Alexandre “IoDa” Ferreira Fala Sobre Sua Carreira e o Poker Mineiro

Por: 10/01/2013

Qual é sua história antes do poker?

Eu sou engenheiro civil. Me formei no final de 2007. Eu trabalho com engenharia em uma empresa familiar desde o segundo período de faculdade em 2000. Pouco tempo depois que me formei, por volta do meio de 2008, conheci o poker. No início era só um passatempo, um jogo online. Mas rapidamente eu quis aprender mais, estudar e melhorar no jogo. Comecei a fazer coaches e grindar mais pesado com objetivo de aprender mesmo. Algum tempo depois, já conseguia ter uma renda extra com o jogo e foi quando decidi que tentaria levar o poker como algo mais que um hobbie, uma segunda profissão. Desde então tenho tentado conciliar as duas coisas.

E como conheceu o jogo?

Essa é uma história engraçada. Eu jogava um jogo online bem antigo que chama Continuum. E nesse jogo você acabava entrando pra um time e fazendo amigos. As partidas rankeadas desse jogo eram sempre aos domingos. Quando acabava o jogo, o meu time tinha uma tradição de jogar um sit n’go entre eles no PartyPoker. Eles sempre me chamavam, mas eu tinha um certo preconceito de jogar um jogo valendo dinheiro pela internet. Mesmo sendo o buy-in do SnG que eles jogavam, algo como $1. No meio de 2008, estava no final da temporada do Continuum e nosso time estava na final e acabou vencendo. Foi então que um amigo canadense do time falou que me mandaria o valor referente ao buy-in do SnG daquele domingo, mas que eu não poderia ficar de fora naquele dia de comemoração. Aí acabei jogando o SnG e por algum milagre inexplicável eu ganhei o torneio e fiz meus primeiros $4.50 online! Essa vitória acabou despertando minha curiosidade e daí pra frente foi muito estudo e um investimento inicial de $50 pra poder jogar mais SnGs. Inclusive a origem do apelido IoDa vem desse jogo pois era meu nick por lá.

Como foi o processo para se tornar um jogador semi profissional?

Muito estudo, coaches e grind. Na época que comecei, sem saber nada do jogo, não consegui fazer o depósito no PartyPoker e o único site que aceitou meu depósito foi o Full Tilt. Então depositei os primeiros $50 e comecei a jogar os SnGs de $1,10. Joguei muito SnG no início e apanhei muito sozinho, mas me mantendo sempre nos jogos mais baratos. Acho que por isso não quebrei de cara. Aí comecei a procurar material na internet pra estudar e acabei chegando no nome do Riccio e consequentemente do MaisEV. Fiquei algum tempo só lendo tudo que tinha e nem registro no fórum fiz, mas lia tudo! Depois de algum tempo resolvi me registrar e participar da comunidade. Os resultados vieram rápido e eu consegui fazer moveup nos SnGs com bankroll confortável pro meu limite. Mas influenciado pela maioria dos jogadores que participam do MaisEV, acabei migrando pros cash games e, com o bankroll que eu tinha na época, dava pra começar na NL10. Apanhei um pouco também pra me adaptar, mas algum tempo depois já estava conseguindo ser vencedor e subir de limites. Meu aprendizado veio quase todo do fórum. Fiz coach com vários dos jogadores do MaisEV e fiz muitos amigos também. Se hoje eu consigo ter uma renda legal que vem do poker, eu devo muito disso ao MaisEV.

Qual é seu jogo principal hoje?

Hoje meu jogo principal é live. Tenho dedicado muito mais tempo aos jogos ao vivo do que ao jogo online hoje em dia. Aqui em Belo Horizonte as opções de cash games não são muitas. Eu costumo jogar o jogo que formar no Sierra, que é o maior clube daqui. A maioria das vezes só forma 1/2. Mas às vezes forma 5 no botão e raramente um 5/10. Se o jogo tiver bom, tenho condições de jogar todos esses limites. Tenho jogado também os torneios live, tanto os regionais quanto os nacionais. Esse ano pretendo jogar algumas etapas do LAPT e realizar um dos meus sonhos como jogador de poker que é participar do WSOP. Minha ideia é passar um mês em Vegas na época do WSOP e aproveitar o máximo os torneios por lá.

Por que migrou para o live?

Eu acho que o principal motivo é o meu jeito mesmo. Eu gosto muito de conhecer pessoas novas, fazer amigos, conversar, rir e tudo mais que envolve o jogo live e que passa longe do jogo online. Acabei descobrindo que eu me divirto mais jogando live. Além disso, o jogo online hoje está infestado de regulares. Acaba que a lucratividade do jogo live é bem maior do que a do online e, pra mim, compensou a perda de volume de jogo que você tem no live. No final das contas juntou o útil ao agradável!

Que modalidades de live você joga?

A imensa maioria do tempo jogo hold’em, tanto cash quanto torneios. Não me considero um bom jogador em outras modalidades, então acabo me limitando ao hold’em o máximo possível. Uma vez ou outra me arrisco em algum torneio de Omaha…

Como você vê o crescimento do omaha no live aqui?

Esse é um assunto complicado pra mim porque aqui em BH esse crescimento do Omaha ainda não chegou. Por aqui quase todos os jogos ainda são hold’em. Eu sei que em São Paulo o Omaha já está prevalecendo, principalmente nos jogos mais caros. Eu acho que esse crescimento do Omaha ainda vai demorar pra chegar por aqui. Por mais “atrasado” que possa soar, em BH ainda estamos vivendo o crescimento do hold’em.

E como é o cenário do poker mineiro?

É muito promissor! Minas hoje vive um momento muito legal com um crescimento muito forte do poker por aqui, tanto na capital quanto no interior. Com a entrada do Sierra no mercado investindo em grandes torneios e com uma estrutura muito boa, houve um aquecimento do mercado e eu tenho acompanhado o surgimento de novos jogadores a cada dia. A cada torneio que jogo por aqui vejo novas caras. A maioria jogadores novos, universitários. Acredito que 2013 vai ser um ano muito bom pro poker mineiro. Se conseguirmos trazer grandes eventos pra BH como o BSOP, Masterminds e o RPT acho que vai ajudar muito a consolidar essa nova geração de jogadores e abrir portas pra um crescimento ainda maior.

E os boatos de que havia há alguns tempos, sobre problemas dos clubes com polícia, bicheiros e etc?

Isso ficou no passado. Pra te falar a verdade eu também só sei de boatos. Não vivi nenhuma situação complicada nesse sentido. Mas acredito que possa ser verdade e que tenha contribuído pra esse atraso no crescimento do poker por aqui… Mas hoje os clubes funcionam com alvará e toda a papelada necessária inclusive a chancela da Federação. Faz muito tempo que não escuto falar desse tipo de problema por aqui. Quando há alguma fiscalização da polícia ou da prefeitura é resolvido em poucas horas. Hoje se pode jogar tranquilamente em Belo Horizonte.

A que se deve esse crescimento e a resolução desses problemas?

Ao excelente trabalho feito pela Federação ao longo dos dois últimos anos. O Lanza e o Juninho fizeram um trabalho muito legal fortalecendo o campeonato Mineiro e atuando junto as autoridades pra conseguir que os clubes funcionassem tranquilamente.

Você pensa em se tornar jogador de poker em tempo integral?

Por enquanto, não. Hoje eu tenho muitas responsabilidades como sócio da empresa que trabalho junto com meu avô. Abandonar isso pra me dedicar exclusivamente ao poker está fora de questão. Enquanto isso eu vou me virando pra arrumar tempo pra tudo!

E o campeonato mineiro que você ganhou, como foi?

Foi muito legal! Acho que foi o que marcou a minha migração pro live. Foi uma good run muito forte ao longo de todo o ano. Eu acabei fazendo 7 mesas finais das 12 etapas. A conquista de cada troféu, cada vitória no live é muito intensa! 2011 foi um ano muito importante pra minha carreira de jogador. Fiz vários amigos e consegui me destacar um pouco no cenário local, o título do Mineiro veio pra coroar tudo isso.

Como você concilia o poker com sua profissão como engenheiro?

É um pouco complicado. Mas eu tento ter o máximo de disciplina e definir horários pra cada coisa. O horário comercial é todo dedicado a engenharia. Aí dou um jeito de concentrar o grind, aulas e demais negócios do poker fora do horário comercial. O que acaba acontecendo é que durmo pouco e prejudico bastante os meus finais de semana também. Se fosse só engenharia e poker até que dava pra levar tranquilo, mas eu ainda tenho uma rotina de exercícios físicos e tem que ter um tempo reservado também pra lazer, amigos, mulheres e tudo mais… Mas com jeitinho dá pra levar, hehehe!

E como faz com as viagens?

A minha empresa de engenharia tem uma rotina mais tranquila. Quando preciso viajar, eu consigo adiantar o que tiver que fazer pra abrir um ou dois dias pra poder viajar. Normalmente procuro viajar nas sextas e voltar nas segundas pra não prejudicar muito. Esse ano farei um planejamento especial pra conseguir tirar um mês de férias e ficar esse período em Vegas. Tomara que dê certo!

Como sua família leva sua carreira de jogador? São conservadores ou mais tranquilos?

São as duas coisas!! No início acho que a resistência era maior. Eles ficavam preocupados de eu estar dedicando muito tempo e energia a um negócio que não tivesse futuro. No início também eu tinha mais dificuldade pra conciliar os horários certinhos e acabei abusando um pouco e me concentrando demais no poker. Hoje a situação é mais tranquila. Acho que eles já conseguem ver o poker como um negócio, um mercado em expansão e também como um esporte em que eu tenho conseguido bons resultados.

Há algo que você trouxe da engenharia para o poker, e vice versa?

Ah! Eu adoro essa parte, hehehe! Sim, o intercâmbio entre os dois universos é muito legal! Da engenharia pro poker acho que é mais fácil de enxergar. Você leva o raciocínio lógico, a matemática, o planejamento e a visão de retorno de investimento. Mas o que mais me fascina é o que a gente leva do poker pra nossa profissão e pra vida. E aí prefiro generalizar mesmo! Não serve só pra engenharia não! Serve pra qualquer profissão. Você leva um controle emocional, uma capacidade de tomar decisões corretas em situação de estresse, você aprende a observar as pessoas e tentar entender suas reações físicas e uma capacidade de concentração por longos períodos de tempo que acho que são pouquíssimos esportes que podem te dar tanta coisa boa pra aproveitar na vida. Eu mudei muito o meu jeito de ser depois que comecei a jogar poker. Eu era afobado, impulsivo e até um pouco descontrolado emocionalmente. Nesse sentido eu mudei muito! E gosto muito da evolução que consegui ter como pessoa! Se deixar eu fico falando horas sobre esse assunto aqui!

Falando em evolução, qual você acha ser sua maior qualidade e defeito no poker?

Essa pergunta acaba estando muito relacionada a anterior… Como minha principal qualidade eu diria que é a de identificar padrões. Eu não preciso de muito tempo jogando com alguém, normalmente um jogador iniciante ou um regular não muito bom, pra “aprender” como aquele cara está jogando. E depois de identificar o padrão fica muito fácil explorar e tirar vantagem do que você “aprendeu”. Como defeito, sem dúvidas, é a impulsividade ainda. Apesar de eu ter melhorado muito nesse sentido, se eu tiver um breve momento em que eu perca a concentração no jogo eu acabo jogando por impulso e tomando decisões erradas. Não consigo contar quantos torneios já perdi porque fiz uma jogada impulsiva e não gastei aquele tempinho fundamental pra tomar a melhor decisão.

Tem algum “a-ha moment” para compartilhar com os leitores?

A gente tem vários a-ha moments durante o aprendizado inicial do jogo, né? Eu consigo lembrar de alguns… Mas acho que o mais importante de todos foi quando eu consegui entender realmente a grande vantagem que é jogar em posição. Tem muita gente que repete isso: “ah, tem que jogar em posição!”, mas não sabe realmente como usar essa vantagem. Eu acho que, no início, eu era meio assim… Mas lembro perfeitamente do dia em que estava revendo minha database e estudando o jogo e tive esse a-ha moment! Parece uma bobagem, mas foi bem importante na época.

Você falou em aprendizado inicial. Continua estudando o jogo? Como?

Continuo! Eu gosto muito de ler sobre poker. Então costumo ler tudo que é novidade que aparece por aí… Tenho sempre assinatura de pelo menos um site de vídeos também. Acho que já tive assinatura de todos os principais sites de vídeos. Mas uma coisa que me ajuda muito e acaba me forçando a me manter atualizado é dar aulas. Eu tenho dado muitas aulas pro pessoal de BH em coaches ao vivo e também pra alguns alunos pelo skype. É bom porque você acaba aprendendo muito nas aulas também!

IoDa, muito obrigado por nos conceder essa entrevista.

Agradeço a oportunidade. Sempre considerei o MaisEV meu berço e minha casa no poker e é muito bom poder contar um pouco mais da minha vida pra essa turma. Valeu!

Historiador por formação, conheceu o MaisEV em sua primeira semana de vida, ainda em 2007. Em pouco tempo, tornou-se editor-chefe do site para fazer o que faz de melhor: escrever.

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