O Atraso de Decisão e a Ideia De Que Nem Toda Perda é Uma Crise

Por: 02/10/2013

Como este é meu primeiro artigo para o MaisEV, antes de começar quero me apresentar para que saibam bem de quem irão ouvir conselhos.

Sou um jogador vencedor, mas ainda longe de ter números expressivos. Sou, como muitos aqui, um operário do poker.

Histórico

A primeira vez que joguei Texas Holdem foi em 2006 e me apaixonei. Basicamente parei de fazer tudo o que estava fazendo pra aprender esse jogo. Em 2007 comecei a jogar online numa conta do PartyPoker na qual eu e mais alguns amigos da faculdade depositamos $25 dólares algumas vezes e conseguimos investir alguns milhares. Não lucrar, obviamente.

Logo vi que não dava certo jogar com outros jogadores opinando, e como transferências e saques eram algo complicado no Party migrei para o Full Tilt, site que impulsionou meus sonhos por quase 3 anos e meio, até 2011 e a Black Friday. A sequência de notícias que tomou lugar na época me deixou decepcionado com o FTP e frustrado por todos os jogadores e seu doce dinheirinho preso. Eu ouvi e acho que acreditei nos rumores, pois bustei meu BR dois ou três dias antes da Black Friday.

Como já era regular do cash game e dos torneios do H2 Club, nessa época só me restou o live. O PokerStars em seguida consolidou sua credibilidade e liderança de mercado pagando todo mundo, e então comecei nele pra valer, pois até então tinha apenas alguns poucos jogos.

Foi um ano de adaptação, jogando micros e ainda assim com ROI negativo. Eu estava acostumado com o software, field e estruturas do Full Tilt, e por mais que tomasse muito mais bad beats no PS (pois a minha impressão é que eu ia muito mais pro showdown lá), simplesmente não conseguia aceitar o fato de que eu havia migrado para um site muito mais competitivo. E também fiquei devendo em volume naquele ano, algo que consegui mudar em 2012, quando deixei minha conta no azul.

Em 2013 venho fazendo um ano de razoável para bom, segundo o OPR à frente de 99,84% dos jogadores. Também ocupo a 87ª posição no ranking brasileiro da PocketFives (em 30 de setembro), mas por outro lado – e poker tem dessas coisas – estou breakeven desde maio, com algumas downswings pelo caminho.

De qualquer modo venho estudando os gráficos de jogadores que jogam níveis parecidos com os meus e tenho conseguido me manter muito motivado. Sou jogador do Steal Team desde junho de 2012, time do qual tenho muito orgulho de fazer parte.

Nicknames: FullTilt – SauloTheDino, PokerStars – DinoTheSaulo

Dados do OfficialPokerRankings em 30 de setembro de 2013:

MTTs (FullTilt+PS): 16.995

Avg Buy-in: $14

Prizes: $269,727

Profit: $32,306

Roi: 14%

 

O Atraso de Decisão e a Ideia De Que “Nem Toda Perda é Uma Crise”

Os conceitos acima são de negócios. Atrasar uma decisão numa negociação pode melhorar a sua taxa de ganhos ou gerar uma economia. Todo bom negociador sabe que não deve ser o primeiro a mostrar a mão.

Para alguém que compra e vende na bolsa, entender que nem toda perda significa uma crise pode ser o divisor de águas entre uma carreira bem ou mal sucedida. Assim também penso que é no poker.

Às vezes tomamos uma decisão apressada com medo de perder o timing da jogada. Ora, se for para melhorar a qualidade da decisão, dane-se o timing!

Outro exemplo que envolve atraso de decisão e a ideia de nem tudo é crise é a seguinte jogada hipotética:

Torneio: Big $109 do PS – Blinds 50/100 Antes 10

– Um jogador regular small winner com 3.100 de stack abre mini raise de MP+1 após ter ganho a mão no BB em BW e foldado os utgs. Ele entrou na mesa nessa órbita.

– Todos foldam até Caio Pessagno no BTN que com stack de 3.600 dá call. Pessagno está na nossa mesa desde os blinds 30/60, e já nos ganhou dois potes pequenos sem showdown.

– Nós estamos no small com stack de 1.950 e par de 66.

– O big blind é um reg donkey com 4.000 de stack.

Esse é um típico exemplo em que o atraso de decisão e o conceito de que nem toda perda é uma crise devem nortear as decisões. Alguns jogadores superagressivos gostam de shovar nesse spot. Mas, será?

Eu concordo que em algumas situações de maior pressão financeira, como as bolhas do ITM e da FT, o shove seja a jogada a se executar com mais frequência, considerando que o range do open raiser nessa situação é bem mais wild e que o Pessagno fleta muito broadways no BTN com esse stack.

Mas aqui, no blind 100, num dos torneios mais caros da grade, sem muitos motivos pra acreditar que o open raiser está light, com a chance de jogar por uma trinca num pote 3 ou 4-way com odds imediatas de 4,3:1, podendo virar quase 5:1 caso o BB dê call, e implied odds gigantes quando acertamos a trinca, eu vou prorrogar a decisão difícil, e entender que se eu errar o flop e sobrar com 1,800 fichas não quer dizer que estou ferrado ou que joguei mal. Devo estar consciente de que pequenas perdas fazem parte da minha estratégia.

Um pouco da matemática por trás desse raciocínio é a que segue: minhas chances de fazer uma trinca são de 1 em 8, então por 7 vezes eu espero perder 150 fichas na mão = 1050. Na oitava eu vou acertar e ser o grande favorito pra ganhar a mão. O pote tem 640 fichas, ou seja, precisamos assegurar no mínimo mais uma aposta de 410 fichas para a jogada ser break-even. Com certeza extrairemos muito mais do que isso, o que equilibra o fato de haver uma pequena chance de squeeze do BB. Com boa frequência iremos garantir uma dobrada em cima do open raiser, outras vezes dobraremos em cima do Pessagno, e isso no meu modo de pensar justifica essa proposta mais “cautelosa”. *Dica: jamais dê fold nesse 66.

É isso pessoal, apenas dois conceitos que têm me ajudado a enxergar por outro prisma, e que podem ser aplicados em diversos momentos do jogo. Espero que tenha ajudado alguns de vocês. GL e até a próxima!

 

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