Poker Live no Brasil

Por: 25/11/2011

Minha volta aos panos se deu de uma maneira diferente, quando fui convidado pra comentar a última etapa do Circuito Paulista de Holdem pela TV Mebeliska e achei que era uma boa ocasião pra voltar de cabeça no poker. Foram 4 dias de muito jogo, análise de mãos o tempo todo, foram praticamente quatro dias competindo, uma imersão que serviu pra voltar a cabeça pro poker de maneira definitiva.

Aproveitei o feriado prolongado e fui jogar um torneio regular de um clube de São Paulo e conferir se minhas habilidades ainda estavam em dia. Diferente do online, o jogo live evolui de maneira muito lenta, então esse tempo fora dos feltros não me prejudicou em nada, fiquei muito contente com o nível do meu jogo.

Vou aproveitar esse artigo pra falar como o poker no Brasil evoluiu. Minha primeira experiência com poker foi em uma casa no Guarujá com uma mesa de Pot Limit Holdem, quando os jogadores pediam rolava um sit go. Era praticamente uma sala, com apenas um dealer que dava cartas por mais de 12 horas seguidas.

Voltando a SP, conheci o Paradise e embora fosse uma casa muito grande, a estrutura deixava muito a desejar. Os torneios de poker eram sem dealer, com blinds de 20 minutos – até hoje eu desconfio que o relógio era acelerado, os funcionários faziam de tudo pra acabar rápido – com um formato ultra turbo. As informações eram passadas por um funcionário, que hoje faria o papel de um floor de torneio. Não existia muito controle das inscrições e dos rebuys.

Os cash games eram um pouco mais organizados, mas os valores jogados eram bem diferentes. Existia apenas uma NL200 em que o buy in máximo era de $300. Na época era um valor alto, o jogo mais caro ao qual eu tinha acesso era uma NL1k em que se sentava com $2k de frente, era um valor absurdo de alto.

De domingo, havia o torneio da pizza um $50 com rebuy, sem addon, com um field médio de 80 jogadores, era o maior torneio regular da época e pagava algo em torno de $2k pro primeiro colocado.

Passados 5 anos, a estrutura que temos no poker hoje era impensável naquela época. Ainda temos o torneio da pizza em algumas casas, virou tradição, mas a semelhança fica por ai. Foi esse o torneio que eu escolhi pra voltar ao feltro e foi engraçado comparar as duas situações. Tivemos um field de mais ou menos 120 jogadores, mesas com dealers, telão, floor, informações precisas, mesas oficiais, resumindo uma profissionalidade que demonstra em que nível se encontra o poker no Brasil atualmente. Pra mim e outros jogadores profissionais e recreativos que estão desde esse comecinho é como ver a história sendo feita.

Em duas semanas teremos no Brasil o que promete ser a maior evento de poker de todos os tempos, a última etapa do BSOP. Com vários eventos paralelos e uma estrutura que não deve nada a nenhum torneio de poker no mundo, ouso dizer que em termos de organização já podemos ensinar alguma coisa aos gringos.

A criação da ADTP foi um passo muito bem dado e a seriedade com que a galera olha pras regras do nosso jogo, torna nossa experiência como jogador muito melhor.

Pra eu não ficar apenas no saudosismo, algumas dicas importantes pra quem deseja jogar algum evento grande ou mesmo o simplório torneio da pizza (que de simples já não tem muita coisa, pra nossa felicidade).

Tecnicamente

O jogo live é muito diferente do online, tudo acontece de maneira mais lenta, o dealer é humano, os jogadores tem muito mais tempo pra pensar, o que significa que você jogará muito menos mãos por hora. Não se afobe quando o stack estiver entre 10 e 15 big blinds porque no poker ao vivo isso não significa desespero. Observe com atenção o momento de arriscar.

Jogadores de live são muito mais honestos, a leitura de mão é muito mais simples e geralmente o jogador vai ter o que a linha dele demonstrar mesmo. Cuidado pra não entrar em level, geralmente o mais óbvio vai estar certo.

Não banque o Phill Helmuth, o field é muito diferente do online, algumas mãos simplesmente não vão fazer o menor sentido, não fique dando aula na mesa. Guarde a informação pra você.

Regras

Um erro comum de qualquer jogador, do mais inexperiente ao profissional, é não saber as regras do jogo. Chega a ser engraçado quando um jogador comete o erro mais tosco possível e ainda quer argumentar que não sabia, muitas vezes é aquele tipo de jogador padrão, com óculos escuros, Ipod e blusa com capuz, que faz altos malabarismos com a ficha, mas não sabe uma regra simples. Comparando com o futebol, seria como chegar um jogador no time, com aquela pinta de boleiro, com todo material esportivo da melhor qualidade, no aquecimento faz firulas com a bola e tudo mais. Quando o juiz apita ele pega a bola com a mão e sai correndo, quando toma o cartão ainda reclama que não sabia que futebol é jogado com o pé, imagina a vergonha. Pra não passar esse carão, atente pra algumas dicas.

Em toda mão, apenas um jogador é obrigado a dar showdown. Se não houver aposta no river, o primeiro a falar é obrigado a abrir as cartas, na sequência os jogadores podem escolher o muck ou abrir as cartas, mas o showdown não é obrigatório. Se houver aposta no river, a ordem da abertura das cartas é pelo jogador que fez a aposta. Os jogadores seguintes, pela ordem de posição, abrem as cartas se quiserem. Muitos jogadores pediam showdown de um jogador que escondia as cartas visando à informação, a possibilidade de pedir showdown era apenas pra se evitar collusion, não pra informação do jogador. A ADTP atenta a isso estipulou agora que o pedido de showdown pode ser feito apenas uma vez, solicitando a presença do floor ou do diretor do torneio.

A partir do momento que foi dada as cartas, é proibido usar o celular. A pena pra quebra dessa regra é o fold instantâneo da mão, não importando a situação em que se encontre o jogador. Pra evitar isso, desligue o celular, ou saia da mesa se for inevitável a ligação.

Não se levante da mesa antes da sua vez de falar. Às vezes temos necessidade de sair da mesa e é comum alguém já olhar suas cartas antes pra já sair da mesa e não esperar a ação chegar em você. Isso atrapalha o andamento da mesa e pode influenciar na ação dos jogadores, que podem decidir dar um raise vendo que tem um jogador a menos na mesa. A punição é uma advertência na primeira vez, a segunda é punida com suspensão de uma mão ou uma volta fora.

Não mostre suas cartas pro jogador ao lado, porque uma vez mostrada pra um jogador a mesa inteira pode ver o jogo.

Existe uma regra nova que proíbe a conversa durante uma mão. Evite dar falinhas ou ficar fazendo perguntas pro seu adversário pra conseguir informação. Você tem todo o direito de reclamar pro dealer se o outro jogador fizer o mesmo com você.

Sempre fale o valor da aposta antes de colocar as fichas, porque vale o que você falar e isso evita que o dealer interprete errado o valor das suas apostas. Um exemplo típico é dar raise sem falar nada, vamos supor que seu raise seja de 3 mil e você sem fichas de 1k solta uma ficha de 5k sem falar nada. Isso significa que você deu apenas limp. Em outro exemplo, o jogador imagina dar raise pra 1.5k e pra facilitar faz a aposta com duas fichas, uma de 5k e outra de 500, se ele não falar nada o raise dele será de 5.5k. Pra evitar esses problemas, fale o valor da sua aposta antes de colocar as fichas na mesa, dessa maneira mesmo que você erre a cor das fichas, o que valerá ainda é o seu anúncio.

Proteja suas cartas, use um protetor de fichas e na impossibilidade disso, use a ficha de menor valor do seu stack. Toda vez que a ação chega a você o dealer deve retirar suas cartas se você não estiver segurando ou se não tiver um objeto em cima. Já vi jogador ficar revoltado com o dealer por ter AA e ficar pensando sem a mão nas cartas. Essa regra visa o bom andamento do jogo o dealer está lá apenas cumprindo as regras, discutir não fará a regra mudar.

Com essas informações, você já terá uma vantagem sobre os jogadores e evitará fazer papel de bobo ao questionar uma regra do jogo.

Caso tenha alguma dúvida me contate pelo Twitter @JoseIrineu

Um abraço e até o próximo artigo!


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