Entrevista – Eduardo Marra

Por: 13/10/2010

Eduardo Marra: Me chamo Eduardo Marra, mais conhecido como MARRA pelos jogadores no meio. Tenho 26 anos, nasci e moro em SP. Sou profissional de poker e xadrez e ainda corro o circuito pelo Brasil, porém com muito menos freqüência, desde que iniciei no poker.

Danilo Telles: Há quanto tempo você joga poker? Seu início foi difícil? Como você construiu o seu bankroll?

Eduardo Marra: Comecei no poker no final de 2005 por influencia de dois amigos (Vina e Vitão) que eram já velhos conhecidos do mundo do xadrez e desde então participando dos antigos torneios numa casa no Morumbi e no saudoso Paradise, (a famosa casa de jogos conhecida em SP). Desde então comecei a me interessar pelo jogo, vendo também que era um meio interessante de conseguir um dinheiro, maior do que eu tinha jogando xadrez. Na época eu morava com um amigo uruguaio, Martin, e começamos a grindar insanamente nas “shastas” (no Everest), época que estávamos bem duros de grana. Então revezávamos jogando literalmente 24 horas por dia, e pelo nível ser muito baixo nessa época, conseguimos subir o BR rapidamente passando pelos sit’s de $1, $5, $10, $20, $50. Depois de cerca 5 ou 6 meses, já estávamos jogando os sit’s de $109. Outro fator que foi muito benéfico no meu começo foi a minha formação enxadrística, focar muito na parte do estudo do jogo. Com isso no meu primeiro ano, consumia todas as informações disponíveis em fóruns acreditando na parte racional do jogo e que esse era o caminho. Nos primeiros três meses, também grindávamos os freerolls de outros sites o que acelerou o processo de subida também. Foi uma época muito intensa onde eu respirava poker 24 horas por dia. Paralelamente, jogávamos os torneios live no Paradise, cavalados, o que nos possibilitou a nossa ida para os cash games da casa mais rapidamente. Depois de já estarmos regular nos sit’s de $109, passamos a dar tiros maiores em MTT’s e nos cash’s on line.

Danilo Telles: Você ainda joga xadrez profissionalmente?

Eduardo Marra: Eu jogo tipo 3, 4 campeonatos por ano… os que recebo cachê para isso, que normalmente são os interclubes e o jogos abertos do interior.

Esse ano também joguei o paulista e fui relativamente muito bem, ficando em quarto dos jogadores cadastrados por SP o que me rendeu a classificação para a semifinal do Brasileiro que ainda vai rolar esse ano.

Danilo Telles: Em que momento você decidiu priorizar o poker? Como foi essa transição?

Eduardo Marra: Eu larguei o xadrez por volta de 2006… quando o poker começou a compensar eu ocupar meu tempo exclusivamente dele.

A parte financeira do xadrez é muito fraca , os prêmios são baixíssimos comparados com o poker, o meu sustento vinha de aulas de xadrez também, pois só com torneios complicaria. O que salva muito é o patrocínio anual que você fecha com alguma cidade (para o jogos abertos e jogos regionais) que tem uma importância muito grande para todas as cidades então eles pagam um cachê decente para você disputar apenas 2 torneios no ano. As prefeituras saem contratando e se der sorte de fechar com uma cidade melhor, consegue se virar bem somando todos esses ganhos.

Danilo Telles: E quais habilidades do xadrez você aproveitou no poker?

Eduardo Marra: Muitas horas, paciência, controlar seu ego (não tomar suas decisões, por richa com determinado oponente), saber lidar com a derrota pois a próxima partida ou torneio você deve estar 100% novamente, aprender a jogar no xadrez tanto em posições que você deve se defender, como em posições de ataque (comparo isso , com jogar bem tanto quando chipleader como com shortstack, tem pessoas que não são shorts tão determinados e acabam entregando o torneio mais fácil, assim como você está sendo atacado no xadrez, deve redobrar sua concentração e não apenas dizer ” agora já era , dane-se”.

Outro fator,com certeza é a capacidade de pensamento analítico, pois em ambos a ”árvore” de opções ou as ”LINHAS” no poker são vastas e você deve avaliar cada uma das opções num tempo pequeno para obter o menor numero de erros possíveis.

Pra finalizar citaria a importância do estudo, tanto pré-jogo (pode ser feita no poker por HUD’s e sites que mostram os resultados dos oponentes), como pós-jogo com analise de hand history e ajuda dos programas para tal, no xadrez existem os mesmos tipos de softwares para estudo.

Danilo Telles: Você se considera um jogador tight ou loose? Quão agressivo?

Eduardo Marra: A minha formação é de jogador de sit-go, o que me faz ser um jogador tight-agressive. Porém essa é uma pergunta engraçada porque minha fama em jogos live é de ser um jogador extremamente “lock”. Eu acho que isso se deve ao fato de eu ser muito falante na mesa, acabo usando isso como uma tática para parecer mais loose do que eu sou quando na verdade na maior parte do tempo eu estou jogando de forma segura. Uma qualidade que eu vejo no meu jogo é a adaptação, pois essa minha característica não se dá nas retas finais de torneio, onde realmente eu abuso do fato da maioria dos jogadores estarem jogando de forma conservadora pela proximidade da FT ou da bolha.

Danilo Telles: Quais são as suas maiores qualidades no game?

Eduardo Marra: Creio que são a paciência e o auto-controle, mais uma vez, características herdadas do xadrez. Dificilmente em toda a minha carreira tive grandes tilts ou fases de perda de foco ou desacreditar na ciência do jogo. A aceitação da variância pode ser algo extremamente difícil para alguns, mas é algo que eu acredito lidar bem. Outro fator que eu sempre tento focar é a freqüência do meu jogo: conseguir um misto de jogar extremamente seguro ou abusar da agressividade nas fases onde todos estão de olho no prêmio, e também focar na observação de como está a minha própria imagem na mesa.

Danilo Telles: Qual foi o seu melhor resultado jogando poker?

Eduardo Marra: Em termos de números, com certeza eu citaria o Tower Cruise I onde levei uma quantia extremamente alta pelo 2º lugar (deal na FT) e também o primeiro torneio numa casa de SP que teve uma hora de blind que também me rendeu uma boa quantia. Mas, pelo fator emocional e de minha carreira, citaria o meu primeiro torneio jogado em Vegas: $300 + 20, do Venitian onde peguei um 7º dentro de mais de 700 pessoas. Já no online, eu conto com umas FT’s de torneios regulares de $50 + 5, $100 + 9 e sou positivo, porém não com resultados tão grandes como no live. Fora isso, em 2010 tenho tido ótimos resultados nos side games como PLO e Omaha Hi-Lo com roi% acima dos 60%.

Danilo Telles: Você já teve um mês “down” no poker? Como foi essa experiência?

Eduardo Marra: Sim. Foi no ano passado, numa fase onde estava decidido a grindar apenas cash games. Apesar disso, creio que sai bem, sempre revisando os meus HH’s e percebendo que não tinha mudado meu padrão de jogo e que logo as coisas voltariam ao normal. Um mês como esse eu acho que é o momento que você define que quer mesmo viver disso e é nessa fase onde os jogadores fracos descobrem que não podem fazer isso da vida, pois se não tiver um enorme controle mental você acaba tiltando ou perdendo o foco (a vontade de seguir na guerra).

Danilo Telles: Como é a sua rotina atualmente?

Eduardo Marra: Atualmente estou grindando pelas manhãs e tardes. Normalmente, reservo a manhã para preparar o material que eu aplico os meus coachs e também estudar. Já pela hora do almoço, começo uma preparação para os torneios da noite. Alguns dias jogo sit-go e em outros, cash game de NL de Omaha Hi-Lo o que me garante diminuir a variância para a série de MTT’s da noite. Reservo também os fins de semana para alguns eventos live quando ocorrem aqui no Brasil e eventualmente alguns LAPT’s também ou torneios em Punta Del Este.

Danilo Telles: Qual (is) jogador(es) estrangeiros você admira e por quê? E brasileiros?

Eduardo Marra: No exterior, eu citaria o maior de todos Phill Ivey que domina todas as modalidades. Outro jogador que parece ser um fenômeno é Jason Mercier, pela constância. No online, sou muito fã, de gboro780, The D_RY, jovialgent. No Brasil, sempre fui fã de jogadores que além de jogarem muito, levam a sua carreira de uma forma bem profissional como André Akkari, Cristhian Kruel e Felipe Mojave.

Danilo Telles: Você já leu livros sobre poker? Quais lhe trouxeram mais benefícios?

Eduardo Marra: Eu tenho mais de 30 livros em casa. Acredito que os livros, sobre a teoria do jogo em si, são importantes para a base do estudo, mas você aprende muito na prática, com coach’s ou material/vídeo de estudo mais avançado que a maioria dos livros não alcança. Creio que os mais proveitosos são os que dão dicas ‘‘extras” sobre a parte psicológica (fundamental para o sucesso), de gerenciamento de carreira e vida de um pro. Eu citaria: “Poker Mindset”, “The Psychology of Poker” e “Ace on the River”. Creio que aprofundar o conhecimento somente com coach’s avançados (eu assino um site estrangeiro muito bom!) ou sessões com um coach particular é o caminho para refinar cada detalhe de nosso próprio jogo.

Danilo Telles: Você usa algum software de poker? Se sim, qual?

Eduardo Marra: Eu costumo usar o HUD do sharkscope para MTT e STG. Já fiz testes também com o Table Ninja, mas não segui porque acredito não ser lucrativo jogando mais de 20 mesas. No cash, não uso tanto, pois jogo principalmente a modalidade Omaha Hi-Lo onde ainda os trackers não são tão precisos/úteis.  De qualquer forma, qualquer um que queira levar poker a sério, deve usar essas ferramentas extras, sem dúvida, pois os outros estarão usando e, se não usar, é como ”entrar numa guerra de estilingue, onde todos se protegem com rifles pesados”.

Danilo Telles: Se você tivesse que dar um único conselho para um iniciante, qual seria?

Eduardo Marra: Disciplina, disciplina e disciplina! Mais vale um jogador que faz o feijão com arroz bem feito do que um genial que tem grandes momentos de tilt, falta de respeito ao bankroll ou falhas por colocar o seu ego nas decisões. Eu conheço exemplos de jogadores amigos meus, onde o fim não foi nada bom, mesmo estes tendo um talento enorme para a parte técnica do jogo. Uma base teórica razoável e respeito a estes pontos que citei que, são mais que suficientes para tornar um jogador lucrativo pelo menos nos low stakes.

Danilo Telles: Se você tivesse que começar hoje do zero a sua carreira, com um bankroll de $150 dólares, como o faria? O que jogaria e em o que investiria? E se o bankroll fosse de $1000 dólares?

Eduardo Marra: Com $150, eu voltaria a grindar fortemente os sit and go low stakes. É uma maneira tranquila de se subir, evitando altas variâncias e possível perda de confiança em fases de “down swings”, pois em outras áreas (como cash ou MTT) elas são bem maiores. Já com $1000, creio que poderia começar com meu cash de Omaha Hi-Lo querido e até mesmo já tentar os MTT’s de até $11.

Danilo Telles: Qual é o jeito mais rápido de aprender a jogar poker?

Eduardo Marra: Sem dúvida, com amostragem! Coloque muitas horas de jogo aí!! É impossível seu jogo não evoluir! Até os grandes fish’s do cash game paulistano, a gente percebe que depois de 3, 4 anos apanhando, já não são tão fracos como antes. Se você mesclar muita prática com estudo de suas mãos, análise pós-jogo ou um coach que possa corrigir isso pra você, o caminho do sucesso estará sendo trilhado! Eu tive épocas em 2007 e 2008, em que jogava sessões de 8, 10h de cash live e, com certeza, foi quando mais aprendi sobre essa modalidade de jogo.

Danilo Telles: Você já fez alguma loucura com o dinheiro ganho jogando poker? Faria-a novamente? Como você gasta e administra as suas finanças atualmente?

Eduardo Marra: Com certeza no passado já fiz muita besteira com o dinheiro que ganhei como gastar quantias altíssimas com festas e ”amigos” mas tudo serve de lição, creio eu. Hoje em dia, procuro não misturar os bankroll’s do poker para as despesas usuais, ou seja, para viver (rs)! Uma boa forma de organizar isso é se dando um salário e proibir a movimentação do seu bankroll para outras coisas extra-jogo. Fora isso, tem um assunto interessante que abordei recentemente com meu grande amigo Victor Marques: por volta de 2007/2008, a cabeça dos ”prós” estava desvirtuada (eu mesmo me incluo nesse grupo), pois ganhar no poker era absurdamente fácil, então nós acabávamos cometendo erros como jogar torneios semanais em SP, muito fora do BR de qualquer um (um torneio de 1000 com rebuy e add-on era rotineiro!). Fazíamos isso por confiar em nosso edge sobre o field, mas nada justifica algo tão fora do razoável para o gerenciamento de banca. Creio que logo após essa fase a ficha caiu e grande parte do pessoal das antigas joga até em limites de buy-in mais baixos do que na época.

Danilo Telles: O que você gosta de fazer fora do poker? Quais são seus hobbies?

Eduardo Marra: Uma grande paixão, sem dúvida é o xadrez que, além de hobby, já foi meu meio de vida até 2006 também. É um jogo, que vai mais para o lado da ARTE, tamanha sua complexidade num nível competitivo de ”elite”. Hoje em dia jogo partidas rápidas na internet só para relaxar! Fora isso, sou um cinéfilo! Tenho uma coleção grande de DVD’s e procuro me informar e assistir tudo dos meus diretores e atores preferidos. Séries também são uma compulsão! Aliás, os jogadores de poker que ainda não assistiram ”Lie to Me”, procurem! É muito interessante e, vale a pena! Até meus 15 anos, eu jogava futebol semanalmente em times federados e tudo mais, mas a rotina de SP me afastou desse esporte (e talvez a falta de talento apurado também, hehehe). A minha meta atual é voltar para a academia. Todos os meus amigos jogadores não cansam de citar os inúmeros benefícios disso, inclusive no reflexo dos resultados no game.

Danilo Telles: O que você pretende fazer daqui pra frente na sua carreira de jogador de poker? Onde você se vê daqui a 3 anos?

Eduardo Marra: Bom, o que posso dizer é que estou dentro de um projeto que está para começar que o André Akkari vai lançar. Vou entrar de cabeça nele e sabe-se lá onde pode dar, né ?!  Minha meta é voltar um dia ao main event do WSOP, (sonho que foi realizado em 2007) mas, só espero não cair no dia 3 de novo próximo a bolha, né?! Correr o circuito de torneios mundial, sem duvida, é a meta. Na minha primeira ida ao exterior, cheguei à mesa final no Venetian de um field grande que me fez perceber o quanto é recompensador todo o esforço/barreiras para chegar num momento como aquele: uma mesa final em Vegas!!

Danilo Telles: Como você conheceu o MaisEV? E que parte(s) do MaisEV você mais gosta/freqüenta e porquê?

Eduardo Marra: Eu conheci o MaisEV desde sua inauguração. O crescimento aqui é impressionante! O nível das discussões é elevadíssimo e, mesmo sem postar muito (talvez por não conhecer o pessoal mais freqüente daqui), leio todos os dias os fóruns e faço minhas próprias reflexões! Quem sabe agora seja até um incentivo para eu começar a ser mais ativo nas postagens também.

Danilo Telles: Mande uma mensagem aos usuários do MaisEV.

Eduardo Marra: Gostaria de agradecer primeiramente ao Danilo pela oportunidade e dizer a todos os usuários do MaisEV, que estamos vivendo a história literalmente. O poker ainda está engatinhando no Brasil e o crescimento será gigantesco nos próximos anos; a quantidade de novos projetos, empresas entrando no mercado é enorme. Aproveitem, pois estamos na frente de milhões de novos jogadores que estão por chegar nessa ”corrida”! Treine, estude, revise, discuta!! A hora é agora!! Para quem quiser saber os meus projetos, me contatar para possíveis coach’s, torneios etc, pode me achar pelo twitter: @eduardo_marra ou pelo email ecmarra93@hotmail.com. Obrigado, vejo vocês nas mesas!

Historiador por formação, conheceu o MaisEV em sua primeira semana de vida, ainda em 2007. Em pouco tempo, tornou-se editor-chefe do site para fazer o que faz de melhor: escrever.

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