Quais São os Motivos Para Apostar no Poker? Parte 1: O Blefe

Por: 19/10/2015

No nível mais básico e fundamental possível, só existe uma razão para apostar: porque é + EV apostar do que não apostar. Qualquer aposta que apresente maior EV do que dar check (ou qualquer raise que apresente maior EV do que o fold) é uma “boa aposta”. 

No entanto, existem algumas maneiras diferentes de como uma aposta pode ser considerada como uma “boa aposta”. Nem todas as apostas geram EV da mesma forma, e neste artigo vamos demonstrar algumas das diferentes fontes de EV ao apostar.

Esta série de artigos falará dos seguintes motivos para apostar no poker: Blefe, Valor, Proteção, Equidade, e apostas com múltiplos objetivos. Nesta primeira parte, vamos destrinchar o blefe como um dos motivos para apostar no poker.

apostas poker0. Introdução

Há uma escola de pensamento que diz que existem apenas duas razões para apostar: por valor ou como blefe. Isto é baseado na ideia de que quando apostamos, queremos que o nosso adversário cometa um erro, e existem dois tipos de erros nossos adversários podem fazer ao enfrentar uma aposta: foldar quando não deveriam, e não foldar (pagando ou aumentando) quando deveriam desistir.

Não concordo com isso porque eu não acredito que o EV de uma aposta esteja sempre relacionado à intenção do apostador para o que acontece depois que ele aposta. Em outras palavras, não foldar a pior mão e foldar a melhor mão são os dois únicos erros que podemos induzir, mas uma aposta não precisa induzir um erro para ser + EV. Então vou descrever “razões” para apostar não o desejo de que algo aconteça, mas como uma aposta que pode gerar EV.

Em geral, quando eu estou tentando descobrir como uma aposta funciona, me pergunto duas coisas:

1. A aposta está gerando EV dos adversários que foldam ou pagam/aumentam?

2. A aposta está gerando EV dos adversários que reagem de forma incorreta?

Há 4 pares diferentes de respostas para estas perguntas, e cada par de respostas dá uma razão para apostar. Em todo caso, nem sempre está claro se um desses motivos é válido no momento, ou até mesmo se há mais de um motivo.

1. Apostando como blefe

Um blefe é qualquer aposta que gera EV ao fazer um adversário desistir de uma mão incorretamente. Por isso, gera EV de um oponente que folda, e gera EV de um oponente que age incorretamente.

Eu falei do blefe primeiro porque blefar teoricamente é razão mais simples para apostar. Nós temos uma mão que não esperamos vencer no showdown e queremos ganhar o pote assim mesmo fazendo uma mão melhor foldar. Então nós apostamos e esperamos que nosso oponente desista pensando que temos uma mão melhor.

Um ponto importante sobre o blefe, ilustrado no livro em No Limit Hold’Em: Teoria e Prática, é que idealmente, os melhores blefes tem dois componentes:

1. Têm como alvo um range de mãos. Obviamente você nunca vai fazer ninguém foldar o nuts, mas se você acha que o oponente tem o segundo, terceiro par ou qualquer outra coisa, há uma chance desistam diante de uma aposta.

2. O tamanho “correto”, ou seja, você faz a menor aposta possível para que seu oponente desista do range que você busca. (Isso não significa que blefes são sempre apostas. Dependendo da situação, é possível que a menor aposta para que ele folde seja muito de um valor muito alto!)

Isso é quase tudo que temos para dizer sobre blefe, mas há alguns poréns. Um deles é que você pode apostar, o oponente pagar ou aumentar, e então a sua próxima aposta ou raise recebe um fold. Nesse caso (supondo que você não tenha a melhor mão), a sequência de apostas está gerando o EV do seu oponente fazer um fold incorreto, então toda a linha conta como um blefe. Mas isso é uma exceção a regra de que o tamanho de aposta “correto” é o menor possível para cumprir o objetivo contra o range dele. Desde que você consiga fazer a segunda aposta do tamanho correto, você pode ter aumentado seu EV ao apostar mais do que o “necessário” da primeira vez, pois construiu um pote maior, e folds ruins são erros maiores em potes maiores.

poker blefe

Blefe puro vs. Semi-Blefe

Em qualquer momento que apostarmos antes do river, normalmente haverá uma pequena chance (às vezes muito pequena, outras vezes um pouquinho maior) de que nossa mão se torne a melhor mão antes do showdown. Entretanto, às vezes não há essa chance – seja porque já estamos no river, ou porque a mão do nosso oponente é tão forte (ou a nossa tão fraca) que estamos drawing dead. Sempre que eu blefo em uma situação onde tenho 0% de equidade contra a mão do meu oponente, considero que estou fazendo um blefe puro. É um blefe “puro” porque fazer meu oponente desistir da melhor mão é literalmente a única maneira que posso vencer nesse caso. Um semi-blefe é quando você gera EV com um fold ruim do seu oponente, mas se ele não foldar, você ainda pode melhorar e ficar com a melhor mão.

Por exemplo, se o board é J52 com um flush draw, e você quer aumentar para blefar contra um oponente, é melhor que você tenha um flush draw com 9 high do que não ter absolutamente nada como 76 sem flush draw. O motivo é que em qualquer caso, seu blefe tem as mesmas chances de conseguir o fold, mas se não funcionar, você pelo menos pode vencer às vezes ao fazer um flush.

O problema é que às vezes as pessoas levam isso longe demais. Frequentemente pensam que quando elas têm um draw, devem jogar agressivamente porque não querem foldar mas querem ser agressivas. Elas esquecem do semi-blefe. Quando estou semi-blefando, meu objetivo é obter o fold. Construir um pote com pouca equidade e fazer a melhor mão é um plano reserva. A decisão de fazer ou não um semi-blefe com um draw deve se basear primeiro em quão forte ou fraca você acha que é a mão do seu oponente, e não em quantos outs você tem ou qualquer outra coisa relacionada à força da sua própria mão. Uma coisa é você jogar contra oponentes que são bons o suficiente para que você precise randomizar seus blefes baseado na sua mão; mas eles quase não existem nos limites mais baixos. (Claro que também é possível que, a quantidade de vezes que você recebe um fold, combinado com a quantidade de vezes em que você vence no showdown, façam com que um semi-blefe seja +EV; mas até mesmo neste caso você não pode tomar essa decisão a menos que tenha uma boa ideia da frequência com que seu oponente vai foldar. Aplicar um semi-blefe sem saber ou pelo ter ideia dessa informação e uma má jogada).

Esse mesmo problema também pode afetar blefes puros. Um exemplo é quando um jogador tinha um draw que não se completa no river e o oponente dá check (ou ele é o primeiro a agir). É tentador pensar que você deve blefar aqui porque “você não pode vencer ao dar check”. O problema é que, se você não levar em consideração o que o seu oponente pode ter, você está jogando dinheiro fora. Só porque você não pode vencer ao dar check não quer dizer que você vai vencer ao apostar! Às vezes você não vai vencer de jeito nenhum, mas vai perder ainda mais ao blefar.

Isso é o que temos para dizer sobre o blefe em relação às razões teóricas para apostar. É importante falar disso porque é uma das maneiras que podem levar um jogador ao erro, especialmente jogadores inexperientes de limites baixos.

Este texto é uma tradução livre do artigo Concept of The Month: Reasons for Betting.

 

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Historiador por formação, conheceu o MaisEV em sua primeira semana de vida, ainda em 2007. Em pouco tempo, tornou-se editor-chefe do site para fazer o que faz de melhor: escrever.

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