O Nosso 7 a 1

Por: 18/11/2014

Colocação de Bruno Foster foi o 7 a 1 do poker brasileiro

Nesse último dia 10 de Novembro acompanhamos um capítulo importante da história do Poker brasileiro e tivemos muitas coisas interessantes nessa mesa final.

Vimos Mark Newhouse se transformar em um dos personagens mais singulares do poker mundial. Conquistou o mérito enorme de chegar duas vezes seguidas na mesa final mais cobiçada do mundo e caiu em nono lugar novamente. Na minha opinião, toda essa situação agregou carisma para o Newhouse.

Onde antes víamos uma personalidade aparentemente arrogante hoje vemos como um personagem engraçado, um cara desleixado, sem postura, com olheiras, realizando apostas displiscentes, jogando a mesa final do World Series of Poker como se fosse o torneio da pizza e sempre se dando mal.

Também tivemos jogadas de destaque como a mão de Van Hoof contra Larrabe onde o holandês transforma sua mão em blefe no river e faz o oponente foldar uma sequência, jogada típica do cenário de cash games high stakes de Omaha onde sempre cabe blefe se não há nuts no range do oponente.

Mas queria dedicar esse texto ao nosso representante Bruno Foster.

Desde que conheço o Foster ele sempre foi um bom jogador com bons resultados e pudemos ver nas transmissões referentes ao torneio de julho lampejos de craque nele, de top player mundial, como no 6-bet de Q6o pra cima do norueugês Stephensen, porém não vimos o mesmo brilho na mesa final onde ressaltou uma diferença de preparo entre Foster e os adversários estrangeiros.

Essa situação me lembra a nossa seleção de futebol na Copa de 2014, tínhamos todo talento ao nosso lado mas ficou clara a diferença de preparação entre nós e a seleção da Alemanha, culminando no inesquecível 7 a 1. Fomos pegos de surpresa e depois ficamos discutindo o que deveríamos ter feito e chegamos a conclusão que eles não são porém estão melhores que nós graças a um planejamento sólido.

Na minha opinião, nós do poker tomamos o nosso 7 a 1.

Não tenho dúvidas de que a preparação com Ariel Bahia, pessoa com talento inato para o jogo e um dos melhores jogadores de poker do Brasil, agregou muita coisa para o jogo do Foster e foi um ganho fundamental para a preparação dele e tenho certeza de que ambos discutiram todas as possíveis estratégias para adotar em cada situação porém, como diria Garrincha, “só faltou combinar com os adversários.”.

Bruno Foster 7 a 1 no pokerFoster mergulhou na mesma bolha que nossa seleção de futebol quando negou ter coachs estrangeiros, ao contrário dos seus oponentes que estavam se preparando com pessoas do mundo inteiro.

O sueco Martin Jacobsson não fez oficialmente um “coach” mas teve auxílio de mais de 20 jogadores do mundo todo, alemães, suecos, americanos, canadenses, top players de diversos países e essa preparação técnica maior ficou evidente na mesa final. Jacobson estava em uma situação semelhante ao Foster, mesmo stack e obteve os mesmos spots, chegou inclusive a ficar na última colocação e agora está lá, campeão do mundo.

A situação de negar auxílios técnicos que vem de fora é semelhante a que impede, por exemplo, que o técnico da seleção seja o Guardiola. Nós brasileiros temos uma arrogância em relação a ajudas estrangeiras que precisamos nos livrar.

O poker vem lá de fora, eles jogam há muito mais tempo que nós. Nós temos vantagens, temos talento para o jogo e coisas que eles nunca terão como torcida forte, comunidade unida e etc., mas isso não nos torna os melhores do mundo. Os melhores livros de poker não estão em português, os melhores vídeos, artigos, tópicos de fórum também não.

O fato é que existe um mundo inteiro jogando poker além dos oceanos, milhares de pessoas que jogam poker todos os dias e não gritam “Vamoo” e aparentemente o Foster não se ligou muito nisso, teve a chance de ter coachs com quem quisesse e optou por se recolher ao universo brasileiro.

Na mão derradeira, all-in pré flop QT x 77, todos nós brasileiros, presentes na arquibancada, em casa ou asssitindo em clubes de poker gritamos alto no ouvido do baralho: “Dama! Dama!! Dama!!! Dez! Dez!! Dez!!!”.

Mas, lá em Las Vegas, os baralhos falam inglês.


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