Jogando Stacks – Parte 2

Por: 28/08/2009

No artigo passado, discutimos conceitos básicos sobre pressão. A minha idéia era simplesmente fazê-los pensar um pouco mais sobre quando utilizar-se de forma adequada da agressividade em momentos oportunos, os quais nos são oferecidos dependendo principalmente do estágio em que um torneio se encontra.

 

Neste artigo, porém, vou mais além do que falar sobre simplesmente sobre pressão. Pretendo esclarecer finalmente algo que, em minha opinião, é o alicerce de torneios (e também o motivo pelo qual estou escrevendo este artigo): Jogar Stacks.

Lembro-me como se fosse ontem. Estava eu numa mesa final de um torneio de $129 dólares no Full Tilt e à minha direita sentava-se o melhor jogador da mesa, e um dos melhores do mundo em torneios online na minha opinião: magikstick8 ou Bdbeatslayer no PokerStars.

Eu era o chip leader da mesa e tinha um dos melhores seats tendo ele na minha imediata direita. Na época eu não fazia idéia do que seria jogar stacks (lembrando que todos os conceitos que tratarei aqui sobre o assunto não foram extraídos de nenhuma outra fonte senão de minha própria experiência), mas pude perceber claramente que eu estava muito incomodado com o magikstick8 na minha direita. Ele estava jogando de forma muito agressiva e eu simplesmente não sabia como contra-atacar as investidas dele. Sem muitas surpresas, ele faturou o torneio e eu saí da mesa me sentindo, digamos, violentado.

Mais tarde fui rever essa mesa final para tentar entender por que razão eu fiquei tão sem ação durante aquela mesa final (boa parte era também que eu não tinha a experiência que tenho hoje, mas vamos desconsiderar isso para entendermos melhor o raciocínio). Foi então que comecei a perceber que o meu stack (e não necessariamente o dele) era o principal motivo pelo qual não eu conseguia reagir diante os aumentos que ele fazia para roubar os blinds. Esse pra mim foi um daqueles momentos “Á-HÁ” do poker, senão o maior deles.

Como todos sabemos, no poker algo que conta muito é a questão do timing. Às vezes fica claro quando um jogador está contra-atacando você com mãos muito piores do que a força que ele está representando. E o primeiro problema que enfrentei nessa mesa final foi esse. Ele sabia que em qualquer momento eu estaria disposto a contra-atacar as investidas dele e, obviamente, eu sabia que ele sabia disso.

Com isso acabei me segurando um pouco mais do que deveria e meu stack foi diminuindo gradativamente, até que cheguei a ficar em torno da média, na casa dos 30bbs. Foi aí que começou todo o meu aprendizado de como jogar stacks.

Foi quando meu stack chegou nesse estágio que percebi que enfrentava o maior de todos os desconfortos. Toda vez que magikstick8 abria um raise para roubar os blinds (lembrando que ele estava na minha imediata direita, logo ele sempre atacava meus blinds), todas as minhas opções com esse stack eram as piores possíveis pois já que mãos fortes não vinham eu teria que usar da agressão para revidar os ataques do meu adversário. 3bet seguido de fold era a pior opção de todas, uma vez que dando o 3bet provavelmente eu estaria commited com o pote e dar fold após investir 1/3 do stack estaria (e deveria estar na imensa maioria dos casos) fora de cogitação. 3bet all in com uma mão marginal (lembrando mais uma vez que essas jogadas são todas levando-se em consideração que não estou recebendo mãos boas já que quando isso acontece todo mundo sabe o que fazer) por 30bbs era também muito ruim pela questão do risco x retorno. Call para jogar fora de posição num pote que poderá, já no flop, representar quase 20% do meu stack também era muito desconfortável, ainda mais jogando contra alguém muito melhor que você. Bom, a essa altura vocês já devem ter deduzido qual era a minha opção na grande maioria das vezes.

Depois de rever essa mesa final, e a forma como eu não conseguia reagir contra as investidas do meu adversário porque o meu stack me deixava sempre opção de ruins a péssimas foi quando pensei comigo: “Ok, vou fazer o mesmo então daqui para frente contra meus adversários”.

Mas fazer o quê exatamente? Fazer contra eles o mesmo que o magikstick8 fez naquela ocasião. Roubar blinds? Obviamente que não. Isso todo mundo sabe fazer. Mas causar desconforto. Criar situações para meus adversários onde, uma vez que eles não tenham uma mão boa (pois ai fica obviamente fácil), eu faça com que as opções deles sejam ou poucas, ou desconfortáveis.

Para deixar isso mais claro, vou tentar exemplificar utilizando algumas mãos como exemplo. Como postar todas as mãos aqui seria algo inviável, coloquei algumas delas num replayer, com isso vocês podem visualizá-las e em seguida acompanhar meu raciocínio sobre elas no decorrer do artigo.

http://www.pokerxfactor.com/HH198582/5464_20090807_103840

Observação importante:

Eu não sou um jogador “matemático”. Muitas dessas mãos podem sofrer facilmente argumentações de que não são jogadas lucrativas no longo prazo e acho extremamente interessante que vocês tenham essa visão crítica e não simplesmente venham a absorver algo como sendo uma verdade. No entanto, os fatores que me levaram a jogar essas mãos de tal forma foram bastante pontuais e precisos, como a minha imagem na mesa no momento da jogada, as reações que espero dos adversários de acordo com a imagem que tenho de cada um deles na ocasião e o timing. Portanto, fiquem completamente à vontade para criticar tais jogadas (principalmente levando-se em consideração as mãos fracas que utilizei), mas tenham em mente que esses (e outros que listarei mais adiante) foram os motivos pelos quais optei tomar tais decisões.

A seguir vamos ver a situação de algumas delas (apenas para absorver a idéia) e como os tamanho dos stacks dos meus adversários podem justificar tais jogadas.

Mão 1

– stack 1 = 76bbs*

– stack 2 = 33bbs

– stack 3 = 22bbs

– stack 4 = 64bbs (SB)

– stack 5 = 13bbs (BB)

* números aproximados dos stacks que ainda não agiram.

Blinds: Nessa mão os blinds são 2 bons jogadores, portanto eu não espero que nenhum deles (especialmente o BB que está bem short) jogue um flop fora de posição contra mim.

Stacks grandes (76 e 64bbs): Um deles está nos blinds como citei, e o outro está na minha imediata esquerda. Um call dele ali é bastante improvável, pois estou dando raise de UTG e ele pode levar um squeeze dos demais stacks atrás se optar pelo call. Sem contar que a minha posição representa força.

Stacks restantes (33, 22 e 13bbs): Conseguem perceber a situação desconfortável em que cada um deles se encontra? O menor deles (inclusive o melhor jogador da mesa) tem apenas duas opções. All in ou fold. O stack de 33bbs está numa situação desconfortável para dar call, pois além de poder levar um squeeze ele não terá muitas opções no pós-flop pelo stack limitado que tem. O stack no BTN de 22bbs está na mesma situação que o BB praticamente. Call é péssimo (a não ser que seja um AA), pois sua situação no flop será extremamente desconfortável.

Mão 2

– 2 folds

– stack 1 = 10bbs

– stack 2 = 28bbs

– stack 3 = 16bbs

– stack 4 = 15bbs

– stack 5 = 13bbs (SB)

– stack 6 =16bbs (BB)

Esse é um ótimo exemplo. O maior dos stacks para falar depois de mim é o melhor dos jogadores restantes ainda para agir, 8fivesuited. Com o stack que ele tem, muito dificilmente ele estará pagando o meu raise para ver um flop comigo, pois a relação pot x stacks restantes torna a situação bastante desconfortável para quem é o caller da mão.

Já os demais stacks da mesa praticamente não possuem outra opção a não ser all in ou fold, correto? Mais uma vez, reparem na situação desconfortável em que se encontram.

Não vou falar das demais mãos em que levei os blinds, pois com certeza vocês já conseguiram captar a idéia. Porém, reparem que nas três últimas mãos eu perdi todas. Mas perdi todas elas de uma forma bastante simples, com o mínimo de variância (a partir do momento que eu decido jogar a mão, claro), onde o que eu esperava era justamente o que aconteceu (não ver um flop).

Mas qual o motivo de eu adotar esse tipo de estratégia, onde simplesmente as cartas não importam? Por um motivo simples:

Você não pode dar raises apenas com mãos que você dá call em 3bet all-in, quando os stacks atrás possuem “somente” a opção de all-in ou fold

E por que você não pode dar raises apenas com mãos boas o suficiente para pagar o all-in dos jogadores com baixo stack? Porque você se tornará um jogador muito explorável se fizer isso. Jogadores atentos vão perceber que você está jogando apenas com mãos muito fortes e com isso podem jogar um poker perfeito, quando o que você realmente quer é que seus adversários cometam erros (o poker, antes de mais nada, é um jogo onde vence quem errar menos).

Condições para se aplicar o “Jogando Stacks”.

Como você está jogando com mãos muito fracas em situações como essa, tudo o que você não quer é ver um flop com elas. Logo, esse tipo de arma no seu arsenal deve atender a algumas condições específicas para que seja aplicada da forma mais lucrativa possível, tais como:

1.      Encontrar-se num estagio mais avançado do torneio, quando os antes já estão em jogo e quando os stacks médios também já se encontram na casa dos 30bbs;

2.      Não haver calling stations atrás de você, pois são esses jogadores que pagam muitas vezes para ver flops;

3.      Ter uma imagem não muito ruim, pois dessa forma seus aumentos terão uma taxa de sucesso cada vez menor;

4.      Stacks em torno de 17-25bbs (os chamados resteal stack) ou até mesmo 30bbs no caso dos blinds.

5.      Jogadores relativamente bons. Reparem que na frase centralizada/itálico acima, eu coloquei entre aspas a palavra “somente”. Quando digo que seus adversários possuem somente a opção de all in ou fold, é porque é exatamente isso o que eu espero deles. Ou seja, eu preciso saber com muita precisão quais serão as reações dos meus adversários na grande maioria das vezes. E jogadores bons não pagam aumentos para ver flop quando possuem stacks por volta de 20bbs pois eles conseguem prever a situação desconfortável em que se encontrarão no flop devido ao tamanho do pote comparado com seu stack restante, resultando em muita pouca manobra no post-flop. Além disso, bons jogadores estão mais atentos, logo poderão vir a respeitar mais seus aumentos dependendo da posição em que você se encontra e sua imagem.

6.      De preferência não utilizar em posições que chamamos de steal position ou, mais precisamente, o CO, BTN e SB. Nessas posições, os resteal stacks estarão muito mais propensos em contra-atacar, tornando sua jogada menos lucrativa. Quanto mais avançada a posição, maior a possibilidade de você sofrer um resteal.

Reparem no link dos nossos exemplos, as posições das quais eu me utilizei para jogar stacks. Em apenas uma delas eu estava em late position (CO) e que por sinal eu tive que dar fold para o all in do meu adversário. Nas demais sempre estava em MP ou EP. Porém evito fazer esse tipo de jogada em UTG, pois, em geral, teremos muitos jogadores ainda para agir e sua jogada tende a funcionar menos.

Obviamente que, uma vez que você não está mais jogando suas cartas mas sim o stack dos seus adversários (e também o seu), alguns efeitos colaterais podem surgir. E para isso você deve também estar preparado para minimizar suas perdas quando suas jogadas não funcionam. Caso alguém pague seu aumento e você seja obrigado a ver um flop, seja o mais cauteloso possível. Em alguns casos, mesmo que um jogador tenha entre 20 e 30bbs, ele pode optar pagar seu aumento preflop. Caso isso aconteça, proceda com extrema cautela, pois com mãos muito fracas suas chances de melhorá-las no flop serão muito baixas.

Quais as a vantagens e desvantagens dessa estratégia?

A grande e principal vantagem dessa estratégia é que você consegue manter seu stack no período de “vacas magras” do seu torneio. Todos nós sabemos que não da pra simplesmente esperar por cartas e por isso devemos agir de forma a compensar esse “problema”. Com roubos de blinds através da estratégia Jogando Stacks, você consegue manter seu stack num nível relativamente saudável, até que mãos boas começam a aparecer. Mas o que aconteceria se estivesse jogando de forma bastante tight, quando todos na mesa têm entre 13 e 28bbs, e você não estivesse aplicando aumentos vez ou outra? Jogadores atentos vão errar cada vez menos quando uma mão boa aparecer, pois sabem que seus aumentos significam muito provavelmente que você tem uma mão bastante forte, logo errarão cometerão bem menos erros.

A grande desvantagem desse tipo de estratégia com mãos fracas é que, uma vez que alguém paga seu aumento, você muito provavelmente        terá grandes dificuldades em levar o pote devido ao baixo potencial de sua mão se desenvolver no pós-flop. Por isso, sempre que seu ataque falhar, proceda com cautela para que você consiga minimizar suas perdas e não se complicar em situações desnecessárias.

Como deixei claro para vocês no decorrer desse artigo, não sou um jogador matemático. Sei que muitos vão discordar desse tipo de estratégia e apresentar números que poderão apresentar um raise com K8o como sendo uma jogada -Ev. No entanto, o que essa estratégia leva em consideração não é apenas a parte matemática. Sua imagem na mesa, a imagem que você tem dos seus adversários, a maneira como você espera que seus adversários venham a reagir contra você, a reação que seus adversários esperam de você contra eles, seu timing, nada disso necessita de cálculos profundos, cálculos esses que você estará impossibilitado de fazer quando receber suas cartas. Portanto, tentem ver todas essas idéias aqui transmitidas não como verdades absolutas, mas sim como ferramentas. Ferramentas que devem ser adaptadas e utilizadas dentro de situações específicas e favoráveis para que você possa tornar uma situação matematicamente -Ev em algo lucrativo, se bem trabalhado.

Grande abraço a todos e gl nas mesas.

Nakama


Veja mais:

Salas de Poker