoas são muito legais aqui, sempre com um sorriso no rosto. Infelizmente há a barreira da comunicação, mas eu sempre as vejo rindo e se divertindo e eu me divirto com isso. É um paraíso aqui, eu estou de frente para o oceano, e não tenho isso da minha casa, o que vejo são só ruas e prédios. É ótimo estar aqui, as pessoas são acolhedoras, estou num paraíso e ainda posso jogar poker. A estrutura do evento é excelente, então acho que o PokerStars fez um trabalho excelente, com a imprensa, o staff do torneio, enfim. Não consigo pensar em nada negativo e concordo com o Victor de que continuarei jogando este evento nos próximos anos.

Historiador por formação, conheceu o MaisEV em sua primeira semana de vida, ainda em 2007. Em pouco tempo, tornou-se editor-chefe do site para fazer o que faz de melhor: escrever.

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