Pensando um Nível Acima – Parte III

Por: 23/12/2008

Mais uma vez ressalvo que estou focando em jogadores que tem uma noção boa do jogo, regulares de middle stakes que usam frequentemente a continuation bet como uma arma no flop. A maioria desses bons jogadores dao continuation bet em torno de 60-75% das vezes.

Assim como no último artigo vou dividir este em 2 partes, na primeira vou comentar quando o oponente opta por nao dar uma continuation bet em uma situação boa pra cbet, e na segunda quando ele não da a cbet em uma situação ruim para tal.

1 – O oponente não deu uma c-bet em um board/situaçao boa pra dar continuation bet

Já exemplifiquei situações boas pra continuation bet na segunda parte da série, que são boards bons, contra 1 jogador, entre outras.

Regulares bons sabem que boards do tipo K74, A55 entre outros A-K-Q high são bons pra dar continuation bet, pois são boards que erram muito o range do oponente e tem 1 high card que assusta pois está sempre no range de um jogador que abriu o pote dando raise pré-flop. Quando um regular pede mesa nesse tipo de board enfrentando um oponente, ele vai estar quase sempre controlando o pote com alguma mão que tenha valor, principalmente se ele fizer isso em posição.

No board K74 por ex. Ele provavelmente fará isso com KX fracos, 7X e middlepairs (88-QQ). Partindo disso podemos adotar uma estratégia perfeita.

A primeira coisa é que você de forma alguma irá betar o flop ou turn pra dar check nas outras streets. Ou fazer um semi-blefe com draw pensando em desistir da mão se não acertar a draw. Se você tem 56 por exemplo em posição no board K74 e o oponente abre de check, você não irá apostar pra dar check behind no turn e desistir da mão no river. Ou você define um plano pra jogar ela agressivamente ou decide pegar a freecard. Nesse exemplo do 56 temos um spot excelente pra 3barrel. Outra boa opção é ganhar a freecard no flop com a intenção de dar raise na aposta dele no turn, apostando forte no river novamente caso ele dê call.

Fora de posição quando o oponente da check nesse board o que eu mais gosto de fazer é dar um check/raise no turn, e shove river. Sabendo que o oponente tem uma mão média com valor ele dificilmente vai pagar uma linha forte dessas com uma mão que serve apenas de bluffcatcher. Outra opção é dar bet turn e bet river, mas aí suas apostas tem que ser fortes, principalmente no river, podendo até ser um overbet, porque se você der odds bons pra ele no river ele provavelmente vai pagar sua aposta.

Mas uma vez, o mais importante aqui é adotar um plano agressivo pra mão e jamais dar bet em uma street com intenção de desistir facilmente da mão em outra. O oponente tem uma mão média, que vai oferecer leve resistência e ele precisa ser precionado pra sair da mão.

Detalhe que em 3bet pot a figura muda um pouco pois a relação do stack efetivo de cada jogador e o pot é diferente, já sendo mais comum slowplays e c/r com draws. Sem contar que muitas vezes em 3bet pot o oponente tem uma mão média mas já decide que vai até o final com a mão, dando check apenas pra tentar ganhar mais valor de mãos piores.

Um note importantíssimo é exatamente este: se o oponente costuma fazer pot control, se ele faz slowplay nesse tipo de board ou se ele desiste da mão facilmente indo até de check/fold nessas situações. Isso ajudará bastante a tomar decisões futuras quando você entrar nessa situação novamente.

2 – O oponente nao deu uma continuation bet em um situaçao ruim pra dar continuation bet

Aqui temos 2 opções: ou o oponente ta em um board ruim pra dar cbet (board do tipo 467), ou ele ta em um pot multiway.

Primeiro vou exemplificar o caso de um board ruim do tipo 4s6h7h. Quando um regular bom e agressivo abre de check nesse board e você não acerta esse board você deve apostar sempre. Não seria exagero dizer que em 90% das vezes o oponente vai foldar e desistir da mão. É muito raro oponentes tricky suficiente pra abrir c/r nesses boards com overpair, só se o oponente for extremamente bom e tiver focado no metagame contra você pra isso acontecer. É um leak muito comum em middlestakes os regulares sempre apostarem esses boards com carta e desistirem quando não tem nada. E quando vão de check/call provavelmente tem uma mão do tipo A4s, A6s, ou um 77 em board 348, e também são forçados fora da mão facilmente em outras streets.

Por outro lado, quando você tem uma mão forte e o oponente abre de check nesses board você pode dar uma freecard. Mesmo sendo um board com muitas draws, dificilmente o oponente não apostaria caso tivesse um draw. Nesse board a maioria dos regulares apostam com overpairs, flushdraws e draw + par. Entao se você tem um set por exemplo e ele abre de check não é ruim dar check behind pra ver se ela acerta 1 overcard no turn. Claro que muitas cartas em teoria “matariam” sua açao na mão, mas o problema é que um regular agressivo quase nunca tem um draw nessas situações e quase nunca tem uma mão forte pra dar check/call ou check/raise fora de posição. Ou seja, como ele está abrindo de check, ele provavelmente vai de check/fold e muitas vezes você pode dar uma free card pra tentar ganhar valor com sua mão em streets futuras.

Outra situação em que o oponente não vai dar uma continuation bet a toa é um pot multiway. Neste caso é ruim dar freecards com uma mão forte já que você estará enfrentando muitos oponentes, e eu aconselho apostar quase sempre que tiver carta.

Blefar em pots multiway é mais complicado do que em pots 1 contra 1, porque é mais provável um dos oponentes ter acertado um jogo. Todo caso quando você aposta em um pot multiway os oponentes costumam dar muito mais crédito pra sua aposta e existem algumas situações boas pra blefar quando o jogador que abriu pré-flop resolveu dar check.

Veja a seguinte mão de nl1000:

UTG raise 30, CO call, você no button decide dar call com 6c7c e o SB também da um call.

Flop 3s4hJs, SB check, UTG check, CO check.

Mesmo sendo um pot multiway, este é um excelente spot pra roubar. O check do UTG quase sempre significa que ele está desistindo da mão. E o CO provavelmente apostaria se tivesse uma madehand, pois sabe que o board tem algumas poucas draws e o agressor inicial pré-flop na mão já falou e resolveu não apostar. Assim sua única preocupação é o small blind ter feito um set com 33 ou 44 e um blefe aqui será suscetível muitas vezes. Fora isso ainda temos um gutshot.

Outro bom exemplo é a mesma situação, mas no caso você é o SB, o button resolveu dar check no flop e dobra um valete. Você pode largar apostando forte no turn boa parte das vezes, pois dificilmente um dos 3 jogadores tem um jogo feito, e quando você receber call será muitas vezes um middlepair ou um draw que você consegue blefar em muitos rivers.

Finalmente, um note importantíssimo é exatamente saber se o oponente é um oponente “straightfoward” (que joga sólido, o arroz com feijão) ou tricky (que varia bastante as jogadas, é mais imprevisível, etc). Como falei você pode explorar bastante os jogadores straightfoward nessas situações, colocando eles sempre em mãos “médias” com valor quando eles não dão uma continuation bet em um board bom pra cbets, e podem colocar eles em mãos fracas quando eles não apostam em boards ruins pra cbets. Com isso você pode explorar facilmente eles, enquanto que os oponentes mais tricky você terá que ser mais cauteloso.

Mas uma vez, qualquer dúvida sobre o artigo, qualquer dúvida técnica, ou de termos utilizados, ou se quiserem discutir mais o tema, é possível postar na seção Comunidade MaisEV do fórum que teremos um tópico específico pra discutir o artigo e estarei sempre de olho nele.

Ivan “RoyalSalute” Santana

Se você tiver dúvidas sobre os termos utilizados neste artigo, veja nosso dicionário de termos de poker.

Historiador por formação, conheceu o MaisEV em sua primeira semana de vida, ainda em 2007. Em pouco tempo, tornou-se editor-chefe do site para fazer o que faz de melhor: escrever.

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