Considerações Sobre o Slowplay

Por: 27/10/2012

1 – Considere stacks de 100. O herói está em posição, o vilão faz uma aposta de tamanho normal em todas as streets e o herói tem o nuts imortal:

Vilão raise 3x do CO, Herói paga no button com 88. Flop vem 8c 8d Ts. Vilão aposta 2/3 do pote. O que o herói deve fazer?

a) Raise flop. E então fazer apostas de tamanhos proporcionalmente iguais no turn e river para que vá all-in no river. Ou seja, mãos grandes, potes grandes.

b) Call flop, raise turn e shove river. Não há motivos para aumentar em um flop sem draws, mas precisamos começar a crescer o pote no turn preparando para o river.

c) Call flop, call turn e raise/shove river. Slowplay. Deixe o idiota se enforcar.

Respota: Slowplay! Call flop, call turn e raise/shove river.

Ao fazer slowplay até o river, o herói força o vilão a colocar mais dinheiro do que faria se o herói tivesse aumentado no flop ou no turn. Isso vai de contra a visão padrão de “mão grande = pote grande”. A razão para fazer slowplay é que, matematicamente falando, isso força o vilão a colocar mais dinheiro no pote do que se tivéssemos aumentado anteriormente na mão. Vamos ver como isso funciona.

Vamos considerar que o vilão não deve conseguir apostar 100% do seu range no flop lucrativamente. Eu acho que essa é uma consideração razoável, já que mãos como 5h 4h estarão muito fracas. Similarmente, o herói não deve conseguir aumentar OU dar float lucrativamente com todo seu range. Essa também é uma consideração razoável, já que temos muitas mãos fracas que erraram completamente esse board. Com essas duas considerações em mente para cada oponente, você pode achar a linha otimizada para o herói nessa situação.

Quando o vilão aposta 2/3 do pote, sua aposta precisa funcionar 40% das vezes para ser lucrativa, sendo assim o herói precisa se defender 60% das vezes. E você pode usar a mesma lógica se o herói aumentar, já que o vilão precisará pagar nosso aumento uma certa % de vezes, então não conseguiremos ser lucrativos com todo o nosso range.

E por último, quando o vilão aposta 2/3 do pote no flop, estamos recebendo 2.5:1 para pagar, então o vilão precisa apostar ou dar check/call no turn 71.5% das vezes, então também não conseguiremos dar float lucrativamente com todo o nosso range.

Com esses dois conceitos, você pode preparar o mesmo cenário e resolvê-lo sozinho, mas perceberá que o slowplay é a melhor linha com o nuts. Slowplay com o nuts terá um EV maior do que aumentar em uma street anterior.

Por exemplo, quando você aumenta no flop, o vilão defenderá com 50% de seu range, então não podemos aumentar blefando com todo nosso range lucrativamente no flop. Entretanto, você notará que o vilão só irá para o turn com 50% de seu range de apostas no flop. Mas nós já sabíamos que se fizermos slowplay e pagarmos no flop o vilão precisará apostar ou dar check/call em uma aposta no turn 71.5% das vezes. Obviamente, 71.5% é maior que 50%, e embora estejamos ganhando uma aposta no flop quando aumentamos, é mais provável que ganhemos uma aposta muito similar no turn mas em uma frequência mais alta.

Permanece a questão de que, de uma perspectiva teórica faz mais sentido fazer slowplay até o river, mas será que também faz sentido de uma perspectiva exploratória?

Nesse quesito, acho que há alguns problemas em esperar até o river. Primeiro, será mais difícil para o vilão pagar seu aumento no river porque quase ninguém blefa nessa situação. Dificilmente algum oponente neste nível será capaz de dar float no flop e turn com blefe e então aumentar no river quando enfrentar uma aposta. E similarmente, muitos jogadores não são capazes de transformar uma mão feita em blefe no river que provavelmente seria a melhor jogada. Então quando fazemos slowplay até o river e então aumentamos, o vilão provavelmente foldará mais do que teoricamente deveria. Por outro lado, as pessoas estão mais acostumadas com o blefe do vilão em streets anteriores, principalmente no flop. Então é mais provável que você seja pago quando aumentar no flop do que quando aumentar no river. E de algumas maneiras, você provavelmente pode fazer seu oponente pagar seu raise no flop, já que não é uma situação muito normal aumentar nesse flop. E além das tendências nos jogos atuais, as tendências típicas dos vilões regulares também não levam a um slowplay.

Como citado acima, o vilão precisa continuar no turn ou river (seja  apostando ou dando check/call), para que o herói não possa fazer o float no flop com todo o seu range. E enquanto a maioria dos vilões regulares continuará suficientemente no turn, não o farão no river. Em outras palavras, a maioria dos vilões desiste no river então não há incentivo suficiente para esperar o river para aumentar. Essa é outra maneira de dizer que a maioria dos vilões não blefa muito no river e não fazem apostas por valor baixas no river (isso pode parecer contraditório à ideia de que eles foldam muito para um raise no river, mas acho que a maioria dos regulares pode foldar uma mão forte de valor para um raise no river).

2 – Mesma situação que a anterior. Que linha o vilão deve adotar que fará seu bottom calling range o mais forte no river? Perguntando de outra maneira: nós sabemos que o Herói precisa pagar com um certo range para que o vilão não possa apostar lucrativamente com quaisquer duas cartas. A street em que o Herói aumenta com seu nuts determinará qual é a mão mais fraca com que ele precisará pagar no river.

a) Aumentar no flop fortalece é o que mais o range de call do Herói no river?
b) Aumentar no turn fortalece é o que mais o range de call do Herói no river?
c) Aumentar no river fortalece é o que mais o range de call do Herói no river?

Resposta: C. Assim como na primeira pergunta, o slowplay é a jogada que mais fortalecerá o range de call do Herói no river.

Digamos que o Herói tem um range de 1 a 100 sendo 1 o nuts e 100 blefe. Digamos também que o Herói possa aumentar 1-5 por valor em qualquer street. Vamos assumir que o vilão irá apostar o pote em cada street (ignorando o fato de que o vilão est ará all-in no river sem que precisemos aumentar, apenas assuma que os stacks estão deep). Tendo isso em mente…

O vilão aposta no flop. Precisamos nos defender com 50% do nosso range então pagamos com as mãos 1-50.

O vilão aposta no turn. Precisamos nos defender com 50% do nosso range, então pagamos com as mãos 1-25.

O vilão aposta no river. Precisamos defender com 12.5 das mãos combo (arredonde para 13 para facilitar):

Mãos para aumentar por valor: 1-5

Mãos para aumentar por blefe: 12-13

Mãos para pagar: 6-11

Mãos para foldar: 14-15

Então como você pode ver, a pior mão com que precisamos pagar no river para que o vilão não possa blefar lucrativamente com todo seu range é a mão 11.

Agora volte e faça o mesmo exercício como se tivéssemos aumentado no flop, e verão que a pior mão com que precisamos pagar no river será MAIOR que 11… provavelmente será a 15. Em outras palavras, ao fazer slowplay até o river com nossas mãos mais fortes, somos capazes de tornar nosso range de call MAIS FORTE no river, do que se tivéssemos aumentado antes.

De um ponto de vista teórico, nós fortalecemos nosso range ao esperar até o river para aumentar. Entretanto, os mesmos pontos exploratórios pertinentes à primeira questão também se encaixam aqui. Além disso, de um ponto de vista exploratório, nos limites micro os vilões não apostam baixo por valor, então não ganhamos muito ao fortalecer nosso range no river. Por exemplo, se alguns vilões só apostarem com um set no river se não houver flushes possíveis, então por que importa fortalecer nosso range para pagar no river de top pair e segundo kicker para dois pares, porque isso não mudará o quão baixa será a aposta por valor do vilão.

Tamanho das apostas

Embora a análise na questão 1 tenha sido correta, ela também assume que o vilão fez apostas de tamanho normal nas três streets (onde o normal seria algo entre metade do pote e o pote). Se o vilão fizer apostas estranhamente pequenas, então a matemática para o slowplay mudará e teremos que apostar mais cedo.

Por exemplo, digamos que ao invés de apostar 2/3 do pote no flop, o vilão aposte 1 BB, e faça o mesmo no turn e river. O Herói deveria fazer slowplay no flop e turn e esperar até o river para aumentar como foi o caso na primeira mão? NÃO! Nesse caso, o Herói deve apostar no flop, e a resposta correta para a questão 1 seria A! Vejamos o motivo:

Quando o vilão está fora de posição, às vezes uma aposta pequena tem o mesmo efeito que dar check. Por exemplo, uma aposta de 0bb é EXATAMENTE o mesmo que o vilão dar check. Então quando o vilão aposta 1bb, teoricamente não é muito diferente de dar check. E se o vilão daria check no flop, nós teoricamente deveríamos apostar aqui.

Agora você deve estar se pergunta, mas quando o vilão aposta pequeno não significa que ele precisa continuar apostando uma % de vezes muito alta no turn e no river (ainda mais se a aposta for maior) e isso não compensa o fato de que ele está apostando menos? Embora isso seja verdade, quando o vilão fizer uma aposta mais normal, entre metade do pote e o pote, e então fizer uma aposta menor, então será MaisEV para o Herói pagar em uma street anterior.

Posição

A posição tem um papel crítico quando fazemos slowplay porque se não estivermos em posição, não podemos garantir que seremos capazes de fazer a última aposta da mão. Por exemplo, vamos pular as posições dos jogadores na questão 1. Dessa vez o vilão é o BTN e nós somos o CO. O problema aqui é que no river nós daremos check e o vilão às vezes dará check behind e iremos para o showdown. Nessa situação, é diferente porque quando o vilão dá check behind, sinalizando que não tem uma mão forte o suficiente para apostar, não teremos a oportunidade de blefar, ou mais importante nessa situação, de apostar por valor. Sendo assim, quando estivermos fora de posição, às vezes fará mais sentido aumentar no turn ao invés de no river.

Da mesma forma, nós anteriormente falamos que o vilão precisa continuar apostando ou defendendo uma % de vezes baseado no tamanho de suas apostas. Essa matemática não é necessariamente verdadeira se o vilão estiver em posição e alguns de seus blefes forem mais fortes do que nossos blefes quando ele dá check behind no river. Em outras palavras, quando estamos fora de posição, não podemos força-lo a apostar no river tanto quanto gostaríamos.

Textura do board/ranges dinâmicos

Essa é provavelmente a parte mais importante. Nas duas mãos em questão, nós assumimos que temos o nuts supremo e que o vilão não conseguirá nos derrotar no turn e no river. Mas como sabemos, este é um caso muito raro no poker atualmente. Na maioria dos boards, o vilão terá um range de outs no turn que vai de flush draws a gut shots a até mesmo o remoto 2 outter… mas independente de quão frequentemente possamos ser derrotados, nós quase sempre assumimos algum risco quando fazemos slowplay. Sendo assim, precisamos ver os benefícios que ganhamos ao fazer slowplay e compará-los com o risco de sermos derrotados.

A equidade das nossas mãos de slowplay é relativa ao range dos nossos oponentes. Mas uma maneira comum de determinar o potencial de acertar draws do range deles é baseá-lo em na textura do board. Quanto mais draws, maior é o risco de sermos derrotados. Entretanto, a questão é que quando uma porção significativa do range do vilão é composta por mãos que podem nos derrotar na próxima street, então os benefícios do slowplay são menores que o risco da derrota.

Nessas situações, para que possamos nos beneficiar pelo slowplay, o vilão precisa ser capaz de apostar alto nas streets posteriores. Quanto maior for essa aposta, mais ele se tornará comprometido com o pote e menor serão os implied odds de seus draws. Dessa forma, slowplay é provavelmente mais incorreto em boards com muitos draws se for mais provável que o vilão fará uma aposta de 2/3 do pote no turn com a maioria de suas mãos. Entretanto, se o vião for capaz de fazer overbets em turns inúteis, então o slowplay pode ser pior do que aumentar antes. Por outro lado, se o board for dry (o range do vilão não tem muita equidade comparado à nossa mão), então teoricamente é correto fazer o slowplay.

Tamanhos dos stacks

Não há muito a dizer sobre o tamanho do stacks além de que o risco de ser derrotado quando fazemos slowplay aumenta junto com os stacks porque há mais dinheiro em jogo.

Historiador por formação, conheceu o MaisEV em sua primeira semana de vida, ainda em 2007. Em pouco tempo, tornou-se editor-chefe do site para fazer o que faz de melhor: escrever.

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