Entrevista: Devanir “DC” Campos

Por: 24/06/2009

DC: Meu nome é Devanir Campos (daí o DC). Moro em Campinas, SP, tenho 26 anos, atualmente estudando no 3º ano de engenharia de produção (mas já fiz um pedaço do curso de física na Unicamp). Hoje tenho mais atividades ligadas ao poker do que o jogo em si, sendo a mais evidente delas como diretor de torneios nos eventos da Nutzz, especialmente o BSOP e o Circuito Paulista.

Danilo Telles: Há quanto tempo você joga poker? Seu início foi difícil? Como você construiu o seu bankroll?

DC: Comecei no final de 2004 para 2005 quando vi uma etapa do WPT na televisão e fiquei instantaneamente hooked. Saí atrás de informação e através do Orkut, conheci o Leandro Brasa e fui convidado a participar do cashgame semanal que ele fazia com amigos em casa. Era uma maravilha… PL holdem ou Omaha (dealer’s choice) com blinds de R$0.1/0.2 e cacife de R$20. O poker na verdade era mesmo uma desculpa para tomar cerveja e encontrar os amigos e dar muita risada. Foi lá que eu conheci o Brasa, o Leobello e o Igor Federal… Aliás, o Federal virou “Federal” (ganhou o apelido) lá nos nossos games.

Eu nunca resolvi que ia grindar pesado ou que ia fazer do poker meu ganha pão, então nunca fui disciplinado em estudar e praticar. Teve uma época em 2005 pra 2006 que eu me dediquei mais, pois estava com mais tempo e os resultados vieram. Cheguei a fazer mais de 2K/semana em alguns meses em MTTs. Achei que era uma mistura de Phil Ivey e Daniel Negreanu. Parei de estudar, tive outras atividades que tomaram o tempo do poker e… pimba… lá se vai bankroll e resultados =)

Danilo Telles: Você se considera um jogador tight ou loose? Quão agressivo?

DC: Acho que sou muito tight online mas mais agressivo no live… isso porque eu consegui desenvolver muito mais a leitura no live e isso me propiciou deixar o jogo mais solto. Online eu sou um ultra-fish-donkey-mega-master-plus-loser-docacete ehehehhehehe.

Danilo Telles: Quais são as suas maiores qualidades no game?

DC: Se eu tiver alguma é a leitura no jogo live. Consegui alguns bons resultados aprendendo a prestar atenção nas pessoas. O Leobello foi um dos caras que mais me ensinou a reconhecer padrões e a pensar em como jogar contra eles. Claro que as leituras são beeeeem subjetivas, mas que ajudam um bocado, ajudam.

Danilo Telles: Qual foi o seu melhor resultado jogando poker?

DC: Meus melhores resultados vieram de MTTs. Teve uma semana em 2006 pra 2007 que num espaço de 7 dias eu puxei quase 5K. Foi demais… saí e torrei uma nota na balada pra comemorar!!! Ainda bem que existia Neteller ahahahhhaahh Mas torneios que marcaram mesmo foram mesas finais live como a do Brasil poker fest em Campos do Jordão. Acho que joguei o meu melhor torneio lá. Fiquei CL no 1º terço do dia 1 e segurei até a reta final. Daí os blinds viraram loteria e não tive estrela pra puxar, caindo em 9º.

Um outro resultado legal foi um torneio que ganhei no Conrad, em Punta Del Este… tirei o Leobello do jogo com AA x KK no segundo level e fui líder até estarmos em 3 jogadores. Recuperei e shipei!

Teve alguns que foram memoráveis pela parceirada e pela farra como um 2º lugar no circuito ABC e um 1º no circuito São-Joanense… aliás, neste último, fiquei merecidamente com o primeirão e deixei o RoyalSalute em 2º… xupa Ivan!!!! Ahahahhahahaha detalhe, ganhei o addon do próprio Ivan na sinuca na hora do break… (xupa Ivan)²!!

Danilo Telles: Você já teve um mês “down” no poker? Como foi essa experiência?

DC: Mês down? Que tal ano down? Estou no terceiro ano down… seguido. Hehehehehehehhe Brincadeira… Na verdade eu nem tenho jogado com seriedade.

No final do ano passado eu tentei começar um programa de treinamento em cash. Até ia fazer coachs com o Billy, RoyalSalute e tal, mas as minhas outras atividades não me deixam tempo para parar com a cabeça no lugar e me dedicar a fazer notes, revisar mãos no HM, ler artigos e tudo mais que um treinamento em cash NLH 6-max necessita.

Se tem uma coisa da qual eu não tenho dúvidas é que dedicação é tudo no poker. Quando eu tenho jogado é uma coisa mais de descontração, pra aliviar a tensão… aí jogo stakes baixos e… se bater, bateu =)

Danilo Telles: Como é a sua rotina atualmente?

DC: Minha rotina é completamente diferente da malandragem do poker ehehehhe tirando talvez a do Juliano Maesano =) O dia começa às 6:30 e das 8 às 17h estou na faculdade.

Depois é tempo dedicado a trabalho… isso até umas 22:30 que é quando eu procuro desligar o dia e dar uma relaxada, assistir um filme ou ler um livro. Isso quando não tem jogo do HEXA CAMPEÃO BRASILEIRO, TRICAMPEÃO MUNDIAL, TRICAMPEÃO DA LIBERTADORES São Paulo Futebol Clube, que daí tenho que ir pro bar assistir (sofrer, ultimamente – morte ao Muricy!!!) com os amigos!

Também isso tudo quando não rola uma balada ou festa boa… outro vício meu.

Danilo Telles: Qual(is) jogador(es) estrangeiros você admira e por quê? E brasileiros?

DC: Acho o Phil Helmuth um exemplo de autocontrole e educação… NOT! LOL… zoeira… eu acho o Negreanu um jogador muito foda… O Dario Minieri também é muito louco… dá tontura ver o cara jogar… pqp! Lá em Copenhagen eu acompanhei umas duas órbitas da mesa dele… 18 mãos… o cara deu raise ou reraise PF em 12 delas… muito insano!

Dos brasileiros eu realmente acho que o Caio Pimenta é um fenômeno sem precedentes… o cara extrai valor de cada parada inacreditável… Ele tem um raciocínio que está a anos-luz da média dos jogadores e um bom tanto à frente dos top players… Os resultados só comprovam isso.

Sou fã do game do Felipe Mojave também… desde sempre fiquei impressionado com o raciocínio do cara. Manda muito!

Tem muita gente boa no país, mas também acho que tem muita propaganda enganosa.

Danilo Telles: Você já leu livros sobre poker? Quais lhe trouxeram mais benefícios?

DC: Li poucos. Li os 3 Harrington, Theory of Poker, e mais uns 3 ou 4 livros que não me lembro agora…

Os que mais me trouxeram benefícios foram os Harrigton on Holdem. Li em 2006 e, naquela época, eram estratégia de vanguarda… forrei um pouco. O Theory of poker é muito bom para aprender os alicerces do jogo…

Mas sinceramente, hoje acho que o livro é um complemento… a informação de verdade está na internet… no maisEV, no 2+2, no PocketFives…

Danilo Telles: Você usa algum software de poker? Se sim, qual?

DC: Usei o Holdem Manager enquanto estava começando a grindar em cashgames… hoje tenho jogado tão pouco que nem vale a pena ficar me preocupando em manter o db atualizado… meu sample de mãos é ridículo, hehehe.

Danilo Telles: Se você tivesse que dar um único conselho para um iniciante, qual seria?

DC: Três conselhos: estude, estude e estude… ah! E quando forrar um torneio bom, não torre na primeira balada ahhehehehehehe. Educação financeira é uma lição que 0,0000000000000001% dos jogadores conhecem… infelizmente a maioria só vai aprender isso quando precisar pegar $$ emprestado com o amigo.

Danilo Telles: Se você tivesse que começar hoje do zero a sua carreira, com um bankroll de $150 dólares, como o faria? O que jogaria e em o que investiria? E se o bankroll fosse de $1000 dólares?

Com $150 eu abro o BestCasino, injeto $50 no preto e cerco o 21 bem cercadinho….
ahahahahahhahaa brincadeira.

Acho que se fossse pra me dedicar hoje ao poker, começaria com $50 em um coach de PLO e iniciando com $100 nos stakes mais baixos de PLO 6max.

Com $1000 não seria diferente… acho que o coach com um professor bom e recomendado é um caminho de ouro para ‘plugar’ os leaks. Sabe aquela máxima de quem tá de fora enxerga melhor o problema? É muito verdade.

Acho que PLO é o jogo do futuro e o que será mais lucrativo nos próximos anos. NLHE está saturando e jájá os winrates serão tão módicos que só vai valer a pena jogar se for por stack em mega-limits quando um raro fish pintar na mesa.

Danilo Telles: Qual é o jeito mais rápido de aprender a jogar poker?

DC: Praticar muito, ler muito, praticar muito, assistir muito, praticar muito! Ler artigos e fóruns, jogar e aplicar os conceitos e técnicas que os vencedores ensinam e observar o que está acontecendo à sua volta (na mesa e fora dela), isto é, assistir vídeos, ver os bons jogadores em ação e trocar informações com outros jogadores.

Danilo Telles: Você já fez alguma loucura com o dinheiro ganho jogando poker? Faria-a novamente? Como você gasta e administra as suas finanças atualmente?

DC: Nunca fiz nada de muito louco… não tilto e saio atolando o BR em flips ou gasto tudo que ganhei numa tacada só… mas não economizo se o assunto é balada. Se eu ganhei algum e saio pra comemorar, é pra comemorar de verdade. Bom, fica nas entrelinhas ehehheheheh.

Aprendi uma filosofia sensacional criada e disseminada pela dupla C.K. e Raul: a teoria do “finge que…”. Digamos que você jogou um torneio e forrou 2K. “Finge que” a forra foi ‘só’ de 1750 e vai pra balada com os 250 =) Imagine o tamanho da parcela do ‘finge que’ se a forra for de… sei lá… $200K hehehe.

Minhas finanças hoje são muito mais bem administradas do que nos anos anteriores. Meus excessos e falta de experiência me renderam belos pontos com o cartão de crédito… hoje eu me eduquei e daqui pra frente é estruturar e investir.

Danilo Telles: O que você gosta de fazer fora do poker? Quais são seus hobbies?

DC: Definitivamente quando não estou trabalhando ou estudando estou à procura de uma balada das boas… Sabe como é, tentando aproveitar as quatro melhores coisas da vida: comer e viajar, hehehe.

Danilo Telles: O que você pretende fazer daqui pra frente na sua carreira de jogador de poker? Onde você se vê daqui a 3 anos?

DC: Como jogador?? Sinceramente não me vejo me dedicando a isso. Mas em três anos acho que termos um mercado ainda forte no Brasil com mais apoio da mídia e de grandes empresas.

Danilo Telles: Como você conheceu o MaisEV? E que parte(s) do MaisEV você mais gosta/freqüenta e porquê?

DC: Comecei a freqüentar o maisEV de tanto que o Ivan (RoyalSalute) me encheu o saco dizendo que era bacana e tal (isso no final de 2008, eu acho)… Já tinha lido alguns tópicos antes mas esporadicamente. Tinha até uma má impressão do fórum.

À primeira vista me parecia uma reunião de gente pedante e grosseira com os novatos… depois que passei a participar mais ativamente vi que estava bem enganado. O MaisEV é na minha opinião o ÚNICO lugar para se discutir poker com seriedade em português.

Do pessoal que está lá tem moleque mimado com huge-mega-ultra-deep-BR que não sabe dar uma opinião em público sem soar como um completo trouxa, mas também tem, na GRANDE MAIORIA, um time da mais alta categoria dos caras que realmente sabem fazer dinheiro com o poker. Não só sabem fazer dinheiro, mas são inteligentes, educados e ajudam pra cacete quem está começando.

Um grande mérito do MaisEV está na transferência de conhecimento que se tem quando um cara vai lá e destrincha o pensamento sobre uma jogada. Isso não tem preço… quantos livros ia ter que ler pra acessar a quantidade de situações que são expostas nos fóruns todos os dias?

A parte que mais gosto é a de poker live (por razões óbvias) e de poker em geral. Por não estar jogando com freqüência, gosto de ajudar a galera na parte das regras e procedimentos.

Aliás, quero aproveitar o espaço para deixar uma pequena crítica pra quem nunca saiu de trás da tela do PC e comenta sobre o poker live: galera é preciso conhecer um poooouco mais sobre os fatos antes de sair emitindo opiniões. Tem gente que lê uma coisa, não conhece como funciona esta coisa aqui ou em lugar algum do mundo e tasca um belo reply “isso é um absurdo!”. Tá na hora do pessoal começar a escrever com um dedinho a mais de responsabilidade.
Tá dado o recado =)

Danilo Telles: Qual é sua opinião sobre o poker nacional?

DC: Como eu disse, o poker no Brasil ainda nem começou. O mercado ainda tem muito o que crescer e oportunidades muito boas ainda devem surgir. É uma atividade que gira tanto dinheiro por fora das mesas no mundo todo com patrocínios, publicidade, merchandising, entre outras atividades, que é impossível (ou pelo menos altamente improvável) que os empresários brasileiros não abram os olhos para isso.

O poker ainda não começou porque ainda não está na mídia. O dia que um torneio cair na TV aberta, no jornal, nas revistas, com seriedade e dando jus ao lado esportivo, aí sim teremos o nosso boom.

Danilo Telles: Como se tornou diretor de torneios?

DC: Cara, foi uma coisa meio acidental. Eu comecei a jogar o Circuito Paulista por conhecer o Brasa e o Leo dos homegames. Nas etapas iniciais era tudo muito caseiro… tinha um que ajudava com as fichas, tinha outro que dava uma força com baralho, mais outro que dava uma força no churrasco… Comecei a ajudar na organização em todas as etapas e aí jogava com um desconto.

A coisa foi crescendo e eu passei por uma época mais apertado de grana e acabei fazendo um bico de final de semana para ganhar uns trocados trabalhando mesmo na organização. Chegou um momento que o Circuito tinha crescido de tal forma que precisávamos mesmo da figura de um diretor para botar ordem na casa.Eu resolvi aceitar o desafio. Estudei as regras de torneios e… cá estou. Fui o primeiro diretor de torneios a realmente ter uma posição definida como tal no Brasil.

Danilo Telles: Acredita ser possível a legalização do poker aqui no Brasil?

DC: Não muito… Mas é inevitável que vamos chegar num momento em que vai rolar uma batalha legal para saber se focinho de porco é tomada ou não.

Na minha opinião o que teremos é que os torneios de poker passarão a ser enxergados como uma competição esportiva na qual a habilidade prevalece e tudo mais… mas eu ACHO que os cashgames ainda não terão o mesmo tratamento… tem muito jurista que consegue achar argumento para defender o torneio, mas realmente é difícil contra-argumentar em favor do cashgame enquanto a legislação brasileira sobre “jogos de azar” está tão mal escrita.

Outra opção é que tudo siga como está agora… A Suécia tem uma situação legal muito parecida com a do Brasil no tocante ao poker… por lá, até pouquíssimo tempo atrás, não havia sequer uma decisão judicial favorável ao poker e, portanto, ele não tinha sido declarado exatamente legal, mas era aceito. Hoje já existe jurisprudência favorável sobre poker, tratando-o como jogo de habilidade em vários países.

Danilo Telles: Qual sua opinião sobre os clubes de poker no Brasil? E os profissionais que trabalham nesses clubes?

DC: Acho que os clubes no Brasil ainda pecam em muito pela mentalidade dos seus gestores. A maioria não tem no comando empresários e, portanto, não são geridos como empresas e aí quebram. Seus funcionários são em geral mau treinados: é dealer que não sabe embaralhar, não sabem como mexer com as fichas, não há padrões nem procedimentos de segurança… a preocupação parece sempre ser no exagero, no luxo, em ter ‘trocentas’ refeições gratuitas, chefs nas cozinhas, telas de LCD pra todos os lados… enquanto em funcionalidade, há uma grande deficiência.

Danilo Telles: Quais as maiores dificuldades que esses clubes enfrentam hoje?

DC: Sem sombra de dúvidas o crédito exagerado. Os donos de clubes acabam dando linhas de crédito gigantescas para qualquer um que conheça um outro cliente, tem uma corrente de prata no pescoço, relógio bonito e carro importado… aí tomam ferro quando o Zé Bonitinho susta o cheque. Clube atrás de clube já fechou no Brasil pelo resultado da equação:

crédito+exagero-preparo-administração = quebra!

Danilo Telles: Quem você considera o melhor jogador do Brasil?

DC: Poxa, tem vários nomes que eu acho fodas! Em cash eu acho que o Ivan “RoyalSalute” é um gigante!!!

Em MTT não tem pra ninguém esse ano, é Caio Pimenta e Mojave =)

Danilo Telles: Mande uma mensagem aos usuários do MaisEV.

DC: Quero dizer que desde que comecei a escrever por lá fui muito bem recebido e to achando a experiência muito boa. Espero continuar ajudando quem tem dúvidas de regras, pois muita gente me ajudou quando eu precisei de dicas no meu joguinho 6-max horroroso ehehehhehe.

E para quem gosta de torneios, não deixem de acompanhar esta temporada do CPH e do BSOP… com uma média de 230 players/etapa e uma premiação gorda, além de valer a pena financeiramente, com certeza o título deste ano vai render patrocínio pra algum malandro… é ficar de olho! O poker no
Brasil está só começando!

Um abraço pra todos e obrigado pela oportunidade!

Historiador por formação, conheceu o MaisEV em sua primeira semana de vida, ainda em 2007. Em pouco tempo, tornou-se editor-chefe do site para fazer o que faz de melhor: escrever.

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