Entrevista – Carlos “Presidente” Duplar

Por: 08/04/2009

Presidente: Sou Carlos Duplar, tenho 32 anos, moro no Rio de Janeiro. Sou formado em Tecnologia de Processamento de Dados pela PUC-RJ e trabalho na área desde 1996. Atualmente estou na Infoglobo, empresa que edita os jornais O Globo, Extra, Diário de São Paulo e Expresso; trabalhei por muito tempo exclusivamente com internet, e há alguns meses integro a equipe de Arquitetura de Sistemas da empresa. Jogo NL50 6-max e estou planejando o move up ainda no primeiro semestre.

Danilo Telles: Há quanto tempo você joga poker? Seu início foi difícil? Como você construiu o seu bankroll?

Presidente: Jogo poker fechado desde que me entendo como gente, valendo feijões como a maioria das pessoas da minha idade. Comecei a jogar o 5-draw valendo dinheiro com meus amigos em 2002, mas era só uma desculpa pra gente se encontrar, falar besteira e encher a cara de whisky. A partir de 2005 conheci o poker online através do meu amigo Léo (leobarag) Velho; naquela época não existiam bônus sem depósito como hoje, então fiz o clássico ‘depositar $50 e quebrar’ por duas vezes. Depositei $50 pela terceira vez e descobri uma indústria de bônus sensacional em sites menores através do site Bonus Whores, onde mesmo sendo breakeven ou marginal loser você fazia dinheiro. Fiquei nesse ‘bonus hunting/whoring’ do início de 2006 até Março de 2007 jogando exclusivamente fixed limit, variando os limites entre .10/.25 a .50/1 para explorar bônus de sign-up e reload de diversas salas; esse sempre foi o meu bankroll principal.

Nesse meio tempo, joguei um freeroll de $5k semanal do Bet365 com mais de 9 mil jogadores e fiz mesa final, caindo em quinto se não me engano. Levei 175 dólares depois de horas de jogo, foi minha primeira grande conquista, apesar de não ser uma grana gigante pro meu bankroll na época. Passei $50 para o Boi, meu camarada que me acompanhou durante quase todo o torneio, e embolsei o resto.

Já tinha um bankroll considerável por ter aprendido a explorar bem os bônus agressivos daquele período (5x reload no Party, 5x reload no Stars, bônus baseados em dealt hands ou em horas jogadas, um sonho!); montei meu blog com dicas de bônus para poker online em Maio de 2006, para passar todas as dicas que havia acumulado e ajudar novos jogadores brasileiros a também aproveitarem o que era essencialmente dinheiro grátis. Eu jogava MUITO mal nessa época e dificilmente não ficava ao menos breakeven. Foi nessa época que comecei a jogar NL cash com as contas de 50 grátis. Obviamente zerei todas, pois não tinha noção do jogo, mesmo me dedicando moderadamente, lendo os livros básicos, os poucos blogs que existiam na época e a Poker Mania do Orkut. Em Outubro de 2006, me classifiquei por satélite online para o BSOP Rio (eliminando o Billy na bolha de AT x 44, LOL donkaments), e tive a oportunidade de jogar com as grandes feras do live. Caí em 23º de 115 jogadores , número de participantes recorde para a época, e fiquei mega feliz mesmo não entrando ITM.

Meu bankroll deu um salto considerável quando arrematei um freeroll de $3k no Paradise Poker exclusivo para jogadores da Pokerlistings em Abril de 2007. Eram 54 inscritos, os 5 primeiros eram premiados e o primeiro levava $2k. Tinha uma etapa do circuito live carioca, que eu jogava sempre na época, mas decidi encarar o freeroll. Quase metade do field estava sitting out, e em míseras 2h46, levei o torneio e fui pro falecido Barra Texas comemorar com a galera. Michel, Xilita, Rádio, Pedro Waite e Riccio estavam lá e devem lembrar disso. Esse foi um aumento enorme no meu bankroll; daí pra frente resolvi levar a coisa mais a sério e me dedicar mais ao cash game, apesar de continuar jogando sits e eventuais torneios. Fui convidado pelo Pacific Poker para criar um novo blog de poker nacional mais ou menos nessa época, o www.pokerblog.com.br , que estreou em Agosto de 2007 e divido desde então com o Michel ‘kriok’ Helal, Rádio e Rodolfo Lacerda. A UIEGA (Unlawful Internet Gambling Enforcement Act) do final de 2006 deu uma bela secada nos bônus; como sempre fui nit com meu bankroll, resolvi jogar NL25 bem overrolled até pegar o jeito. Recentemente subi para a NL50 e já estou querendo fazer o move up para a NL100 em breve. Para não ficar no grind diário do cash, tenho jogado eventualmente satélites para o Sunday Million e sits de HORSE pra variar.

Danilo Telles: Você se considera um jogador tight ou loose? Quão agressivo?

Presidente: Para quem já me viu jogar, eu sou a definição perfeita de ‘LAGtard’. =) Sempre joguei muitas mãos e fui muito agressivo com nada, mesmo no fixed limit. Acho que é culpa do Doyle Brunson, que disse ‘aggressive poker is winning poker’ no primeiro livro que li. Não apliquei muito bem os conceitos dele, infelizmente. Atualmente já me considero um jogador bem mais sólido do que antigamente, mas mesmo assim com problemas graves de agressividade exagerada que, aos poucos, estou corrigindo.

Danilo Telles: Quais são as suas maiores qualidades no game?

Presidente: Como tenho bankroll muito maior que os stakes que jogo atualmente, minha maior qualidade é procurar sempre fazer a melhor jogada. Uma coisa que eu nunca tive foi jogar ‘money scared’, e acho que isso é muito importante para qualquer jogador, especialmente os extremamente agressivos como eu.

Danilo Telles: Qual foi o seu melhor resultado jogando poker?

Presidente: Sem dúvida o freeroll de $3k do Paradise Poker, onde levei $2k. Nunca mais consegui fazer $816/hora jogada =)

Danilo Telles: Você já teve um mês “down” no poker? Como foi essa experiência?

Presidente: Já tive diversos meses down e alguns meses MUITO down. Meu jogo tem uma variância muito grande por causa da agressividade exagerada, então não tem meio-termo. Pra mim é normal ficar down em um mês, acontece direto. Como não dependo dessa renda para me sustentar e o dinheiro que eu perco não é suficiente para que eu pense em fazer move down ou mesmo fique preocupado, resmungo, dou de ombros e parto pro mês seguinte.

Danilo Telles: Como é a sua rotina atualmente?

Presidente: Trabalho de segunda à sexta. Vou me casar no final de Julho e estou de mudança, então todo o meu tempo livre está dedicado a esse projeto, além do planejamento da lua de mel. =) Por conta disso, jogo muito poucas mãos por mês, cerca de 6 mil. Jogo à noite, geralmente a partir das 22h, no máximo 4 mesas simultâneas; perco a concentração se jogar mais do que isso.

Danilo Telles: Qual(is) jogador(es) estrangeiros você admira e por quê? E brasileiros?

Presidente: Acho a história do Akkari sensacional. Tive o prazer de jogar com ele no BSOP e o cara merece todos os elogios. Muito simpático com todos, mesmo sendo a estrela da festa. Merece tudo o que conquistou. O Michel é um ‘unsung hero’ na minha opinião; já ajudou vários players a decolarem, iniciou a carreira do Rodolfo Lacerda, mas ainda não decolou porque não achou a equação entre bankroll, saques e gastos, já que vive do poker. Tem potencial pra ser um dos top 10 players de cash nacionais. Tem muitos outros que admiro, não vou falar cada um pois vou esquecer de alguém que vai se sentir injustiçado. Quanto aos gringos, eu não acompanho muito. Gosto do estilo do Negreanu e do Ivey, mas nunca fiquei vendo Greenplastic, CTS, Aba, durrr etc. jogarem online, então não tenho opinião formada sobre eles.

Danilo Telles: Você já leu livros sobre poker? Quais lhe trouxeram mais benefícios?

Presidente: Li até demais. Tenho mais de 20 livros de poker, mas se pudesse escolher os melhores seriam: ‘Theory of Poker‘ do Sklansky, clássico; ‘No Limit Hold’em: Theory and Practice’ do Sklansky com o Ed Miller, leitura dificílima mas que vale muito à pena; ‘Psychology of Poker’ do Alan Schoonmaker, que ajuda bastante gente tiltada como eu. =) Além desses, destaco ‘Aprendendo a Jogar Poker’ do Léo Bello, excelente para quem está começando agora, e ‘Caro’s Book of Poker Tells‘ do Mike Caro pra quem joga live. Daí pra frente o resto é firula; use seu tempo com coaching ou escolas de vídeo.

Danilo Telles: Você usa algum software de poker? Se sim, qual?

Hold’em Manager, SpadeEye e Pokerstove para calcular equidade de mãos. Ainda uso o Pacific Poker Handgrabber quando jogo no Pacific Poker, mas espero que seja por pouco tempo 😉

Danilo Telles: Se você tivesse que dar um único conselho para um iniciante, qual seria?

Presidente: Não largue sua faculdade/emprego para viver de poker, a menos que esteja destruindo NL400.

Danilo Telles: Se você tivesse que começar hoje do zero a sua carreira, com um bankroll de $150 dólares, como o faria? O que jogaria e em o que investiria? E se o bankroll fosse de $1000 dólares?

Presidente: Com $150 eu jogaria os sit-n-go double or nothing de buy-in baixo. Me parecem uma excelente pedida para quem tem bankroll pequeno. Quando tivesse $300 iria para a NL10. Com $1000 eu jogaria NL25.

Danilo Telles: Qual é o jeito mais rápido de aprender a jogar poker?

Presidente: Coaching, sem dúvida. Mas pra isso você tem que estar preparado. Fazer coaching sem ter um mínimo de experiência do jogo em si, lido pelo menos uns três bons livros e acompanhar/discutir mãos em um fórum como o MaisEV com frequência não te trará tantos benefícios assim.

Danilo Telles: Você já fez alguma loucura com o dinheiro ganho jogando poker? Faria-a novamente? Como você gasta e administra as suas finanças atualmente?

Presidente: Como já disse, sou bem nit com meu bankroll. Mesmo assim, separo boa parte dele para gastar com bobagens quando viajo para o exterior. Acho que as maiores compras que fiz com dinheiro de poker foram um PSP Portable pro meu afilhado e meu atual computador, que comprei usado do Gui (sim, além de nit sou pão-duro, lol).

O bankroll do poker só vira dinheiro quando viajo pro exterior. Me considero bem educado em relação às minhas finanças e acho que invisto bem o meu dinheiro. Sou considerado o ‘finance genius’ da família, só por dar uns conselhos básicos tipo ‘não faz PGBL por causa das taxas absurdas, coloca o teu dinheiro no CDB; não escute seu gerente do banco’ 😉

Danilo Telles: O que você gosta de fazer fora do poker? Quais são seus hobbies?

Presidente: Viajar pro exterior, beber boas cervejas artesanais ou importadas (Skol? uggggghhhh), ir ao Maraca assistir aos jogos do Mengão, ler bons livros, ouvir música de vários estilos, correr… jogava tênis e corria de kart também, mas tem muito tempo que não faço isso, infelizmente. Poker pra mim ainda é um hobby. Fiz curso de cervejeiro há pouco mais de um ano, mas acho que não tenho paciência pra fazer minha própria cerveja.

Danilo Telles: O que você pretende fazer daqui pra frente na sua carreira de jogador de poker? Onde você se vê daqui a 3 anos?

Presidente: Carreira, eu? Sem chance. Não acho que tenho skill suficiente para tal, nunca pensei em largar tudo pra viver de poker. (menos no dia que acertei aqueles 2k no freeroll do Paradise, claro). Não sei dizer o que vai rolar daqui a 3 anos no poker, estamos em um momento de indefinição. Vários jogadores já perceberam que os jogos estão secando, talvez devido à crise mundial. Por outro lado, a UIEGA tem tudo para ser revogada no governo Obama, o que trará novo fôlego para a indústria do poker online, na minha opinião.

Danilo Telles: Como você conheceu o MaisEV? E que parte(s) do MaisEV você mais gosta/freqüenta e porquê?

Presidente: Conheci por indicação do Riccio. Leio sempre Poker em Geral, Small Stakes Cash Games, sou moderador de Finanças e Investimentos e Rakeback e Bônus, e leio Off-Topic e Beats, Brags e Variância mais do que deveria. =)

Danilo Telles: Mande uma mensagem aos usuários do MaisEV.

Presidente: Poker vai ser a carreira de menos de 5% de vocês, então divirtam-se enquanto jogam, afinal de contas é ‘só’ um jogo, ora bolas! Não percam tempo com OT e BBV e partam pro grind! GO GO GO GO!!!

Historiador por formação, conheceu o MaisEV em sua primeira semana de vida, ainda em 2007. Em pouco tempo, tornou-se editor-chefe do site para fazer o que faz de melhor: escrever.

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