A Velha e a Nova Geração do Poker Segundo Phil Galfond

Por: 13/02/2014

Muito tem se falado recentemente sobre os comentários improvisados que Joe Hachem fez em uma entrevista para a Bluff.

Eu digo improvisados porque todos estão levando o que ele falou muito a sério, mas acho que deveriam pegar leve com ele porque não foi um discurso preparado, mas um desabafo muito apaixonado.

Daniel Negreanu também deu sua opinião sobre a entrevista de Joe Hachem e as respostas do público.

A questão é mais ou menos a maneira com que os jogadores de poker se comportam e o efeito que isso tem no jogo como um todo, e essa é uma discussão muito importante.

Parte do debate é sobre os últimos campeões mundiais, e isso é algo sobre o que não vou falar, não só porque não acho que seja particularmente importante, mas também porque não tenho contato suficiente com essas pessoas para ter uma opinião formada.

Leia mais: Entrevista exclusiva com Phil Galfond

O assunto que eu gostaria de falar é algo que já foi discutido antes: a nova geração contra a velha geração.

Acho que estou chegando no fim do período em que posso ser considerado um jogador da “nova geração”, então quero aproveitar a oportunidade para falar como um antes que seja tarde demais.

Questão #1

Para resumir: A velha geração sente que a nova geração (em geral) se comporta de uma maneira que não é boa para o jogo ou a popularidade do poker.

Eu concordo completamente.

Está surpreso?

Bem, não há muitos argumentos contra isso.

A maioria dos jogadores da “nova geração” fala de estratégia avançada nas mesas, não de se divertir com os jogadores recreativos, e jogam lenta e silenciosamente na TV.

Todas essas coisas intimidam jogadores não profissionais e tornam o jogo menos interessante para o público em geral assistir.

Faz esses jogadores se sentirem incapazes, indesejados e burros.

Se você é um empresário de sucesso e vai para a mesa de poker descarregar as tensões, a última coisa que quer é se sentir burro. Me colocando no lugar deles, não consigo pensar em mais nada que faça o poker parecer menos divertido.

Falarei sobre isso depois.

Respeito

Por mais idiota que isso pareça, acho que a primeira coisa que precisa parar é isso de apontar os dedos e esse ressentimento geral entre “nova” e “velha” geração.

As coisas têm melhorado desde o início da minha carreira, mas ainda há uma grande falta de respeito de uma geração para a outra.

Você não pode ter um relacionamento de qualidade a menos que seja baseado no respeito. (E amor. Vamos todos nos amar).

(Para esclarecer: nem Daniel nem Joe falaram qualquer coisa desrespeitosa ou irracional sobre minha geração nas entrevistas recentes. Estou falando de maneira mais geral).

A velha geração

Não posso falar muito sobre as opiniões da velha geração quanto à nova. Acho que há uma falta de respeito pela maneira com que geralmente  nos comportamos na mesa, e um (muito compreensível) ressentimento pelo impacto que isso tem no jogo.

Acho que provavelmente há uma falta de respeito sobre como chegamos aqui tão facilmente (embora muitos da minha geração não tenham conseguido… não ouvimos falar sobre muitos deles).

Acho que há algum ressentimento pelo fato de que conseguimos melhor rapidamente com o conhecimento compartilhado, coaching e especialmente com ferramentas e softwares de estudo.

Acho que muitos jogadores da velha geração perceberam que uma parte da nova geração os ultrapassou no fator “habilidade” nos jogos mais caros, e eles não gostaram disso.

A nova geração

Eu honestamente não faço ideia se a velha geração percebe isso ou não, mas a nova geração tem um grande peso nas costas. Muitos deles (incluindo eu, há muito tempo) acham muito frustrante que haja jogadores (que eles acham que vencem facilmente) ganhando reconhecimento, elogios, festas e o respeito do público, enquanto eles não têm nada disso.

Sempre senti que há um certo nível de desonestidade vindo daqueles que estão nos holofotes. Alguns caras na TV falando mal dos jogadores mais novos, dizendo que são os melhores, que os “garotos” não tem chance contra eles.

Isso nos faz sentir algo como “bem, há mais de 30 caras do online contra quem você pode escolher NL 300/600 online ou ao vivo, e você não joga. Então obviamente você não acredita de verdade no que você está falando (que indiretamente é sobre mim) para a câmera”.

Você pode falar para a nova geração superar isso, mas precisa entender que eles nunca vão deixar de querer ter a habilidade reconhecida. Então, o que você consegue quando os coloca na TV e faz uma entrevista sobre uma mão é que eles soem o mais inteligentes e superiores possível, por que (finalmente) é a chance deles de mostrar ao público que eles têm um talento que deve ser respeitado.

A minha geração

A única coisa que Joe errou feio na entrevista é que a maioria da minha geração na verdade ama o poker. Quase todos os caras que eu conheço pessoalmente tem uma grande paixão pelo poker e se orgulham muito do jogo.

Eu assisti poker na TV sem parar quando estava começando a jogar, incluindo cada episódio da vitória de Joe no Main Event. Eu me espelhava nos jogadores que eu via, e sonhava em um dia poder competir entre os maiores (da mesma forma que eu sonhava estar na NFL quando era adolescente).

Assim que comecei a ganhar $30/hora no poker, peguei papel e caneta e criei um “plano” para quanto eu jogaria, quanto ganharia e o que faria com esse dinheiro (algo que aprendi que é bastante inútil dado ao fato de que há muitas coisas fora do nosso controle).

Qual era o objetivo do meu plano?

Era atingir um certo número de horas por semana (eu ainda estava na escola) e ganhar X por mês para que eu pudesse gastar em eventos do WPT e WPT Circuit e ainda poder bancar meu (muito modesto) custo de vida. Eu imaginei que poderia jogar quatro eventos por ano. Eu definitivamente acreditava na glória e no amor ao poker.

Só neste verão, eu cheguei em 2º no evento de $25.000 6-Max da WSOP. A diferença entre 1º e 2º era em torno de $350.000. Não consigo contar o número de vezes que perdi mais de $350.000 em um dia, e eu normalmente supero isso no dia seguinte.

Aquele 2º lugar me perseguiu. Por uns dois meses eu me culpei diariamente por causa de algumas mãos. De vez em quando eu ainda sinto uma ponta de arrependimento.

Eu queria aquele bracelete 100 vezes mais do que eu queria o dinheiro.

Para mim ganhar o bracelete do Main Event seria uma honra e uma responsabilidade (para mim… não para todo mundo). Todos os anos, o dia que eu sou eliminado do Main Event dói, assim como dói em muitos dos meus companheiros.

Eu realmente amo o jogo de poker (são muitas razões para citar aqui) e eu amo o mundo do poker (velho e novo). Eu quero que o jogo seja respeitado e cresça.

Eu sei que estou longe de estar sozinho entre os jogadores da minha geração que pensam como eu sobre o poker.

O que a velha geração precisa entender

Minha geração de jogadores de poker – aqueles que conseguiram chegar até o topo entre as legiões de pessoas que tentaram – tem um jeito muito específico de ser. 90% de nós são CDF’s introvertidos. Ou se preferir, vou deixar você dizer: nerds.

Não é da nossa natureza ser atirados e enérgicos e faladores, e quando isso acontece não é fácil para muitos de nós.

Quando você vê um garoto top da internet sentar na mesa e colocar headphones, 5 entre 10 vezes será porque ele não se sente confortável, e não porque ele não se importa em estar ali. Outras 3 entre 10 será que jogar 30 mãos por hora é um tédio para o déficit de atenção dele.

Quando ele joga devagar, (geralmente) é porque ele acha que você vai conseguir alguma leitura se ele não fizer assim.

E o mais importante, quando ele encontra outro de “nós” e fala sobre estratégia avançada (e eu odeio isso), é por que:

a)      É interessante e finalmente ele tem alguém com quem conversar;

b)      Ele tem um peso nas costas e acha que precisa provar algo para a mesa ou (especialmente) para as câmeras.

(Eu não começo conversas desse tipo porque não gosto de fazer outras pessoas se sentirem mal, mas também porque tenho dificuldades em negar uma resposta a alguém quando me perguntam algo sobre estratégia).

Muito do que você não gosta na verdade não é culpa da minha geração (no sentido de que é muito difícil para eles conseguir controlar). Isso não quer dizer que não possamos melhorar.

Minha experiência

Eu fui convidado para jogar no High Stakes Poker pela primeira vez muitos anos atrás. Eu não lembro que idade tinha, mas não devia ter mais de 22 ou 23 anos.

Eu sou quieto por natureza, mas esse foi, essencialmente, um sonho que eu nunca esperava realizar. Eu joguei muito high stakes online, e um pouco live, mas nada foi comparado a isso.

Eu não consegui falar com ninguém antes de começar a filmar. Eu tinha uns dois amigos lá e falava com eles. Eu sentei na mesa, e lá estava eu em um dos maiores palcos do poker no mundo, do lado de uma mesa cheia de caras que eu passei anos assistindo na TV!

Todos eles se conheciam, claro, mas ninguém me conhecia.

Todos conversavam entre si, mas poucos falaram algo comigo além de perguntar meu screen name. Do jeito que foi, nunca passaria pela minha cabeça iniciar uma conversa com uma dessas celebridades do poker. Então é claro que eu continuei quieto.

Eu fui bem na TV? Não, eu fui péssimo na TV.

Mas ter esperado algo diferente de mim naquela situação (ou de jogadores da nova geração como eu), ou se chatear comigo por causa disso, é quase ridículo.

Phil GalfondSendo o adulto

É responsabilidade da velha geração pegar nas nossas mãos e tornar as coisas mais fáceis e mais relaxadas para nós enquanto jogamos por centenas de milhares de dólares?

É claro que não.

Mas se eles não o fazem, não podem esperar que garotos tímidos e intimidados que nunca estiveram sob os holofotes façam algo além de sentar e tentar o seu melhor e depois ir embora.

Eu acredito que se os caras da velha geração tenham orgulho do jogo e queiram que o poker na TV continue sendo interessante, eles precisam perceber que são eles que estão preparados a ajudar.

A maioria dos caras da velha geração são bem apessoados. Eles usam seu charme para entreter e enganar (uso isso no sentido mais inofensivo possível da palavra) para continuar a jogar em grandes jogos como um grande elemento do poker ao vivo. Isso ajudou muitos deles a sobreviver e prosperar.

Eles passaram por um processo de seleção diferente onde o mais “mais forte” tem a qualidade de ser extrovertido e agradável. Isso é ainda mais verdade porque muitos dos caras que têm mais tempo na TV e melhores patrocínios são também os melhores em deixar divertir tanto a mesa quanto o público.

Então, já que esse tipo de coisa é mais fácil para os jogadores da Velha Geração, eu vejo sim que é responsabilidade deles se esforçar para facilitar para os mais jovens para o bem do ambiente da mesa, e especialmente para o bem do ambiente de uma mesa televisionada (se ele é que eles se importam tanto com o esporte quanto dizem).

(Isso é, se você acha que os mais jovens precisam conversar… havia muitos jogadores de poker na TV 10 anos atrás que não conversavam e ainda impressionavam a audiência… Phil Ivey, Erik Seidel, etc).

Eu teria me sentido 20 vezes melhor no High Stakes Poker se tivesse meia hora antes das filmagens para me enturmar com os caras da mesa – para que eles me perguntassem de onde eu sou, o que meus pais fazem, que tipo de filmes eu gosto.

Eu também poderia ter me beneficiado de um pouco da sabedoria da Velha Geração.  Jogar high stakes na TV não tem a ver com o EV do jogo de poker. Foi minha primeira oportunidade de me promover. Entretanto, eu era jovem e ingênuo e pensei que se eu começasse com o pé direito (e ganhasse muito dinheiro) ao jogar meu melhor poker (que seria um jogo tight em uma mesa loose de oito jogadores).

Genialidade não quer dizer sabedoria. (Algo que a Nova Geração precisa melhorar é respeitar a sabedoria e experiência da Velha Geração. Garotos muito espertos e sem muita experiência tendem a pensar que sabem muito mais do que realmente sabem).

A verdade é que, frequentemente os caras da Velha Geração não querem os garotos da Nova Geração nas mesas deles (pelo EV e clima da mesa), e eu acho que isso é grande parte do motivo pelo qual eles não estão se esforçando.

Assim como você vê alguns garotos da internet conversando sobre estratégia e outros assuntos de poker, deixando os jogadores casuais completamente de fora da conversa, a Velha Geração geralmente conversa entre si e com os jogadores casuais, mas não com os garotos da internet.

Alguns caras da Velha Geração sempre fizeram um bom trabalho em deixar todos confortáveis (incluindo os garotos tímidos). Quando eu joguei meu primeiro torneio ao vivo, lá quando eu ainda tinha 21, tive a sorte de passar todo o dia 2 na mesa de Daniel, o que deixou a experiência muito mais confortável. Ele é o melhor que há em fazer com que todos se divirtam na mesa, e dá um ótimo exemplo para o resto de nós.

O que quero dizer aqui (nessas quase 3000 palavras, aparentemente) é que vocês da Velha Geração querem que a Nova Geração faça algo que eles não conseguem fazer sozinhos, pelo menos não até que sejam mais velhos, e vocês ficam ressentidos por causa disso.

Eu tenho 29 agora. Fico extremamente confortável em uma mesa de poker ao vivo. Eu conheço a maioria da Velha Geração sou amigável com a maioria das pessoas no mundo do poker. Se o High Stakes Poker fosse hoje, eu falaria e seria tão agradável quanto pelo menos metade da mesa. Infelizmente eu não me senti confortável no mundo do poker ou aprendi minha lição cedo o suficiente.

Vamos chegara a alguma conclusão, Phil

Como podemos tentar consertar o problema?

O primeiro passo, como eu disse mais cedo, é que tem que haver menos ressentimentos e mais respeito entre as duas gerações. Não podemos trabalhar juntos para o bem do jogo se não gostarmos uns dos outros.

Nova Geração:

Pegue qualquer estudante universitário de Física com 21 anos hoje e ele provavelmente terá um entendimento muito melhor de Física que Isaac Newton. Esse garoto deveria ter mais respeito por suas habilidades em Física do que Isaac Newton? (não é a analogia perfeita, mas é boa o suficiente para o que quero demonstrar).

Você tem um conhecimento técnico muito melhor de NL e PLO do que a Velha Geração.

E daí?

Se eu te levasse para o mundo do poker de 20 anos atrás, você não teria aprendido 1/10 tão rápido quanto aprendeu hoje. Há uma grande chance de que você não conseguiria viver do jogo e que já teria desistido.

Os profissionais que sobreviveram no poker por mais de 20 anos merecem muito respeito por isso. Eles são os melhores dos melhores de sua geração.

Se você pode vencê-los em HU NL Hold’em – bom para você!

Nós tivemos uma grande vantagem na maneira com que começamos no poker. As fundações já estavam construídas (pela Velha Geração) e nós acrescentamos algo, com uma grande ajuda da tecnologia. O fato de que muitos deles ainda são capazes de competir em alto nível é uma evidência da inteligência e habilidade deles no poker.

Cinco anos atrás, eu era um dos melhores jogadores de HUNL do mundo. Você pode pegar qualquer jogador regular excelente de $5/$10 de hoje, colocar numa máquina do tempo, e ele teria vencido o Phil de 2009 (pelo menos por um tempo). Isso quer dizer que eu não mereço respeito por um dos melhores nos jogos de HUNL daquela época?

Não estou dizendo que você não deveria ter orgulho de ser um bom jogador de poker e sobreviver no mundo extremamente competitivo do poker live e/ou online. Você deveria ter. Só não deveria se ver como um superior só porque é melhor que alguém em um jogo específico – especialmente se você teve uma tremenda vantagem educacional.

A Velha Geração ajudou a transformar o jogo naquilo que te cativou na TV no que te sustenta hoje. Respeite-os.

Ah, e por favor, por favor parem de falar de estratégia na mesa!

Joe HachemVelha Geração

No ano passado, eu visitei minha irmã na faculdade. Eu tinha 28, ela 19. Eu não conseguia entender como todas aquelas pessoas eram tão jovens! Eu pensava que era um adulto quando tinha 19 anos, mas olhando agora para aqueles garotos eu pensei “são apenas bebês”.

Não tenho ideia de como você consegue ter 35 ou mais e olhar para aquele quietão de 22 anos na sua mesa e não pensar “ele é só um garoto”.

Você está chateado com ele porque ele não está agindo da maneira que você gostaria. Dê um tempo a ele! Na maior parte das vezes, não é culpa dele. Ninguém ensinou a ele como divertir a mesa – ele nunca precisou.

Além da falta de experiência, os garotos da Nova Geração não estão bem preparados para fazer o que vocês fazem tão bem. Eles são de uma “raça diferente”.

Eu entendo que muitos de vocês não gostam que estejamos aqui. O poker se tornou um jogo cada vez mais técnico, e está cada vez mais próximo de ser “resolvido” (mas ainda não está perto o bastante).

Eu sou da Nova Geração e nem gosto disso! O poker é mais divertido quando se trata de ler pessoas, descobrir o que significam suas linhas de apostas, tentar ficar um passo a frente psicologicamente. (Muitos de vocês da Velha Geração não estão tão familiarizados com o meu jogo e estilo de ensino, mas os mais novos vão dizer que meu jogo é construído na lógica e psicologia mais do que na matemática avançada e estudo).

O que importa aqui é que ainda há muito dinheiro no poker, e as pessoas vão continuar se esforçando mais e melhorando. Isso significa estudos mais técnicos, e isso significa que a próxima geração será bem mais difícil de vencer.

É assim que as coisas são, e eu não vou voltar para onde vim só porque você quer. E o mais importante, não é culpa de algum garoto legal de 22 anos!

Além disso, você precisa respeitar a habilidade da próxima geração (as pessoas fazem muito mais do que faziam seis anos atrás). É a falta de respeito e reconhecimento que faz com que eles queiram se provar cada vez mais, fazendo com que eles falem de estratégia sempre que tem oportunidade.

O poker é um jogo cheio de grandes egos, e eu acho que vai precisar de muita humildade para coexistir e cooperar em busca de um jogo melhor para todos nós.

Infelizmente para vocês da Velha Geração… vocês são os adultos aqui. Isso quer dizer que são vocês que têm que ser humildes e receber bem os garotos. E depende deles seguir o exemplo de vocês.

TV, regras e os poderosos

O próximo passo, depois de algum entendimento mútuo, é olhar para a maneira com que o poker é jogado e como é televisionado. São coisas que eu nem saberia onde começar a mudar.

Espero que eu possa começar a discussão e ser incluído nas discussões com jogadores e não jogadores que tenham algo a dizer.

Então, as questões:

Hachem disse que o poker na TV está indo por um caminho ruim.

Ele não gosta da maneira com os garotos estão jogando devagar e em silêncio. Ele acha que isso é chato para a TV.

Eu concordo.

Ele acha que as massas não se importam com estratégia avançada.

Eu concordo (na maioria).

O desafio é equilibrar entre entretenimento e honestidade.

Se vocês continuam deixando os jovens gênios fora da TV, e levarem a audiência a acreditar que eles estão vendo tudo que há entre os melhores dos melhores, vocês estão mentindo para o público, e não estão sendo justos com os garotos. O ressentimento entre nossas gerações vai crescer.

Ainda assim, não é bom ter uma mesa cheia de garotos quietos.  O que vamos fazer?

Eu não tenho a resposta, mas espero que possamos pensar juntos para alcança-la.

Eles tentaram colocar mais estratégia avançada de poker nas transmissões, provavelmente numa tentativa de tornar os jovens gênios mais interessantes.

A audiência gosta de gênios. Eles gostam de ver talentos espetaculares. Entretanto, eles querem ver gênios que consigam entender.

Quando o detetive da TV explica como resolveu um caso, a audiência fica animada com a genialidade do detetive, e mesmo assim conseguem acompanhar tudo o que ele disse sem se sentirem estúpidos.

(Eu posso falar sobre isso como um membro da audiência. Quando eu comecei a assistir poker na TV, antes de começar a jogar, Dutch Boyd estava all-in e disse algo como ele ou outro cara ter 9 outs. Eu pensei algo como “wow, esse cara é esperto. É o inteligente da mesa. Eu gosto dele!”)

Eu acho que mostrar um pouco mais fundo o processo de pensamento dos jogadores é algo bom, mas precisa ser feito com cuidado. Explicar coisas mais avançadas para iniciantes de uma maneira que eles consigam acompanhar não é fácil. Se os caras produzindo os shows tem esse objetivo, restringir a maneira com que fazemos entrevista, como jogadores.

Eu já estive em entrevistas em programas de poker na TV onde eu estava lá para discutir estratégia. Eu sempre me perguntei quão avançado deveria ser isso. Pessoalmente, eu sou muito bom em explicar conceitos avançados para iniciantes, mas a cada vez eu me perguntava quão avançado deveria ser.

Agora, faz 3 anos desde que estive em um programa de cash game na TV, já que os programas não são mais feitos com tanta frequência. Eu provavelmente ignoro as instruções e falo no nível da audiência, mas não sabia disso naquela época.

Eu acho que o que precisamos para tornar os garotos mais interessantes é:

1) Deixá-los mais confortáveis

Deixem os jogadores se enturmarem almoçarem antes de filmar. Velha Geração, conversem com os garotos. Ensinem a eles sobre como estamos aqui para o bem do jogo e para entretenimento. Expliquem porque essa é uma ótima oportunidade para eles, e como isso não tem nada a ver com dinheiro que eles podem ou não ganhar na mesa.

2) Mais histórias pessoais nos programas

Quão profundas devem ser essas histórias, eu não sei.

Se vocês realmente querem tentar, filme os garotos nas casas deles. Entrevistem suas famílias ou amigos. Passem algum tempo entrevistando os garotos, e vocês conseguirão alguma coisa boa com ele.

A próxima geração não é tão extrovertida ou imediatamente divertida, mas eles têm personalidades… muitos deles têm personalidades muito interessantes. Vocês só precisam conhece-los – ou no caso de um programa, dar a eles a chance de se abrirem.

Eu entendo que a história de “transformou $50 em $1 milhão” é velha, mas tem mais coisas aí. Eu não lembro de ouvir histórias sobre como os caras da Velha Geração chegaram até os stakes onde estão agora. As histórias sobre eles na TV são mais pessoais, assim como devem ser as histórias sobre os garotos.

Novos formatos

O próximo problema é continuar divertindo as pessoas com a TV enquanto se dá oportunidades iguais.

Pensando rapidamente:

– O PokerStars poderia criar uma série de torneios online (200+ eventos) e então ter uns “playoffs” televisionados com buy-in alto (mais de $50 mil) ou torneio final onde mostrasse as estatísticas da “série regular” (audiências gostam de manter um placar), e os melhores 8-40 jogadores em pontos se qualificariam para os playoffs (se quisessem jogar). 50% do rake de todos os torneios online iriam para a premiação.

Isso poderia ser híbrido e ter metade do filme apenas com convidados e a outra metade se qualificaria através de torneios online. (Acrescentar dinheiro á premiação é extra importante nesse caso porque muitas caras interessantes poderiam não querer participar contra um field tão difícil sem patrocinadores para bancar).

– Algum tipo de votação da audiência para incentivar e recompensar que os jogadores sejam agradáveis. 3 mesas shootout 6 handed. Os top 3 jogadores avançam, junto com outros 3 escolhidos pela audiência.

Eu não acho que essas sejam as melhores ideias, mas apenas quero explicar como deveríamos estar discutindo abertamente maneiras de melhorar o jogo, de preferência com um corpo organizado de representantes de diferentes áreas do jogo (deixe-nos ser uma parte importante nas discussões).

Se apenas uma pequena parte de pessoas que pensam da mesma maneira tiver influência, eles terão objetivos próprios.

A questão é, a geração mais jovem pode e deve ser parte de um programa de TV bastante divertido (e potencialmente parte de mesas ao vivo mais divertidas) se nos esforçarmos.

A Nova Geração é cheia de garotos inteligentes, legais, honestos e agradáveis que têm integridade, bom espírito esportivo, uma inteligência louca e levam vidas que outros apenas sonham. Muitos deles são caras muito, muito divertidos que poderiam facilmente entreter uma audiência se tiverem uma chance real (e não uma pequena e intimidante oportunidade).

Realmente há potencial aqui, caras.

Além disso, não ouviram falar? Nerds estão na moda.

 

Este artigo foi originalmente publicado no blog de Phil Galfond em sua escola de poker online Run It Once e traduzido aqui com autorização.

 

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Historiador por formação, conheceu o MaisEV em sua primeira semana de vida, ainda em 2007. Em pouco tempo, tornou-se editor-chefe do site para fazer o que faz de melhor: escrever.

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